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sexta-feira, 16 abril 2021

Ilma Cunha: depressão e ansiedade na pandemia

“A depressão não leva à possessão, mas, o inimigo aproveita as fragilidades para oprimir com pensamentos perturbadores nas questões espirituais”, afirma a psicanalista, Ilma Cunha

Por Priscilla Cerqueira 

Já parou para pensar como tem gente deprimida e ansiosa à nossa volta? A ansiedade leva a depressão, ao suicídio. Há uma desesperança, perda de significado da vida, ânimos à flor da pele, uma profunda tristeza… São as doenças da alma, que ganharam força total nesta pandemia, causada pelo novo coronavírus.

Nesse turbilhão de emoções que estamos vivendo, é possível tratar esses transtornos psicológicos? Onde acaba a terapia e começa o tratamento espiritual? Onde acaba o espiritual e começa o terapêutico? A psicanalista e terapeuta familiar, Ilma Cunha, que há mais de 20 anos atua como palestrante no Brasil e no exterior em temas voltados para a família, relacionamentos e comportamentos, afirma que “esses sentimentos de medo, incertezas, insegurança e ansiedade, não só adoecem a alma como também o corpo, pois entramos em algo que nunca ninguém viveu”.

O cenário é tão devastador que todo esse adoecimento está denunciando o quanto as relações familiares estão adoecidas. Embora estejamos num cenário desafiador, a esperança é a âncora da alma. Em entrevista à Comunhão, Ilma fala da depressão,
da busca incessante de Deus e como a liderança evangélica deve lidar com as questões da alma. Confira!

Durante a pandemia, algo que já estava muito forte na vida das pessoas se amplificou, que foram as doenças da alma. Por que isso aconteceu? E como tratar isso?
Há algum tempo estamos vendo um crescimento assustador das doenças da alma. O estilo de vida que vivemos hoje, como as famílias têm se organizado, o ativismo, o trabalho, o alto nível de cobrança e até mesmo a própria tecnologia, tem afetado as pessoas no sentido de que elas estão desconectadas de si mesmas.

A pandemia cria um cenário favorável para isso. Medo, incertezas, insegurança e ansiedade são sentimentos que não só adoecem a alma, mas também o corpo, pois entramos em algo que nunca ninguém viveu. O algo novo é assustador e de repente todos têm que paralisar a vida. Estamos diante de uma doença ainda desconhecida, muitas pessoas morreram. Além do novo, do assustador, da incerteza e da questão financeira, muitos tiveram que se reinventar, mas a morte contribuiu para as doenças da alma, pois estamos vendo mortes que não permitem velório.

As pessoas não estão elaborando o luto. Essa interrupção do ciclo da vida é muito brusca, pausando a vida num ponto de dor. O excesso de trabalho, que acaba levando a pessoa ao esgotamento emocional, afetando o corpo e a alma, também contribuiu para amplificar as doenças da alma.

É preciso falar e lidar com a dor. Não adianta fazer de conta que a dor não existe, pois, essas doenças acarretam também as psicossomáticas, depositando no corpo as dores da alma. A dor e as emoções tóxicas denunciam o adoecimento da alma, como o medo de morte, da solidão, do isolamento, que é outro cenário que a pandemia trouxe. As pessoas precisam parar para entender o que está acontecendo e buscar ajuda de escuta, física e espiritual.

Podemos dizer que na esteira do coronavírus e seus desdobramentos, transtornos psicológicos e um turbilhão de sensações que as pessoas passaram a sentir, irão representar uma segunda onda de estragos à saúde?

Nós sabemos o quanto agravou os dados sobre a saúde mental no mundo, nesse tempo que estamos vivendo. As consequências psicológicas da pandemia serão vistas por algum tempo, por conta das incertezas que vão produzindo medo, ansiedade, e que vão sendo gatilhos para as crises de pânico, de angústias, que são produzidas pelo desemprego, perdas por mortes, lutos não elaborados e principalmente pelos problemas familiares.

O cenário é tão devastador que todo esse adoecimento está denunciando o quanto as relações familiares estão adoecidas. E nós nunca vimos um tempo onde esses problemas estivessem tão visíveis. O trabalho é uma forma de deslocar as angústias e esconder muitos conflitos familiares. Então esses lugares de refúgio, que harmonizam a alma, estão sendo atingidos fortemente. O aumento de separações e divórcios denunciam esses problemas que afloram na pandemia.

Há uma contaminação muito pior do que a covid-19, que é a da subjetividade do ser humano, da mente, emoções e vontade. Essa estrutura da alma, essa mente que tem sido tão contaminada e as emoções incertas que produzem angústias avassaladoras. Hoje tem muitas famílias cenográficas, perfeitas por fora, e sem vida por dentro, vazias de emoções e de relacionamentos significativos. E quando não tem calor, a comunicação também fica distorcida, comprometendo a intimidade relacional. São pessoas estranhas no mesmo espaço.

Muitos pais perderam a paciência com os filhos porque tudo foi para dentro de casa e aí a crise vem, e as pessoas não conseguem se relacionar. Muitas pessoas estão se demitindo da vida, da alegria de viver e tem tido dificuldade em lidar com as lutas da vida.

Com os desdobramentos da era da pandemia, ainda vamos ver muitos estragos da saúde emocional, teremos mais casos de transtornos de pânico, de ansiedade, bipolaridade e outros que ainda vão surgir nesse tempo.

Onde acaba a terapia e começa o tratamento espiritual? E onde acaba o espiritual e começa o terapêutico?
O ser humano é um ser integral, então quando se olha só o corpo, só o sintoma e não olha o indivíduo como ser integral, não atingimos os resultados. Uma grande parte da cura está em como a pessoa vai lidar com a doença. A terapia é um processo necessário, pois é onde a pessoa vai lidar com as suas dores e angústias. E quando estamos falando da nossa dor vamos encontrando mecanismos para lidar com o sofrimento e reconhecer as feridas da alma, pois é possível enxergar um ponto de dor para transformá-lo em um ponto de cura. A terapia é importante para as doenças da alma, mas não conseguimos dissociar isso do tratamento espiritual, ou seja, a fé, a esperança, a conexão que a pessoa tem com Deus, suas crenças é importante. Creio na resposta de Deus para a humanidade, mas é preciso entender em como lidar com isso de uma maneira responsável e ética para não espiritualizar tudo. O ser humano precisa ser olhado como o todo. A medicação, a terapia e o espiritual precisam caminhar juntos. A ciência trata o corpo, mas precisamos ver um tratamento integral, para que haja um alinhamento entre espírito, alma e corpo.

Do ponto de vista pastoral e psicológico, como os líderes devem lidar com as questões relacionadas a alma?
Essa é uma questão fundamental, pois muitas pessoas, dentro da igreja,  tem dificuldade de abrir o coração para a liderança com medo de serem julgadas. Muitas vezes, para alguns, poderia ser mais fácil fazer de conta que não estava vendo. As questões da alma também precisam ser olhadas, pois é a nossa humanidade. Nós sofremos, temos a dor, a alma adoece e a igreja precisa ser não só um pronto socorro que acolhe a pessoa que está sofrendo naquele momento, mas precisa ter um centro cirúrgico, ir na origem da doença. É preciso uma percepção dessas doenças para que no ponto de vista pastoral, as pessoas sejam olhadas e atendidas.

Os líderes precisam estar atentos às coisas que estão acontecendo a sua volta e daqui para frente será muito mais. A liderança evangélica vai precisar buscar conhecimento nesta área, pois vamos ver muitas pessoas sofrendo as doenças da alma. Quando a alma vai bem o corpo recebe os benefícios.

A liderança amorosa, responsável, que olha o ser humano como um todo, que sai do pedestal da crítica para entender que todo mundo pode passar por uma doença da alma. É preciso olhar para além da angústia da alma, pois há algo que clama por acolhimento, por amor. A Palavra traz a restauração da alma, a renovação da mente é propícia conforto para a alma.

As pessoas pararam de buscar em Deus a solução para os seus problemas?
Não, mas percebo que a debilidade física deixou muitas pessoas sem ânimo até mesmo para momentos de oração e leitura da palavra. A fé em Deus, a confiança que a vida está nas mãos d’Ele foi a sustentação de muitos nesses momentos difíceis. As orações e as mensagens on-line foram e têm sido essenciais para o fortalecimento da fé e da esperança neste tempo desafiador.

A depressão leva a possessão?
A depressão é uma doença que afeta o corpo, a alma e o espírito. Não creio que a depressão leva à possessão, mas, muitas vezes o inimigo aproveita as fragilidades da pessoa para oprimir com pensamentos obsessivos bem perturbadores nas questões espirituais. É essencial o acompanhamento espiritual da pessoa com depressão,
e a constante observação para perceber qualquer sinal de ideação suicida.

A Bíblia diz que “a esperança é a âncora da alma”, então, com todos os desafios nesse “sofrimento psicológico” causado pela pandemia, como viver uma fé inabalável? Dá para se ter paz em dias turbulentos?
É possível sim ter paz em tempos turbulentos. Está é uma promessa bíblica.
O Espírito Santo nos foi dado e a presença dele é a garantia dessa promessa que se transformou em realidade. A paz envolve a alma e harmoniza o psiquismo. É sobrenatural o que acontece quando se ancora na esperança, para se vencer as turbulências do presente. Olhar para o que Deus já fez em nossa vida, sua grande prova de amor, o que Ele prometeu fazer, a bem-aventurada esperança de vida eterna em Cristo Jesus, promove equilíbrio nos neurotransmissores, tranquiliza e aquieta a alma e traz benefícios para o corpo. Quem já experimentou viver a Paz em meio à tormenta compreende a função da esperança como “âncora da alma” e a diferença que faz ter a convicção que a vida e a morte estão nas mãos do Deus soberano.

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