A igreja que socorre!

Pastores e suas famílias se dedicam diariamente a socorrer venezuelanos que “fugiram” para o Brasil. 

Por Vitor Alencar       

Fugindo do alto índice de desemprego e da falta de alimento em seu país, centenas de venezuelanos vivem sem nenhum conforto nas ruas do Estado de Roraima. A grande maioria sobrevive pela boa vontade de pessoas que tiram parte do seu tempo para preparar alimentos, proporcionar um momento de lazer ou trazer uma palavra de conforto ao coração de quem mais precisa.

Algumas igrejas têm projetos de atendimento aos imigrantes que chegam sem rumo. O principal objetivo é trazer um pouco de dignidade àqueles que deixaram suas casas e familiares fugindo da miséria. Iaremmys Gabriela, 25 anos, é uma das venezuelanas que arriscou uma melhoria. Ela mora com os pais e o marido desde que chegou em julho de 2017.

“A situação do meu país estava pior a cada dia. Conforme os anos passam, o lugar fica mais decadente. Lá não tem alimentos ou medicamentos e não há segurança em lugar nenhum. Não tem praticamente nada lá. Mudei ano passado, pois não conseguia me manter mais lá. Um salário de um mês não dá nem para comer três dias, porque o pouquíssimo que tem, tornou-se muito caro e poucas pessoas podem pagar. Por isso resolvi mudar para o Brasil em busca de melhores condições de vida para mim e minha família”, relata.

Ela também contou como a igreja auxiliou nessa mudança repentina de país e como estão seus planos para o futuro. “A igreja tem me ajudado muito a passar por tudo isso. As pessoas que conheci estão ali para dar suporte sempre que alguém precisa e agora todos da família frequentam a igreja. Participo das atividades e ajudo sempre que é necessário à minha congregação. Pretendo seguir adiante e trabalhar pata ter um futuro melhor. Vou estudar muito para ter um emprego que me permita ajudar sempre aos que mais precisam de ajuda”, diz Iaremmys.

“Entendo e sei que realmente Roraima mudou com a chegada dos imigrantes, vemos muitas pessoas nas ruas e certamente isso traz desconforto, mas não é desculpa para fechar o coração ou deixar de ajudar” – pastor Mauricio Morgade

Pastor de uma igreja em Pacaraima, município de Roraima na fronteira com a Venezuela, Gideão Vasconcelos, a esposa Sandra e os três filhos do casal doam parte do tempo para ajudar o máximo de pessoas possível. A história da família em prol dos necessitados já é antiga, mas somente agora, com a chegada em massa dos “vizinhos”, as ações se tornaram cada vez mais necessárias.

“Já estamos aqui há oito meses e começamos a trabalhar com os imigrantes assim que chegamos, então, eu e minha família começamos a traçar uma estratégia para trazer pessoas e foi aí que começamos um trabalho com o público de rua e fizemos o primeiro culto evangelístico na praça que reuniu cerca de 180 venezuelanos. Começamos a trabalhar com eles e descobrimos que a fome era muita, então começamos a fazer os cultos e em seguida distribuíamos algo para comer”, conta.

Indígenas venezuelanos, da etnia Warao, são acolhidos no abrigo Janokoida, em Pacaraima. Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Depois de todas as atividades, os cultos na igreja do sacerdote começaram a crescer;  cerca de 40 venezuelanos e 15 brasileiros frequentavam-nos todas a semanas para ouvir a palavra.

Gideão já trabalhava como missionário em outros municípios, mas foi enviado há alguns meses para assumir a igreja em Pacaraima, com intuito de transmitir a mensagem do senhor e ajudar no que fosse preciso. Depois de algum tempo atuando em praças, as ações de intensificaram pois presenciou o que segundo ele foi um dos momentos mais tristes de sua vida.

A expulsão dos refugiados  

Tudo aconteceu nesse último mês de agosto, mais de mil venezuelanos foram expulsos de Pacaraima pelos moradores da região que realizaram um protesto violento contra a entrada excessiva de refugiados no país. O pastor Gideão e sua esposa foram um dos poucos que deram abrigo aos imigrantes que estavam sendo expulsos a força do Brasil.

“As coisas começaram pela manhã e durou boa parte do dia. Quando eu e minha esposa percebemos o que estava acontecendo, partimos imediatamente para ajudar, pois o que as pessoas estavam fazendo, destruindo os pertences de todos era totalmente errado. Sabemos que existem pessoas querendo o mal, no entanto também existem as pessoas que estão procurando o bem, e isso existe em qualquer lugar”, descreve Gideão.

Ele e sua esposa saíram de casa imediatamente no carro e foram ao local onde tinham pessoas que estavam na igreja e tiraram as crianças de lá rapidamente pois também foi ameaçado pelos moradores. Foi nesse dia que o pastor Gideão e sua Esposa Sandra Passaram o dia resgatando as pessoas e levando para sua casa, onde deram aos imigrantes, abrigo, comida e bebida.

“Comecei as oito da manhã e fui até as quatro da tarde resgatando pessoas no meu carro e levando para casa, no final do dia, haviam 63 imigrantes que eu tinha conseguido resgatar. Fizemos uma oração e demos uma palavra de conforto para que eles não se sentissem tão mal. Passados duas noites, representantes do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) começaram a levá-los para abrigos em Boa Vista”, relata Gideão.

Outras Igrejas

Os imigrantes recebem apoio de outras igrejas, como a Batista Monte Sinai, onde quem está à frente do chamado para ajudar essas pessoas são o jovem pastor Maurício Morgade e sua esposa. O casal morou na Venezuela durante cinco anos para estudar e o “amor pelo país é muito imenso”, garante Maurício.

“Optamos por dar início a essas ações por que percebemos desde o ano passado a grande quantidade de venezuelanos que entravam no Brasil e sentimos no coração que devíamos fazer algo por aquelas pessoas que deixaram suas casas por motivos de força externa”.

A equipe pastoral já traçou uma nova meta. A ideia é implantar uma igreja hispânica, com todos os cultos também podem ser ministrados em espanhol. “Nós trabalhamos com eles [venezuelanos] não apenas realizando estudos bíblicos aos finais de semana, mas também indicando os irmãos que conhecemos quando alguém precisa de emprego”, explica.

De acordo com Mauricio, o número de imigrantes que eles atendem é muito relativo, pois as pessoas estão sempre mudando. “O número de atendimentos é muito incerto. Em 2017, atingimos 40 pessoas e depois foi diminuindo. No início desse ano, começamos com dez pessoas, mas chegamos a ter mais de 50”.

As ações são realizadas aos domingos durante todo o dia. “Realizamos estudo bíblico, em seguida o culto e o aconselhamento pastoral, conversamos com todos. Durante a semana, fazemos visitas, nos comunicamos por telefone e sempre estamos atentos ao que eles precisam”, relata Mauricio.

Há também uma igreja metodista que, duas vezes por semana, pega as crianças do confinamento dos abrigos e as leva para participarem de atividades recreativas na igreja. Além disso, oferecem cursos profissionalizantes a jovens e adultos. Outras igrejas doam semanalmente marmitas em pontos que têm mais imigrantes nas ruas; e algumas optam por trabalhar mais com recreação.

Igrejas precisam de missões  
Os conflitos em Pacaraima reduziram o fluxo migratório. As instalações de acolhimento e recepção de venezuelanos não apresentaram mais grandes filas. Foto: Marcelo Camargo/Ag. Brasil

Há diversos grupos pela cidade ainda não assistidos e algumas igrejas não se articulam para ajudar essas pessoas que necessitam de uma palavra de conforto, um alimento ou um lugar para recomeçar a vida.

Grupos de “cristãos” que nem sequer pensam no fato de como essa situação pode ser ama boa hora para o Ide, para apresentar a palavra de Deus.

O trabalho do pastor Gideão inclui o incentivo à mudança de postura. “As igrejas que não praticam, têm que mudar e fazer missões. Hoje temos centenas de pessoas que precisam de uma palavra, que necessitam ouvir a mensagem de Deus, e esse é nosso dever. Paulo foi um grande missionário, Jesus também, ele foi junto em aldeias, cidades e povoados pregando o reino de Deus. Em Mateus capitulo 28, diz: “Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai do Filho e do Espirito santo. Deus está trazendo eles dentro das nossas casas, das nossas igrejas e esse é o nosso dever com cristão, ensinar todas as nações”, falou.

“Me sinto privilegiado porque no passado já fiz coisas que não agradavam a Deus, agora eu estou fazendo tudo para Deus e isso é um privilégio por que ele me escolheu a dedo para pregar seu reino. Hoje vivo bem e peço para as pessoas que puderem ajudar com alimentos e roupas será muito bem-vindo”, completa Gideão.

O pastor Mauricio, também disse que devemos ver o outro lado e ajudar quando pudermos. “Entendo e sei que realmente Roraima mudou com a chegada de tantos imigrantes, vemos muitas pessoas nas ruas e certamente isso traz desconforto, mas não é desculpa para deixar de ajudar oferecendo um prato de comida e não é motivo para fechar o coração e a palavra manda a gente ajudar todas as pessoas. Tristemente a nossa sociedade está acostumada a olhar para o superficial e não para as raízes, mas independente de tudo, cada pessoa no sinal ou na praça tem uma história de vida que a gente tem que considerar”, finalizou o pastor Mauricio.


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