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sábado, 19 junho 2021

Igrejas no vermelho! Como manter as contas em dia?

Em tempos de pandemia, igrejas e organizações religiosas estão reorganizando a gestão financeira

Por Patrícia Scott

Desemprego, mortes, salários reduzidos, contratos suspensos, inflação em alta, isolamento social. Há mais de um ano, a sociedade sente de maneira severa o impacto da Covid-19, sendo inevitáveis os “respingos” na Igreja, que está aprendendo na prática a lidar com a nova realidade. A comunhão presencial entre os irmãos se tornou em grande parte virtual, alavancada pelos cultos online, lives, células na web.

Diante de um momento de tantas dúvidas e incertezas, os templos ficaram fechados em vários momentos e, em outros, com restrições no acesso, reduzindo o número de fieis. Por isso, as igrejas precisaram se reinventar perante os desafios, pois o avanço do Evangelho não pode parar, afinal a instituição funciona como uma organização sem fins lucrativos, mas tem muitos deveres a serem cumpridos, inclusive os financeiros.

Muitas denominações contam com funcionários em seus sistemas organizacionais. Isso implica em pagamento de impostos, salários, o sustento pastoral e dos missionários, sem contar luz, água, aluguel, manutenção da infraestrutura, internet e tantas outras despesas, que variam conforme o tamanho da instituição eclesiástica. Nesse contexto de mudança constante os reflexos são percebidos também no fluxo financeiro das igrejas.

Pesquisa realizada pela Invisible College, startup de ensino teológico com viés reformado, aponta que, em 2020, quase um terço das igrejas evangélicas tiveram significativa queda orçamentária: entre 25% e 50%. Outros 21,3% não apresentaram alterações em suas entradas e 4,8% revelaram superávit [diferença para mais entre receita e despesa]. Quedas dramáticas na arrecadação foram apresentadas por 12,5% (déficit de 50% a 75%), 1,5% relatou queda extrema entre 75% e 90% e 1,1%, mais de 90%. O estudo abrangeu 270 igrejas, de diferentes denominações, nos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal.

Sabedoria e criatividade

Para lidar com as oscilações e até mesmo com a diminuição na entrada de recursos gerada pelos dízimos e pelas ofertas, em virtude do desemprego, mortes e afastamento dos membros da igreja, como resultado da pandemia, é importante pensar em economizar avaliando a realidade da comunidade.

Foto: Invisible College Brasil

Essa é a opinião do advogado Thiago Rafael Vieira, presidente do Instituto Brasileiro de Direito e Religião e coautor do livro Direito Religioso: orientações práticas em tempos de Covid-19. “Não há um modelo pré-definido, já que os impactos são diferentes para cada denominação. A palavra de ordem do momento é negociar”, analisa e acrescenta: “Inúmeras igrejas acertaram ‘os ponteiros’ em seus contratos locatícios, por exemplo, mediante assinatura de aditivos contratuais”.

Evitar investimentos altos e parcelas longas e cortar despesas desnecessárias, segundo o Pr. Jarvis Brito, formado em administração de empresas, além de uma fiscalização aguçada e constante, é fundamental nesse momento de instabilidade econômica. “A liderança precisa ser rápida e eficaz em cada ajuste, tendo em vista as modificações que acontecem diariamente”, aconselha, lembrando-se do personagem bíblico José, do Egito. “Ele teve uma administração diferenciada em tempos de adversidade, porque possuía sabedoria e criatividade”.

É preciso entender, de acordo com o Pr. Jarvis, que a igreja fica prejudicada em momentos de crise, já que muitos projetos que impulsionam a propagação do Evangelho ficam paralisados, sem contar que as instituições menores têm dificuldades até mesmo de honrar com as despesas básicas. “No entanto, jamais deixará de avançar e abençoar vidas, porque a obra é do Senhor. Ele é o maior interessado em resgatar os perdidos e estabelecer o Reino na Terra”.

Providência divina

A Bíblia, em Ageu 2:8, traz uma palavra de consolo para todos os que fazem parte da Igreja do Senhor e que foram atingidos, direta ou indiretamente, pela pandemia: “Porquanto, toda prata e todo ouro a mim pertencem”. A mais inesperada das calamidades, incluindo as de alcance internacional, não são capazes de limitar a providência de Deus.

No ano passado, a Igreja Presbiteriana do Brasil cresceu em torno de 3% em cima da meta financeira traçada. “Dentro dos patamares históricos, não foi significativo. No entanto, estamos honrando com todos os nossos compromissos”, revela o presbítero José Alfredo Marques Almeida, tesoureiro nacional da denominação. Ele conta, por exemplo, que nenhum campo missionário foi fechado, e os investimentos em evangelização estão mantidos. “Entretanto, para permanecermos com nossas frentes de trabalho foram necessários ajustes orçamentários, cortando os gastos que não eram prioridade”.

Thiago Vieira Igreja no Vermelho
O advogado Thiago Vieira orienta os gestores a negociar contratos – Foto: Divulgação

Esse equilíbrio financeiro, na opinião de José Alfredo, tem sido possível, além da ação sobrenatural de Deus, graças à aliança dos membros com a denominação, que gera responsabilidade e compromisso com a obra do Senhor. “A igreja passou a ser presencial, semipresencial e online, por isso a liderança precisa se desdobrar, para que os membros não se percam, mas permaneçam fiéis”, analisa. Por outro lado, o presbítero afirma que o momento é de oportunidade de novas formas de relacionamento entre a igreja viva [Corpo de Cristo] e a instituição. “Essa construção é importante e chegou para ficar. O modelo virtual permanecerá, e as pessoas entenderam que, mesmo virtualmente, fazem parte da comunidade eclesiástica”.

As igrejas batistas, de um modo geral, como qualquer organização do país, segundo o Pr. Sócrates Oliveira de Souza, diretor-executivo da Convenção Batista Brasileira, têm tido algumas dificuldades financeiras devido à pandemia. “A maioria dos nossos cultos não é presencial. Então, tomamos medidas, criando mecanismo para a entrega dos dízimos e das ofertas”, frisa o pastor, afirmando, inclusive, que em algumas localidades o dirigente encaminha um jovem à casa do membro para recolher o dízimo e/ou oferta. “Reduzimos os nossos custos, e estamos sempre negociando com os fornecedores”, pontua.

Este é o momento de aprendizado, de acordo com ele, para a Igreja que utiliza as mídias sociais para manter os membros unidos e atuantes. “Temos igrejas realizando batismos. Novas pessoas têm chegado, e outras, deixado de congregar”, informa Souza.

Causa do Evangelho

Na Assembleia de Deus, a maior denominação evangélica do Brasil, a realidade não é muito diferente. “Muitos estão desempregados, e os cultos presenciais em vários lugares estão suspensos ou esvaziados, o que impacta a receita da igreja”, avalia o Pr. Elizeu Alves Gomes Cardoso, presidente da Convenção Estadual das Assembleias de Deus do Brasil no Estado do Rio de Janeiro (Ceaderj), ligada à Convenção Geral das AD’s no Brasil (CGADB).

Fonte: Especialistas Consultados

Ele enfatiza que a pandemia evidenciou a importância da organização financeira para o ambiente eclesiástico. “Precisamos de igrejas sadias. Isso passa também pelas finanças”, pondera, indicando que medidas foram adotadas para captação de recursos financeiros, como a possibilidade de transferência bancária, depósito e Pix [meio de receber e enviar pagamento eletronicamente]. “Nunca antes foi tão importante cada evangélico se identificar e se doar pela causa do Reino, a partir da sua denominação em unidade e comunhão”, afirma.

A Igreja Metodista, em Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro, não tem enfrentado dificuldades financeiras nesse tempo de pandemia. “Temos visto a provisão de Deus. Os dízimos permanecem praticamente inalterados, mas houve certa diminuição das ofertas”, revela o reverendo Alberto Saraiva. Ele entende que essa realidade é devido ao agir de Deus, como também à fidelidade dos metodistas, que percebem a seriedade na aplicação dos recursos financeiros. “Sempre prestamos contas durante os cultos”, assegura, acrescentado que os membros conhecem todas as ações desenvolvidas pela igreja e, por isso, compreendem a importância de se manterem fiéis a Deus e à igreja. “Sem contar que entregar o dízimo e a oferta é ensinamento do Senhor, que reflete obediência, gratidão e adoração”, lembra Saraiva.

Mesmo sem passar por dificuldades, a igreja do reverendo se ajustou. Alguns custos variáveis reduziram significativamente, de acordo com ele, em consequência da diminuição das atividades presenciais. “Assim, pudemos realizar obras de manutenção de conservação do patrimônio da igreja”.

O reverendo acredita que a igreja depende do Senhor, que supre as necessidades e provê o seu povo. No entanto, isso não exime o povo de Deus de ser zeloso com a casa do Pai, tendo rigoroso cuidado administrativo. “Com a crise tivemos que aumentar o controle das finanças e o rigor na seleção dos gastos”. Vale ressaltar que a Igreja Metodista, em Vila Isabel, possui o Ministério de Apoio Administrativo (MAAD), cuja atribuição é justamente propor ações de gestão à igreja, auxiliando a liderança nas tarefas administrativas e financeiras.

Novo foco

No entendimento do especialista em liderança e planejamento, Josué Campanhã, presidente da Envisionar – Estratégia e Capacitação de Líderes, os problemas enfrentados atualmente pelas igrejas nas gestões de finanças e administração já existiam antes da Covid-19. “Eram deixados de lado, mas a pandemia os trouxe à tona”, sinaliza.

Ele orienta as igrejas, independentemente de momento de crise, a buscarem profissionais das áreas de administração e gestão. “Assim, possibilitarão um alicerce de excelência, e os pastores poderão priorizar o ministério”, salienta. Segundo ele, pesquisas realizadas no Brasil, pelo Sepal, e nos EUA, pela Christianity Today, apontam que 80% dos pastores não têm especialidade em gestão ou não possuem aptidão nesse segmento.

“A pandemia está fazendo uma revolução na gestão das igrejas não somente em termos financeiros e administrativos, mas de foco”, pondera Josué Campanhã. Segundo ele, é a grande oportunidade de redescobrir o foco. “A igreja vinha nos últimos 50, 100 anos, envolvida em muitas atividades que não têm ligação com a sua essência”, diz. Chegou a hora, na visão do especialista, de ajuste dos objetivos e de voltar para a missão. “A gestão administrativa e financeira será consequência. Primeiro, é preciso definir onde se deseja chegar. Depois, deve-se detalhar como gerir os recursos e determinar o tempo para se alcançar as metas”, aconselha.

O financista Rodrigo Coutinho, diretor da Beside Soluções Empresariais, explica que crises são nomes dados a mudanças bruscas de situação ou comportamento que permanecem sendo apenas mudanças, embora fortes. “É hora de aprender o novo. Não há crescimento sem aprendizado”, sentencia.

No aspecto financeiro e administrativo são importantes, segundo ele, novos métodos de recebimento, assim como de comunicação, resultados e prestação de contas. “Tudo isso pode contribuir para um equilíbrio em um novo momento social”, opina. Em contrapartida, Rodrigo enxerga possibilidade de crescimento e desenvolvimento a partir do envolvimento dos membros, mesmo que em um relacionamento virtual. “Já era uma realidade fora da igreja. Agora, pode gerar aprendizados para o ambiente eclesiástico”.

Igreja no Vermelho Igreja no Vermelho
Jorge Monteiro: envio de dízimo de forma eletrônica – Foto: Divulgação

Compromisso com o Reino

Como mentor em gestão de igrejas, o Pr. Jorge Monteiro tem percebido queda na receita de muitas comunidades eclesiásticas pelo Brasil, a partir da pandemia, o que trouxe impacto na forma como as doações são recebidas. “Com isso, as denominações tiveram que se adaptar à realidade do envio dos dízimos e ofertas pelos membros de forma eletrônica”. Por outro lado, ele lembra que o número de pessoas em dificuldade financeira é bastante significativo, o que reflete na arrecadação. “Automaticamente, a liderança precisa reavaliar as prioridades, já que os recursos disponíveis oscilam mês a mês”.

O pastor também enfatiza que diante de tantas medidas adotados pelo poder público para conter o avanço da pandemia no país, há muitas incertezas e dúvidas. Logo, a liderança precisa estar sempre ajustando as estratégias para manter os fiéis aliançados. “Há muita inconstância, por isso as ações da igreja precisam estar em constante atualização”, frisa, ressaltando que é necessário investir em relacionamento, para que os membros, independentemente das circunstâncias, permaneçam envolvidos e conscientes das responsabilidades, sejam espirituais, sociais ou financeiras.

Relacionamento. Esta é a palavra que necessita ser evidenciada pela liderança, na visão de Jorge Monteiro. No momento atual, isso ocorre virtual ou presencialmente. “As igrejas precisam estar preparadas e investir em tecnologia, porque a comunhão online permanecerá, mesmo no pós-pandemia”, sinaliza. Ele pondera que igreja não é como uma empresa, que faz promoção de produtos e/ou serviços para aumentar a receita. “O que acarreta aumento nas doações é o vínculo entre o membro e a igreja, que proporciona aliança e responsabilidade com o Reino de Deus, com base na Palavra do Senhor”.

Em Salmos 133:1, o rei Davi afirma: Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união! União gera relacionamento com propósito. E qual deve ser o propósito em contribuir financeiramente com a Casa de Deus? A grande obra do Senhor a ser realizada (1 Crônicas 29:1). Entretanto, a motivação precisa estar ligada ao grande amor a Deus e à Sua obra (1 Crônicas 29:3), à alegria do Pai (1 Cr 29:5-9), ao privilégio e à oportunidade de ser coparticipante do avanço do Evangelho na Terra.

 

Leituras sobre gestão das igrejas

A igreja pós quarentena

Thom S. Rainer – Editora CPAD

Este livro ajuda pastores e líderes a prepararem as igrejas para o mundo pós-quarentena, identificando oportunidades-chave para suas congregações. Leia um trecho clicando na imagem.

 

 

 

 

 

 

 

Direito religioso: orientações práticas em tempos de covid-19

Thiago Rafael Vieira e Jean Regina – Editora Monergismo

Os autores oferecem um guia para ajudar as igrejas locais com assuntos financeiros e administrativos. O e-book gratuito e atualizado está disponível no site: bit.ly/direitoreligioso

 

 

 

 

 

 

 

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