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sexta-feira, 25 setembro 2020

Igreja omissa, incompetente e conivente

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A conivência emerge exatamente de a igreja conviver com casos reais de violência doméstica, em sua grande maioria cometida contra mulheres

Por Lécio Dornas

Em Janeiro de 2017, o Brasil ficou assustado com o portal da UOL, que publicou uma entrevista com Valéria Vilhena, é teóloga, mestre em ciências da religião e doutora no programa Educação, História da Cultura e Artes, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, na qual abordou sua então recente pesquisa, onde foi constatado que “40% das mulheres que sofrem violência doméstica são evangélicas”.

Segundo temos lido na mídia de hoje, com a pandemia e seus desdobramentos em confinamento, isolamento e distanciamento social, os caso de violência doméstica, normalmente praticados contra menores, idosos e mulheres, têm aumentado.

Mas não é a estatística que me assusta, embora seja assombrosa. O que me espanta é que a igreja, que deveria ser o abrigo emocional e espiritual, porquanto modeladora do caráter e construtora da espiritualidade saudável, tem se mostrado omissa, incompetente e até conivente com esse quadro triste e nauseante da violência doméstica.

Omissa porque nunca trata o assunto, nem mesmo vendo o estrago que estatísticas como essa comentada por Valéria Vilhena, faz na sua imagem e reputação. Os púlpitos têm assuntos muito mais relevantes para tratar e a pauta da Escola Dominical, dos pequenos grupos ou dos programas de discipulado, tem temas muito mais importantes para cobrir. Logo, não há espaço para o tópico ‘violência doméstica’ na igreja.

Incompetente, porque sua liderança, começando pela pastoral, mesmo lidando com os dramas das vítimas de violência doméstica, não tem preparo e também não tem coragem para afirmar para as pessoas agredidas que estão sendo vítimas de violência e abuso, tampouco para indicar e ajudar encontrar alternativas de ajuda.
Nem pensar, na igreja de hoje, sobre a  possibilidade de ela mesma ser agende de ajuda e, portanto, de mudança social.

A conivência emerge exatamente de a igreja conviver com casos reais de violência doméstica, em sua grande maioria cometida contra mulheres, e simplesmente nada fazer e, em muitos casos, agir na tentativa de ajudar as vítimas a se conformarem com sua situação e apenas ‘orarem para que um dia Deus a mude’.

Violência doméstica é uma agressão ao Evangelho de Jesus, que preconiza o amor acima de todas as coisas. Vale lembrar, inclusive, o ensinamento do Apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, quando disse: “Se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé, que é pior que um descrente” – (1 Timóteo 5: 8). Se quem não cuida é pior que um incrédulo, o que diria Paulo acerca de quem bate, agride, molesta, abusa, tortura, emudece, intimida, ameaça, usa e mata?

Já passou da hora da igreja de Jesus se inconformar e se indignar em aparecer no cenário da violência doméstica em outra posição que não seja de ensinar a maneira certa de viver, disciplinar os que insistem em viver errado, denunciar os infratores e dar voz, em muitos casos até ser a voz dos pequeninos, que nada podem falar por ter sido suas vozes arrancada de suas gargantas, tampouco conseguem gritar ou chorar.

A igreja de Jesus precisa fazer ouvir a voz do seu Senhor através de sua vida, testemunho, coragem e martírio. Não existe no mundo exército maior do que a igreja de Jesus Cristo. É hora de agir!

Lécio Dornas é teólogo, educador, autor e pastor da Igreja da Família em Orlando, Florida – EUA

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