Igrejas inteligentes, igrejas de resultado.

Todo bom desempenho de uma organização depende da eficácia com que seus administradores aplicam os princípios de gestão e como se conectam aos movimentos do mercado, visando a atingir os objetivos. Nossas igrejas têm se utilizado desse arsenal de ferramentas em prol de sua missão?

Ainda que sejam instituições sem fins lucrativos, da mesma maneira que as empresas, as igrejas também precisam de diretrizes para alcançar suas metas e cumprir seu papel principal, que é de ganhar e cuidar de vidas. Uma organização inteligente é aquela que utiliza as melhores ferramentas de gestão de recursos humanos, de medição de seus indicadores (econômicos, número de colaboradores, performance, etc) e de tecnologia para otimizar os processos e dar melhor fluxo à atividade final. E é nesse cenário que a inovação surge em favor dos resultados.

No caso das instituições religiosas, a modernização da estrutura agiliza, organiza e integra seus setores. Por exemplo, você sabe a quantidade de membros de sua igreja? Onde eles moram?  Quantos são voluntários? Qual a quantia disponível para investimento em melhorias? Essas e outras informações podem ficar reunidas num só espaço, sendo acessadas de qualquer lugar com o auxílio de softwares.

Para o diretor da Envisionar Estratégia e Capacitação de Líderes,  Pr. Josué Campanhã, independentemente dos instrumentos escolhidos, definir objetivos é o primeiro passo. “Não adianta se organizar se não se sabe aonde quer chegar. Conheço igrejas organizadíssimas, mas sem rumo. Isso tudo implica dizer que um gestor necessita ter a racionalidade de um administrador e saber dizer ‘não’ e, ao mesmo tempo, a sensibilidade de um pastor,  que chora pelos objetivos do Reino. Também existem princípios de administração que não podem ser quebrados e alvos de fé para  serem atingidos, que a administração jamais conseguirá explicar. Diria que as igrejas precisam se organizar com o melhor das práticas de administração e os alvos mais arrojados para alcançar as pessoas e gerar transformação de vidas, formando discípulos de Jesus.  Difícil, mas possível”, explica.

Perito em organizações religiosas e diretor da Beside, especializada em terceiro setor, Rodrigo Coutinho ressalta que ainda há um significativo número de congregações que não se articulam conforme prevê o ordenamento jurídico brasileiro. Ele ensina como adotar esse procedimento. “O primeiro passo para deixar tudo em dia é ter um grupo de pessoas que se unam em torno de um objetivo comum. Nesse caso, em torno de fé e ordem comuns. Em seguida, deve ser feito um estatuto, a ser aprovado por todos os membros em assembleia com registro das decisões em ata.

Após, fazer o registro em cartório e junto à Receita Federal, que criará um número no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ) para a igreja. A partir de então, a instituição deve obedecer à sua estrutura previamente aprovada em estatuto e guiar-se por todas as regras nele estabelecidas, cabendo à direção a obrigação de zelar e manter-se fiel a todos os desígnios desse instrumento de constituição”, detalha.

Nesse contexto, é imperativo determinar as áreas da instituição. Segundo o Pr. Josué, é preciso dividir a igreja por segmentos distintos. “Deve-se ter uma área voltada para o foco central, o discipulado. Nela, serão envolvidas ações que vão desde a evangelização até a formação espiritual. E também áreas complementares que ensinam, capacitam e enviam os discípulos para o mundo, como pastoreio, celebração, adoração, atuação social, família e nova geração e expansão missionária. Por fim, um setor de suporte e serviço, que é a gestão administrativa e operacional. Dentro da gestão minha sugestão é que existam setores de planejamento, finanças, voluntariado, comunicação e logística, dependendo do tamanho da igreja”, propõe.

Ele também considera crucial a inclusão de um grupo de gestão. “Esse comitê, que pode ser de cinco pessoas escolhidas por suas habilidades e competências, dá as diretrizes de gestão. Cada pessoa fica responsável por um setor (finanças, jurídico, marketing, ministérios e educação). O gestor da igreja fica submetido a esse grupo e juntos os integrantes prestam assessoria e criam diretrizes para as grandes decisões que a equipe pastoral ou o conselho tomem. Eles não têm a palavra final, mas dão suporte para que todas as estratégias da igreja sejam cumpridas, alinhando a boa administração aos alvos de fé”, informa.

Rodrigo conta que há uma premissa de que separar as funções de pastor das responsabilidades da gestão é garantia de boa administração. Porém, frisa, “por experiência com condução de organizações religiosas”, estar à frente de uma igreja não pressupõe somente assuntos técnicos. “Se o foco da presidência tende a ser a libertação e a evangelização, não há motivos para não ser um pastor. A qualidade do presidente se difere da qualidade do gestor departamental. Se houver boa equipe técnico-administrativa,  a presidência da igreja torna-se fácil.”

O Pr. Almir Pacheco Scheidegger analisa, ainda, a necessidade  da inclusão de pesquisas anuais. “Pelo menos duas vezes por ano a igreja deve ser consultada para que suas lideranças conheçam o perfil da membresia, buscando saber, por exemplo, o que se pensa em relação à política, à economia e aos assuntos da atualidade.  Além disso, uma avaliação sobre a gestão ministerial e dos departamentos também deve ser feita”, conta.

Tecnologia
Pensando em agilizar, padronizar e organizar todas as áreas das igrejas, empresas estão desenvolvendo softwares especialmente para processo. Para o analista de Negócios de Tecnologia da Informação da IDeveloper Websistemas, Emerson Santiago, são inúmeros os benefícios de sua utilização. “A ferramenta pode ajudar, por exemplo, na gestão administrativa, integrando os setores e organizando o cumprimento das obrigações. Serve na gestão de membros, nas atas e nas áreas financeira e patrimonial; auxilia na organização e no controle dos pequenos grupos; funciona como ferramenta de auxílio pastoral para aconselhamento e acompanhamento; fornece respostas rápidas para tomada de decisões; otimiza o tempo dos líderes no exercício do seu ministério, sem a perda de tempo com burocracias”, enumera.  

Para facilitar ainda mais, tais plataformas são adaptadas à realidade congregacional. “Um bom software auxilia, inclusive,  a igreja a não perder sua identidade. À medida que a igreja cresce, torna-se mais difícil fomentar e manter suas características iniciais e missão. A gestão eclesiástica precisa intensificar seu trabalho na busca da preservação de ações relativas ao Reino de Deus e ao cuidado de pessoas. Um exemplo prático disso é o risco de um distanciamento gerar um rompimento vincular e relacional no processo de crescimento da igreja. Esse espaço, que deveria ser um local de acolhimento e de cuidado, torna-se um lugar de visita aos domingos à noite superficial e distante da plenitude do amor de Deus.  No restante da semana, pessoas vivem sua vida individual, sem relacionamento e discipulado. Um bom sistema de gestão precisa ser uma poderosa ferramenta de auxílio para que a identidade não se perca”, completa.

De acordo com o diretor-executivo e analista de qualidade de Software da Justus Comercial, Gustavo Bisognin, para que o recurso opere plenamente, integrando as áreas, é necessário que “rode” (funcione) on-line. “O mundo está cada vez mais tecnologicamente inteligente e repleto de dispositivos automáticos que se comunicam com coisas e pessoas. Com essas plataformas, não seria diferente. Os sistemas precisam acompanhar essa evolução dentro de nossas igrejas. A integração do sistema é fundamental, pois permite uma visualização clara do gerenciamento de todas as unidades da denominação e pode ser projetada por níveis de acesso. Desde o presidente até os gestores. Com a disponibilização da estrutura ‘na nuvem’ (recurso de armazenamento digital externo de dados), o sistema pode ser acessado de qualquer lugar a partir de um dispositivo conectado à internet. Os gestores podem receber informações no próprio celular, por exemplo, além de implementar na igreja. O gerenciamento de células, pequenos grupos ou discipulado fica muito ágil e organizado com esses aplicativos.  Além disso, proporcionamos um ambiente de segurança com criptografia de dados e gestão de falhas.”

Diante de inúmeras informações de pastores e especialistas sobre gestão e tecnologia, é possível escolher um caminho, especialmente aquele que leva a uma igreja mais inteligente e eficiente em seu propósito. “Todas essas iniciativas são desenvolvidas como forma de colocar em prática plenamente o que está descrito em Marcos 16:15: ‘Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura’. Mesmo sendo sem fins lucrativos, a igreja precisa cumprir suas obrigações terrenas e celestiais. As primeiras envolvem,  por exemplo, a manutenção da contabilidade em dia, com entrega da escritura contábil digital. Além disso, a congregação tem o  propósito de ensinar a Palavra de Deus, pregar e levar a comunhão”, descreve o Pr. Almir Pacheco Scheidegger.

Na prática

Boa gestão não se mede por departamentalização, mas por eficácia nas decisões. Assim, pode-se ter diversos modelos de departamentos, contudo algumas premissas ajudarão na sua eficácia:

  • Deixar claro na organização da igreja o que é departamento técnico/administrativo e o que é departamento ministerial.
  • Não misturar o modelo de gestão de um departamento ministerial, geralmente democrático e ideológico, com modelo de gestão de departamentos técnicos/administrativos, estes mais pragmáticos e operacionais.
  • Tentar alocar nos departamentos técnicos/administrativos pessoas que tenham afinidade e preferencialmente experiência na área que irão atuar, caso sejam voluntárias.
  • Oferecer cursos de capacitação para os departamentos técnicos e administrativos.
  • Promover a manutenção dos quadros técnicos por maior prazo/mandato possível, a fim de facilitar o aperfeiçoamento.

 

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.