A Igreja tem responsabilidade de lutar contra o racismo

Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil

No Brasil, a população negra já conquistou muitos espaços. Mas ainda tem muito o que se fazer por essa população. “A Igreja é uma agência do reino, que tem seus valores e a igualdade faz parte disso”, disse pastor Marcos Davi 

Hoje é o Dia Internacional da Luta Contra a Discriminação Racial. Data foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em memória as 69 pessoas que foram mortas durante um protesto em Joanesburgo, em 21 de março de 1960, no que ficou conhecido como o ‘Massacre de Shaperville’.

Na ocasião, 20 mil pessoas protestavam contra uma lei que obrigava pessoas negras a usarem uma identificação pessoal, que limitava o acesso a determinados locais.

No Brasil, a população negra já conquistou muitos espaços. Mas, apesar disso, eles ainda são pequenos e ainda tem muito o que se fazer por essa população.

Para o pastor Marcos Davi de Oliveira, da Nossa Igreja Brasileira, do Rio de Janeiro, “o lugar do negro é sempre o de protagonismo dentro e fora da igreja. Acho que na igreja, mesmo que ainda exista resistência, os negros estão se colocando como expressão determinante”.

O pastor, que é coordenador do Movimento negro evangélico do Brasil, é autor do livro “A religião mais negra do Brasil: Por que os negros fazem opção pelo pentecostalismo?”

O líder reforça que a instituição religiosa evangélica brasileira é uma agência do reino de Deus, que tem seus valores. “E a igualdade faz parte desses valores.  A igreja evangélica tem a responsabilidade de lutar contra o racismo”, disse. Na entrevista a seguir ele falou mais sobre o assunto;

Comunhão – Como a igreja deve lidar com essa questão da discriminação racial?

Foto: Reprodução

Pastor Marcos Davi – Antes de tudo precisamos separar preconceito, racismo e discriminação, pois são diferentes. O preconceito toma conta de todos nós, pois somos preconceituosos com coisas que não fazem parte da nossa própria história ou do nosso convívio e culturalmente aprendemos a ser assim. Todos nós temos um pouco disso. Já o racismo é uma espécie de doutrina que determina uma raça superior a outra raça. Aí entramos no conceito de racialidade. Diante de Deus somos todos iguais, porém, o conceito de raça que foi criado pela ciência para justificar a escravidão com o darwinismo social, que determinava que os membros eram inferiores. Isso foi crescente no mundo todo e chegou ao Brasil no início do século XX. Existe uma raça só mas socialmente falando existe a racialidade e por isso pensamos em conceitos baseados em características físicas diferentes. Então, toda a construção das políticas brasileira são pautadas na questão fenotípica. E a discriminação é um Racismo sistêmico. Ela é geral e faz parte do sistema político e das estruturas do país. É por isso que o Brasil é um país racista porque existe um racismo estrutural e coloca as pessoas negras sempre em suspeição. Então, a igreja precisa pensar sobre isso, deve lidar constantemente sobre isso porque ela é uma agência do reino de Deus, que tem seus valores. E a igualdade faz parte desses valores.  A igreja evangélica tem a responsabilidade de lutar contra o racismo.

Porque o “racismo” ainda é um assunto pouco falado nas igrejas?

Há uma incompreensão estranha dentro da igreja de achar que essas questões sociais não fazem parte da nossa vida cristã. Como instituição tem pessoas com problemas e infelizmente tem muito racismo também. Muita gente está desigrejada porque sofreram racismo dentro das igrejas…precisa entender os evangelhos.  O próprio Jesus em sua maneira de realizar seu ministério mostra que não há acepção de pessoas então por isso a igreja deve fazer o mesmo Quando a igreja demoniza os ritmos africanos ou age com postura de intolerância ela comete pecada e se afasta do mandamento principal que é amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo…

Como a igreja deve abordar sobre a discriminação racial?

É preciso discutir e refletir o assunto sem medo e principalmente ouvir os negros. Ainda tem pessoas dentro da igreja, inclusive pastores que são racistas. É preciso ter coragem de conversar sobre isso. Os brancos tem privilégios nesse país, tanto emocionais como econômicos e sociais. E isso faz com que os brancos não queiram discutir por achar que não tem relevância. E alguns negros sofrem mas fogem do assunto porque não querem perder amizade e não querem mexer nas suas estruturas emocionais por conta de se aceitarem como imagem e semelhança de Deus. Tendo seminários, rodas de conversa, bate papo sobre esses assuntos ajudam…já tem melhorado com o movimento negro evangélico que tem como objetivo trabalhar a questão racial através da igreja local.

Qual o maior alerta a ser feito hoje para a igreja evangélica brasileira sobre isso?

Foto: Divulgação

As igrejas históricas deveriam fazer um culto de intercâmbio coma população negra do Brasil. As denominações que tem seminários deveriam criar uma política de inserção das pessoas negras como prática desse pedido de perdão, precisam reparar o mal da omissão que fizeram no Brasil.

A igreja não pode ser mais omissa e estar na vanguarda do assunto. Se ela se mostrar de forma coerente e sem medo de lutar contra o programa a começar das estruturas das denominações nós vamos mudar a situação do negro no Brasil. Se isso acontecer vamos resolver o problema do Brasil, pois a maioria dos pobres são negros no país. Vamos melhorar até a economia do país. A igreja primeiro precisar orar muito. Depois, precisa parar de se preocupar somente com área espiritual porque o homem é vida, tem corpo e espírito que liga para Deus. Ele é alma vivente. Então quando a gente colocar os problemas sociais como sendo problemas nosso também vamos transformar esse país. E o racismo mutila as pessoas, causa dor e traz enfermidades profundas as pessoas. Eu acredito que a igreja como agência do Reino é o lugar de cura e por isso tem que enfrentar os assuntos sem querer passar o pano por cima. E os racistas que estão na igreja precisam se converter e ser transformados pelo poder do Espirito Santo de verdade, aí sim, haverá uma transformação muito grande na igreja e no país.

No seu livro “A Religião mais Negra do Brasil”, o senhor explica o porquê da maioria da população negra do Brasil optar pelo pentecostalismo. Como avalia esse fenômeno no país?

Eu escrevi esse livro que faz uma reflexão sobre a quantidade de negros hoje no Brasil e hoje a religião mais negra no país é a igreja pentecostal clássica. É interessante pensar nisso porque a cada censo vemos um crescimento grande dos evangélicos no Brasil e a quantidade de negros entrando nela. Hoje a instituição evangélica é feminina, negra e pentecostal. Embora haja problemas nas igrejas pentecostais pois tem algumas doutrinas que vão de encontro com a população negra porque diz que quem é abençoado é aquele que tem prosperidade e em sua maioria essa população não é assim e são pobres. Há a teologia também da guerra espiritual que muito se falou e muitas figuras dela eram negros. Outra questão também é a ideia da maldição de cã que é muitas vezes pregadas como sendo da cor negra. Isso é um erro, é uma interpretação completamente racista. Então essas denominações precisam pedir perdão a população negra, pois é uma demonização da cultura negra.

Saiba mais


Leia mais

Racismo existe dentro da igreja?
Cristãos se unem para combater preconceito dentro das igrejas
Preconceito, você tem?

Aproveite as promoções especiais na Loja da Comunhão!