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terça-feira, 4 agosto, 2020

Nem Satanás e nem a Gaviões ganharam

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A escola encenou uma luta sugerindo o Diabo pisando em Jesus. Convenção Evangélica dos Ministros das Assembleias de Deus do Estado/ES diz que atitude “desrespeita os cristãos”.

O desfile da escola de samba Gaviões da Fiel, realizado na madrugada do último domingo (03), em São Paulo gerou polêmica na internet. É que a organização resolveu reproduzir, na comissão de frente, uma encenação em que sugere Satanás zombasse de Jesus Cristo.

A Frente Parlamentar Evangélica se manifestou alegando o estímulo à intolerância religiosa e, em vez de arte, a escola praticou um crime.

“Entendemos que aquela apresentação não é arte, é crime. Nenhum direito é absoluto, logo o direito à manifestação artística não se sobrepõe à inviolabilidade da consciência e da crença. As palavras do coreógrafo Edigar Junior revelam qual era o propósito: ‘O foco era chocar. (…) Alcançamos nosso objetivo que era mexer com a polêmica Jesus e o diabo e a fé de cada um’, disse”, segundo trecho da nota de repúdio divulgada pela frente, presidida interinamente pelo deputado Lincoln Portela (PR-MG).

Nesta quarta (06), a Convenção Evangélica dos Ministros das Assembleias de Deus do Estado/ES, (CEMADES) publicou uma nota de repúdio contra a Escola de Samba Gaviões da Fiel. No documento, o órgão alega que “em nome da arte desrespeitam os cristãos, fazendo apologia explícita absurda à escárnio da fé alheia”.

O texto considera tal atitude como “intolerância religiosa”. E acrescenta: “Abomina-se veementemente a iniciativa da escola de samba por se prestar à práticas infames, que atentam nocivamente contra todos os pilares, princípios cristãos e da família brasileira que em sua maioria tem fé em Jesus Cristo, além de menosprezar a fé cristã”, diz a nota, que foi escrita pelo presidente, pastor Álvaro Lima, que também preside o Conselho Estadual das Igrejas evangélicas do Espírito Santo (CEIGEVES). A entidade também emitiu nota de repúdio considerando que “em nome da arte, desrespeito aos cristãos, religião, igreja…fazendo apologia explícita absurda a escárnio da fé alheia”.

Preconceito

O teólogo Roney Cozzer falou do preconceito sendo usado na arte. “Observamos neste carnaval mais um episódio triste de desrespeito ao outro, à sensibilidade religiosa de milhões de pessoas que tem em Jesus o seu Senhor. Como cristão, não me sinto a vontade com crentes que zombam de adventistas, de católicos, de espíritas, etc. Espero que de igual modo as instituições sociais não evangélicas respeitem minha fé, minha crença, aquilo que orienta minha vida. Como ouvi certa vez numa aula de Psicanálise, “aquilo que não significa nada para mim, pode significar um mundo para o outro”.

Fotos: Gilson Borba

Desaprovação da torcida

Nas redes sociais, uma chuva de críticos à ação da escola. Até mesmo entre os torcedores. Em um vídeo da encenação divulgado no YouTube, membros da torcida da própria escola manifestaram unanimemente opiniões de desaprovação da representação da “luta contra o bem e o mal”.

“Eu sou Corinthiano, mas isso aí é uma palhaçada. Aonde já se viu fazer um negócio desses?! Uma blasfêmia contra o nosso Deus”, publicou um internauta. “Sou Corinthiano, mas deixo bem claro isso não me representa. Ridículo isso de brincar com Deus!”, dizia outra publicação.

Assista

Posicionamentos

Vários textos, matérias e artigos surgiram na internet sobre o enredo “O Diabo venceu”. Muitos alegaram que a encenação não se tratava de Jesus Cristo e sim, uma referência a Santo Antão. “Não era Jesus, o personagem apresentado na avenida do samba foi um emblemático cristão da história patrística. Trata-se de Santo Antão, o “Santo do Deserto”, o Santo Antão do Egito, o Anacoreta ou ainda “O Pai de Todos os Monges”, alegou Weverton Santiago, no site aquinoticas.com.

Apesar disso, os próprios integrantes da escola, incluindo os atores que participaram da encenação disseram que o personagem era mesmo Jesus Cristo. Mas muitos aprovaram a apresentação. “Parabéns a Gaviões da Fiel pelo seu desfile e por trazer a avenida seu inofensivo ‘diabo’. Com toda certeza esse ‘diabinho avermelhado’ não é o problema central do Brasil, e sim, os camuflados diabos da religião e da política brasileira. Enfim, o diabo continua vestindo Prada e Prata”,escreveu Weverton, que exortou para a necessidade de não deixar a fé ser abalada por uma simples encenação de carnaval.

Fotos: Gilson Borba

As colocações favoráveis ao desfile da Gaviões usaram como argumento posturas e atitudes de ‘pecados’ de quem se declara cristão mas não age como deveria. Quando a igreja fez arminha com a mão, o diabo venceu. Quando os pastores e missionários, mesmo atuando nas comunidades mais pobres e obtendo o seu sustento do salário dos trabalhadores, apoiam a retirada de direitos destes para favorecerem os mais ricos, o diabo venceu”, relata o teólogo Tiago Santos, que escreveu o enredo da escola.

O teólogo, que é fundador da Igreja Abrigo, em Porto Alegre, e também foi pastor Batista por oito anos, usou a rede social para justificar a encenação proposta pela Escola na avenida.

“Quando a maior preocupação da igreja, em um país extremamente desigual, é que meninos vistam azul e meninas rosa, o diabo venceu. Quando a igreja fica em angustiante silêncio frente ao racismo, a xenofobia, ao feminicídio, a homofobia, o diabo venceu. Quando a igreja considera armar toda a população como forma de buscarmos a paz, o diabo venceu. Quando a igreja considera justo que fazendeiros que já tanto têm esmaguem os povos indígenas para lhes tomar o pouco que resta, o diabo venceu”, diz o post.

Em contrapartida, o pastor Sócrates de Oliveira, diretor Executivo da Convenção Batista Brasileira foi além. Ele defendeu o respeito às crenças religiosas.

“Qualquer símbolo religioso que seja usado por escolas de samba, considero um desrespeito a seus seguidores e a quem acredita nele. Acredito que a utilização dessas simbologias utilizadas desta forma representam um escárnio”, disse.

“Os organizadores dessa fatídica cena de zombaria religiosa deveriam ponderar nisto”, acrescentou Roney Cozzer.

Veja fotos

Fotos: Gilson Borba

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