Ide: Evangelho Pelas Quebradas

Evangelho Pelas Quebradas
Movimento Batista Underground fincou a bandeira de Cristo no coração de Paraisópolis (SP)

* Por Rafael Ramos

Igreja se dedica a levar a Palavra de Deus a moradores de uma das maiores favelas de São Paulo

Considerada a maior favela da cidade de São Paulo, de acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a região de Paraisópolis é marcada por contrastes. Seus mais de 42 mil moradores vivem em uma área que faz limite com os condomínios luxuosos do Morumbi, um dos bairros mais nobres da zona sul do município.

Em 2015, a comunidade ganhou status de ponto turístico graças à novela “I Love Paraisópolis”, exibida na faixa das 19 horas pela Rede Globo. Estrelada por Bruna Marquezine, Tatá Werneck, Maurício Destri e Caio Castro, a trama de Alcides Nogueira e Mário Teixeira popularizou suas ruas e vielas.

Mas quatro anos antes de a TV descobri-la, a favela já estava no alvo do coração missionário de Leandro Poçam, que criou, em novembro de 2011, a igreja Movimento Batista Underground (MBU). O termo em inglês que dá nome à congregação é usado para classificar um ambiente cultural alheio aos padrões comerciais, um lugar intimamente ligado à história desse rebanho. O grupo surgiu com o anseio de seu fundador em fazer algo que atendesse às tribos urbanas. E, dessa forma, nasceu uma igreja sem preconceitos com os diferentes estilos.

MBU promove ação social em quadra de escola

A realidade local é bem difícil, pois falta saneamento básico. Muitos são os moradores de ruas ou drogados, filhos de famílias destruídas. Atual responsável pela igreja, o pastor Bruno Ramos, de 33 anos, tem orgulho da “comunidade batalhadora que não desiste dos seus sonhos, ativa e cheia de projetos”. “Atuar em Paraisópolis é muito bom porque, a cada dia, é um novo aprendizado. Sempre digo que estar na MBU me deixa com a vontade de escrever um livro com o seguinte título: ‘Foi na Margem que Encontrei o Centro’. Foi em uma das maiores favelas de São Paulo que consegui viver uma parada surreal do cristianismo. As pessoas são amorosas e têm uma compaixão que não cabe dentro delas”, descreve.

“Transbordar no amor”

Disposto a proporcionar uma verdadeira transformação a quem lá vive, o Movimento Batista Underground traçou uma estratégia simples: transbordar no amor. “Queremos ser úteis. Não abrimos mão de um Evangelho firme, forte, e também não negociamos valores. Mas entendemos que só o Evangelho é pouco. Temos buscado diversas programações que possam somar”, diz Bruno.

A principal missão da igreja é levar alegria e transformação aos moradores de Paraisópolis

Em uma das diversas programações, no Natal de 2018, membros da igreja se voluntariaram para preparar uma ceia para mais de 250 pessoas.

Também foram entregues mais de 800 brinquedos e 500 lanches para os pequenos. O uso das datas comemorativas, aliás, acabou se tornando a oportunidade para alcançar as crianças e, dessa forma, atrair os demais componentes da família.

Em setembro, por exemplo, várias mulheres se uniram no “Entre Elas”, um projeto em que elas puderam cuidar do espiritual, da autoestima e da feminilidade.

A próxima empreitada do MBU envolve aulas de informática, inglês, português, culinária, música, muay thai e jiu-jítsu. “Estamos vivendo um ótimo momento. Nosso crescimento foi considerável e muito bom para o Reino. Pessoas chegaram para somar. Não pensamos em sair da comunidade, entendo que isso deixaria de lado muitas das nossas características. Queremos um lugar maior para iniciar os sonhos de uma creche e espaços para aulas”, falou.

“Foi em uma das maiores favelas de São Paulo que consegui viver uma parada surreal do cristianismo. As pessoas são amorosas e têm uma compaixão que não cabe dentro delas” – Bruno Ramos, pastor responsável pelo MBU

Resgatando vidas

Uma das principais ações do Movimento Brasil Underground é o “Resgatando Vidas”, liderado pela diaconisa Joana Darc Rodrigues, 56. Evangelização de famílias carentes e de moradores de ruas é o principal objetivo da iniciativa, que já existe há seis anos. Além do suporte com ação social, com distribuição de cestas básicas e remédios aos necessitados das ruas, os voluntários oferecem ajuda espiritual e, em casos que envolvam drogas, fazem o encaminhamento para uma casa de recuperação. “A realidade é muito triste! A droga e prostituição são as maiores causas da destruição de jovens de diversas famílias”, diz Joana.

Alcançada pelo projeto, Suedma Perez realizou o sonho de se casar

Uma das pessoas alcançadas pelo trabalho do “Resgatando Vidas” é a cozinheira Suedma Perez Gomes. Casada com Marcelinho dos Santos Silva, ela é mãe de Magno, de 23 anos; Léo, de 22; Daílson, de 15; Elenildo, de 12; Amanda, de 10; Eliel, de 9; e Lorena, de 1 ano e 8 meses.

Por meio do contato com a diaconisa, ela teve a sua vida e a de sua família completamente transformadas. “Minha vida era muito jogada, muito sofrida por causa da bebida. Eu não tinha paz, mas o ‘Resgatando’ me tirou do fundo do poço.”

Sua guinada abrangeu a restauração do lar, principalmente a relação com os filhos, o sonho de se casar com Marcelinho, realizado em novembro de 2018, e a oportunidade de descer às águas batismais. “Deus me deu uma família e trouxe os meus filhos de volta. Hoje em dia eles são tudo pra mim. O que eu não tinha ontem, hoje eu tenho. Sinto muito orgulho de me ver desse jeito”, comemora.

Vice-líder desse ministério, Ricardo Amaral, 48, atuante na congregação desde 2012, revela que o amor e a sede de resgatar vidas para o Reino são pilares de todo o trabalho. “Abraçar alguém sem olhar para a situação é algo fantástico. A cada vez que fazemos essas ações sociais, sempre voltamos dispostos a ganhar mais almas para Jesus.”

Além da entrega de lanches e sopas, o MBU promove anualmente o “Existe Amor em Paraisópolis”, em que famílias são levadas para uma escola e participam de um grande jantar com a presença de um coral para alegrar a noite. “As igrejas que não se atentam aos não alcançados não estão fazendo aquilo para o qual foram designadas por Jesus. Uma igreja que não discipula ainda não entendeu o seu propósito aqui neste mundo e também não compreendeu que devemos amar a Deus sobre todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos”, finaliza.


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