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terça-feira, 24 novembro 2020

Igrejas que influenciam

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Ações educativas e de prevenção podem ser disseminadas a partir do maior engajamento da Igreja. Reunidos pelo menos duas vezes por semana, os evangélicos podem ser poderosos aliados para a mobilização em questões comuns a toda a sociedade

Inserida no meio da sociedade, convivendo com os mesmos problemas e desafios de qualquer cidadão, a Igreja tem ao longo dos anos atuado em determinadas frentes para minimizar algumas barreiras, sobretudo na área social, como no combate às drogas e na distribuição de alimentos e roupas.

No entanto, com a força que ela tem, até mesmo pelo número crescente de evangélicos, a Igreja poderia desempenhar um papel ainda mais relevante, influenciando em áreas que vão além do plano religioso. São temas que afetam todos os moradores de uma cidade, sem distinção de idade, raça ou credo, como por exemplo: combate à dengue, limpeza pública, enchentes, coleta seletiva, mobilidade urbana, prevenção ao câncer de mama e próstata, e doação de órgãos.

Não há como fugir. No Espírito Santo, onde há mais de 3,5 milhões de habitantes, estatísticas comprovam que quase 40% da população são membros de alguma igreja evangélica. Isso representa mais de 1 milhão de evangélicos, que diariamente também estão sujeitos a serem picados por mosquitos Aedes aegypti, serem diagnosticados com câncer, diabetes, ficarem presos no trânsito por causa do excesso de veículos, serem vítimas de enchentes (que com simples ações poderiam ser minimizadas), sofrerem com a degradação do meio ambiente, etc.

Por que a Igreja não abraça essas causas, tornando-se uma aliada do poder público e sociedade, uma ferramenta mais direta e eficaz para se chegar a um número expressivo de cidadãos? E por que o próprio poder público não aproveita e utiliza formalmente essa instituição organizada para propagar ideias que vão gerar bem-estar para toda a cidade? Se um terço da população for informado e adotar algumas práticas pregadas por órgãos do Governo, um terço já estará mobilizado e ajudando a mobilizar.

Essas análises e questionamentos serão levantados pela Revista Comunhão nesta reportagem e em uma série de outras matérias que vão abordar, nos próximos meses, o tema da Igreja como multiplicadora de conceitos e ações de interesse comunitário.

O pastor José Ernesto Conti, da Igreja Presbiteriana Água Viva, no bairro Estrelinha, em Vitória, ressalta a importância de envolver os cristãos com essas questões. “Temos que, como Igreja, nos preocupar com as coisas que afetam o mundo, porque elas também nos afetam. E podemos ajudar com ações simples, como uma fala na hora do culto ou uma publicação no boletim. As reuniões das sociedades internas, como de mulheres, homens e jovens, também devem auxiliar, estimulando palestras sobre os assuntos que estão mais em voga”, detalha.

Hora do poder público se aproximar

Mas o pastor também ressalta que falta iniciativa do poder público para aproximar as ações educativas e preventivas das igrejas, o que seria uma importante estratégia para combater doenças e minimizar problemas da sociedade.

“Acredito que o Governo ainda não se atentou que grande parte da população está reunida em um só lugar: a Igreja. Então, se quiser falar com essa parcela grande da sociedade, é só falar com a Igreja. O poder público, inclusive, poderia desenvolver materiais informativos para os evangélicos, mas sem criar separação com o restante da população”, destaca Ernesto Conti.

Já o pastor Moisés Dias Júnior, da Associação Sul Espírito-Santense das Igrejas Adventistas, exemplifica com a campanha de doação de sangue a força e a diferença que a Igreja pode exercer na comunidade onde atua. “Imagina se o Governo criasse um banco de dados com os doadores de sangue das igrejas, e entrasse em contato quando fosse preciso? A doação de sangue é a prática de um mandamento de Cristo, que é amar ao próximo como a si mesmo. É obrigação da Igreja”, afirma.

O pastor ainda acrescenta: “Podemos ajudar multiplicando essas ideias, fazendo os membros entenderem a importância de participar ativamente da sociedade, influenciando, opinando e agindo. O problema é que o poder público não tem estendido a mão para as igrejas, ou então ignora o poder delas. Se o Governo enxergasse isso, teria um importante aliado. Digo isso levando-se em conta ainda as igrejas católicas, que poderiam exercer uma ação eficaz também”.

A igreja pode frear a dengue

Com a chegada do verão, um dos problemas mais frequentes é a epidemia da dengue. Os números de infectatos pelo mosquito Aedes aegypti são alarmantes no país e no território capixaba. Em 2009, no Estado, foram 53.708 pessoas doentes. No ano seguinte, 40.761. E em 2011, 54.648 moradores do Espírito Santo foram infectados, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde. Muitos não resistiram e morreram.

A proliferação da doença ocorre sobretudo entre os meses de janeiro e maio, sendo que as condições climáticas afetam diretamente nessa epidemia. A grande dificuldade em se combater o mosquito Aedes aegypti é que sua reprodução ocorre em qualquer recipiente utilizado para armazenar água, seja com sombra ou sol.

Dessa forma, é preciso uma mobilização comunitária para que, com a adoção de medidas simples, seja interrompido o ciclo de transmissão e contaminação. Se o engajamento não acontecer, as ações isoladas podem ser insuficientes para acabar com os focos da doença. Nesse ponto entra a Igreja.

A assistente social Miriam Gonçalves Nunes, coordenadora do Programa Saúde e Vida da Primeira Igreja Batista de Vitória (PIBV), destacou que já foi atrás de material informativo na prefeitura da capital para distribuir entre os membros da congregação.

“Eu liguei para o centro de referência de dengue da prefeitura e depois fui até lá pegar os folhetos explicativos. Entreguei na igreja e foi muito bom porque era algo completo, que ajudou no combate à dengue, evitando até mesmo que membros da igreja adoecessem. É uma ação simples, mas que leva informação e com isso evita a disseminação de uma doença. Quantas pessoas já morreram por causa da dengue? Temos que, como Igreja, nos mobilizar”, diz a assistente social.

Miriam Gonçalves ressalta que as orientações, sobre outros problemas de saúde, podem ser dadas através do boletim semanal da igreja, do site da congregação, dos quadros de avisos e no momento de informações do culto.

Como exemplo ela cita o envolvimento da PIBV no combate à gripe suína, em 2009. “Todo mundo estava assustado, então adotamos algumas medidas, como espalhar álcool em gel nos banheiros. Mas também passamos a publicar no site da igreja e no boletim quais eram os sintomas e as ações preventivas”, destaca Miriam.

O poder da Igreja como disseminadora de ações para conter o avanço da dengue é apenas um ponto que pode ser trabalhado, seja pelos pastores e líderes religiosos, ou pelos governantes. Há outras áreas além da assistência social e combate às drogas, normalmente carros-chefes das instituições cristãs, que os evangélicos podem ajudar. E elas são muitas vezes mais simples de atuar, como a vacinação, mobilizando os membros a comparecerem aos postos de saúde nos dias de campanha; a mobilidade urbana, incentivando o uso de bicicletas ou até mesmo pegar carona para reduzir o número de veículos nas ruas; e a coleta seletiva, explicando que isso ajuda a preservar o meio ambiente e pode evitar inclusive alagamentos.

São medidas simples, que podem aparentemente estar longe do papel da Igreja, de evangelizar, mas que cumprem exatamente as orientações bíblicas de amar ao próximo e cuidar do mundo criado pelas mãos de Deus.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita

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