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terça-feira, 27 julho 2021

“Igreja precisa discutir violência doméstica”, diz escritora

“Às vezes falta até coragem para ir conversar com seu pastor ou com uma irmã da igreja sobre esse problema”

Por Marlon Max

O silêncio das igrejas em casos cada vez mais frequentes sobre violência doméstica, empodera homens agressores. Esta é a constatação da autora do livro “O Grito de Eva”, que conta em seu livro-reportagem histórias de mulheres evangélicas que por anos sofreram abusos e não encontraram acolhimento nas igrejas. A escritora e jornalista Marília de Camargo César descortina esse cenário e mostra a realidade vivida por milhares de mulheres brasileiras.

Em março deste ano, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos divulgou que os canais Disque 100 e Ligue 180, do Governo Federal, registraram 105.821 denúncias de violência contra mulheres em 2020. Isso é o equivalente a cerca de 12 denúncias por hora. A escritora também apresenta uma pesquisa, onde aponta que 40% das mulheres vítimas de agressão doméstica, são evangélicas.

A urgência do tema e a gravidade dos relatos documentados pela autora estimulam o debate. Comunhão conversou com a jornalista Marília de Camargo César para entender de que forma o silêncio de pastores e conselheiros colabora para o crescimento do número de casos de violência. Confira!

Comunhão — uma relação de poder exacerbada de homens cristãos sobre as mulheres?

Marília de Camargo César — Em geral, o homem é empoderado. Mesmo ele sendo uma pessoa violenta, o pastor dificilmente vai exortá-lo, geralmente essa exortação é para a mulher. São usadas até passagens bíblicas, dizendo que ela deve ficar em silêncio ‘pois é assim que você irá ganhar seu marido’.

Está faltando a igreja discutir o assunto, foi o que eu percebi fazendo a pesquisa do livro. Não sei dizer se homens de igreja são mais violentos do que os dos lares que não são evangélicos, não há uma pesquisa comparando esses dois públicos. Mas a igreja é um reflexo da sociedade, como um todo, e os dados de violência doméstica no Brasil são muito altos e gravíssimos — o que se acentuou na pandemia com a convivência forçada entre casais.

E a resposta das igrejas perante a situação de abuso, é assertiva?

No caso das mulheres evangélicas existe um problema adicional, que é a falta de apoio das igrejas. Às vezes falta até coragem para ir conversar com seu pastor ou com uma irmã da igreja sobre esse problema. De todo modo, a orientação que ela vai receber, é na minha visão, inaceitável. Essas mulheres quando chegam ao pastor em busca de aconselhamento, em geral, o que ela vai ouvir é: ‘minha irmã você precisa orar mais pelo seu esposo, e jejuar mais por ele’, ou seja, o peso todo da situação cai sobre ela. Então existe sim, um tratamento inadequado que as igrejas dão a essa questão.

Em geral, a igreja encoraja o silêncio em caso de agressão doméstica?

O pastor não vai orientá-la a não criar alarde. Não é isso! Mas possivelmente ele vai colocar todo peso, da qual ela é vítima, vai recair sobre a mulher e não sobre o agressor. A responsabilidade fica com a vítima, e isso é uma situação inaceitável, e pouco se fala sobre esse público de homens violentos. Existe uma conivência dos pastores com agressores. Eles não são exortados, pelo menos não do jeito que deveriam estar sendo.

As igrejas precisam se abrir para o debate da violência doméstica, no Brasil os números são horríveis, nós somos campeões de agressões contra mulheres. É por isso que a igreja precisa se abrir e se posicionar. Sai e conhece trabalhos que já atuam nessa área e treinar melhor suas lideranças, sobretudo as lideranças de casais.

Tem trabalhos com homens sendo feito. Alguns grupos terapêuticos tratam especificamente com homens, onde só eles estão alí e conseguem um local de escuta para poder indagar: ‘ porque sou assim? Por que machuco minha mulher?

Pouco se fala sobre violência doméstica nas igrejas…

Esse debate na verdade está atrasado, mas meu objetivo é estimular o tema. Tanto que quando comecei minha pesquisa achei que iria ‘chover no molhado’, mas infelizmente não tem tantas coisas, e o que se acha na literatura são livros reforçando esse papel vitimado da mulher, onde encoraja que ela fique de joelhos orando pelos seus maridos, mas muitas são assassinadas neste caminho. Elas permanecem ali, porque os pastores as encorajaram, mas nossas mulheres estão sendo assassinadas, a gente não pode aceitar isso dentro da igreja.

Uma interpretação equivocada do texto bíblico pode ser a razão para a subjugação das mulheres nas igrejas ou no lar?

Eu creio que os ensinos sobre submissão feminina são muito desbalanceados, as igrejas deveriam ensinar mais os maridos a amarem e entregarem a vida pelas mulheres. Eles não estão dando a própria vida, estão tirando a vida das próprias esposas.

Infelizmente, temos textos bíblicos que encorajam agressores. Eu, particularmente, me debati com várias traduções nessas passagens que dizem ‘mulheres sejam submissas aos maridos’, ou ainda ‘o homem é o cabeça e por isso você tem que se submeter’. É claro que isso reforça, até porque os pastores ensinam muito mais esse versículos do que, os mesmo versículos do apóstolo Paulo onde se ensina que os homens devem ‘amar suas esposa da mesma forma que cristo amou a igreja’. O padrão de amor do marido é superior até.

Observamos que ele fala para o marido amar, e para a esposa respeitar, pois ele está falando em um contexto onde os casamentos eram feitos por acordos de família, era outro cenário, mas Paulo foi coerente, pois a mulher não escolhia quem ela ia amar. Mas às mulheres o ensinamento é para honrar o marido e respeitá-lo. No relacionamento a dois é exatamente isso, tem que haver respeito, honra e amor.

Mas porque os pastores, invés de ficar ensinando sobre submissão das mulheres, porque não ensinam tanto quanto e com a mesma intensidade os maridos amarem suas mulheres, ao ponto de entregar a vida por elas. É muito desbalanceado os ensinos sobre esses temas. E o mesmo apóstolo ensina em Efésios que nós devemos nos sujeitar uns aos outros.

O que a bíblia fala sobre violência contra a mulher? A passagem da mulher adúltera é um bom exemplo de como um homem pode interferir para defender e acolher mulheres sob ameaça?

Você já parou para pensar, cadê o homem adúltero? A mulher estava lá quase sendo apedrejada pelos fariseus, ou pelos líderes religiosos da época, mas cadê o adúltero? É por isso que falei que esses grupos de homens que têm sido formados para um ouvir o outro são muito importantes. Então porque não há esse tipo de trabalho dentro das igrejas também.

Os homens, em geral, têm mais dificuldades de expor seus sentimentos. Então tem que haver esse espaço de sigilo, onde todos estão no mesmo nível, para que possam conversar sobre o que está afligindo os corações. A ênfase deve ser em estimular as igrejas a conversarem mais sobre isso e acabar com essa orientação de pastores para que mulheres voltem para suas casas e orem pelos seus maridos. Não dá mais… essas mulheres vão ser mortas, e os pastores vão acabar cúmplices dessa violência.

Qual é o perfil das mulheres evangélicas vítimas de agressão?

As estatísticas mostram que 40% das mulheres que sofrem violência domésticas são evangélicas e através de uma pesquisa do Datafolha, a gente sabe que 60% das pessoas que frequentam igrejas no Brasil são mulheres, e em sua maioria são negras e pobres — não estou dizendo que a violência doméstica só acontece com mulheres nesse perfil, não mesmo. Eu tenho histórias de pessoas de classes mais altas que passam pelos mesmo problemas, a gente sabe que é um problema de todas as classes sociais. Mas a gente tem que levar em conta que a maioria dessas mulheres, são pessoas com menos instrução e têm menos condições de debater com seus pastores sobre esse assunto. Muitas vezes, essas mulheres saem dos aconselhamentos com os pastores achando que o que foi falado é uma palavra de Deus para a vida dela, e ela acaba obedecendo, muitas vezes, sob pena de perder a própria vida.

O grito de evaPor que seu novo livro se chama “O Grito de Eva”? O seu livro-reportagem narra histórias de vítimas de violência. Você pode nos relatar uma delas?

São várias histórias, tive meu coração partido por muitas das histórias. Mas eu me lembro de uma que a mulher foi casada durante muitos anos com um missionário, e ela tinha um talento muito grande para trabalhar com artes e com crianças, e essa mulher viveu em um ambiente abusivo, inclusive fisicamente, durante muitos anos. Ela relata que todas as vezes que ela foi conversar com o pastor, ou com o líder deles na missão ela ouvia as mesmas respostas: vamos orar, jejuar que seu marido é um homem de Deus.

O relacionamento era baseado em humilhação. Nada que ela fazia era relevante. A mulher passa a ser invisível dentro de casa, e toda vez que ela começa questionar o marido sobre o porquê do tratamento, ele justifica dizendo que ele estava sob muita pressão e não tinha a ajuda dela.

Mas é aí que começam as agressões mais intensas. Essa pessoa, por exemplo, estava conversando certo dia com a irmã pela internet, e o marido achou que ela estava relatando os problemas do casal para a irmã. Quando o marido viu, ele não gostou — porque achou que estava falando mal dele, e ele trancou ela em um quartinho do lado de fora da casa e ela dormiu nesse lugar. Ela conta que chorou a noite inteira e gritava para ele abrir a porta, mas ele não abria.

Qual seu conselho para mulheres que estão neste momento sofrendo abusos e silenciadas dentro das igrejas?

Denuncie o abuso! Violência contra a mulher é crime, então ela tem que denunciar. Se ela se sente desprotegida, e acha que não vai ter como sair dessa situação, a mulher tem que contar com ajuda de uma amiga ou familiares. Se ela não encontrar dentro das igrejas, ela precisa achar um lugar que vai acolhê-la.

Há recuperação ou restauração para o agressor?

Minha fala pode parecer que eu estou descartando as armas espirituais, mas não, eu sei que Deus tem poder para mudar a vida de um homem agressor. Mas essas não são as ferramentas adequadas. Isso tem que acontecer longe da mulher, para que ela esteja em segurança.

Marília de Camargo César é jornalista e escritora, autora dos livros Entre a Cruz e o Arco-Íris (2013), Marina: a vida por uma causa (2010) e Feridos em Nome de Deus (2009) e lança agora O Grito de Eva. Trabalhou na TV Globo, Gazeta Mercantil, e atualmente faz parte da equipe de jornalistas do Valor Econômico.

 

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