Ide: Ele nos fez livres

Instituto criado pelo cantor Juliano Son leva esperança às famílias do Piauí
Instituto Livres se dedica a mudar a vida do povo do Sertão

* Por Rafael Ramos

Instituto criado pelo cantor Juliano Son leva esperança às famílias do Piauí, no semiárido nordestino

Conhecido como “Polígono das Secas”, o sudeste do Piauí é uma região de clima semiárido. Devido às poucas chuvas, os moradores precisam se locomover diariamente durante horas, sob sol e calor forte, para pegar água, muitas vezes suja e contaminada. Além disso, a escassez hídrica acaba gerando um alto índice de vulnerabilidade social.

Em meio a esse cenário, apelidado de “janela 10/40 brasileira”, o cantor Juliano Son, vocalista do Ministério Livres para Adorar, resolveu tomar uma iniciativa. Em 2006, ele fundou o Instituto Livres, uma organização sem fins lucrativos disposta a transformar a vida de pessoas e comunidades em alto risco. “No Brasil, ajudar as pessoas não é tão simples como na África e na Ásia. Existem vários processos, certificações e regras para que você possa realizar esse tipo de trabalho. Não estou dizendo que está errado, pelo contrário, infelizmente entendo perfeitamente a necessidade de ser assim e evitar os desvios de conduta, mas é desafiador”, desabafa Juliano.

A entidade foi criada inicialmente para oferecer um ambiente seguro e acolhedor à criança e ao adolescente. Sentindo-se comissionado para ações missionárias e sócio-humanitárias, Juliano se mudou com toda a família, em 2012, para o Piauí, onde há uma menor presença do Evangelho. Além de anunciar as boas-novas, ele começou a levar água potável às comunidades. Dessa forma, era possível cuidar da saúde dos lares e combater situações de violação dos direitos dos mais jovens.

Apesar da boa recepção por parte dos piauienses, o grande desafio é contornar a forte cultura cristã. “O povo do sertão tem muita alegria em receber os voluntários e missionários. Eles ouvem a nossa mensagem com atenção e se interessam. O que existe no sertão é uma cultura cristã que não os faz livres. Eles têm medo de abandonar os costumes religiosos que aprenderam de forma geracional. Assim, uma nova escolha romperia com a honra dada ao ente querido. Há também casos de desilusões por já terem sido enganados por pessoas que usam da fé do outro para interesses pessoais”, relata Juliano Son.

Voluntários atuam no Piauí desde 2012
Cumprindo o propósito

Em quase sete anos de atuação no Piauí, os projetos já beneficiaram 101.908 pessoas. A equipe é formada por profissionais de várias áreas, somando 3.480 voluntários. Alguns desses trabalhadores são cedidos por suas igrejas, que os colocam à disposição do instituto e, consequentemente, dos moradores locais.

Entre esses profissionais está a assistente social Samara Elizama Dantas dos Santos, de 35 anos, quatro deles dedicados ao movimento. Membro da Igreja Verbo da Vida, ela conheceu a fundação por intermédio das redes sociais. “Tenho o maior orgulho de servir ao Senhor nesse projeto e também em promover o bem com a minha profissão em lugares com pouca presença do Evangelho e com necessidades sociais. Estou com visão e motivação certas para impactar as cidades sertanejas”, comemora.

Samara conta que muitas das pessoas atendidas sobrevivem em condições muito precárias. Uma delas é a dona Maria do Ramo, 68, que vivia em cima da cama com várias limitações. “Num primeiro momento, lembrei-me da minha mãe forte e saudável, mas deixei a emoção de lado e coloquei o amor em ação. Fiz algumas perguntas sobre Jesus e sobre a vida dela. Com as respostas colhidas, tomei algumas providências usando o amor e a minha profissão”, detalhou a voluntária.

Impacto sertão

Como forma de despertar a Igreja para a realidade do Nordeste, o Instituto Livres promove, de janeiro a julho, o Impacto Sertão. Nesse período, gente do Brasil inteiro é inspirada e mobilizada a participar durante 10 dias e a visitar as casas das comunidades para geração e fortalecimento de vínculos. São oferecidas ainda atividades pedagógicas, recreativas e esportivas para crianças e adolescentes e atendimentos e exames multidisciplinares de saúde. Os voluntários também ajudam na construção de espaço de socialização para a localidade e na realização de atividades culturais e musicais nas praças da cidade, além de palestras e de consultas individualizadas sobre direitos e benefícios sociais.

Uma das pessoas atendidas é Maria Auxiliadora, moradora do Quilombo do Baixão, no município de Betânia do Piauí. Frequentadora da Igreja Missionária do Baixão, edificada na terceira edição do Impacto, ela foi uma das beneficiadas com o Projeto Mais Água, que viabiliza soluções de acesso à água potável em regiões do sertão onde o recurso hídrico é escasso ou com acesso inexistente.

“Antes a gente não tinha água na seca e, quando tinha, precisava andar uns seis quilômetros até o barreiro para pegar água bem suja para beber e dar banho nas crianças. Mas eu conheci a Água da Vida. Eles trouxeram a água boa e explicaram para a gente que Jesus faz com a gente igual o sistema da água: Ele pega a gente, trata da gente, cuida e deixa a gente novo”, testemunha.

O cantor Juliano Son fundou, em 2006, o Instituto Livres. Em 2012, mudou-se com toda a família para o Piauí, onde começou a levar água potável às comunidades

Sendo assim, Juliano Son crê que a Igreja brasileira tem se inclinado a um novo tempo de avançar social e espiritualmente para o sertão. “Nosso trabalho só tem sucesso porque a Igreja está envolvida, sendo parceira na implantação de igrejas no sertão, enviando missionários, cuidando deles e dando oportunidade para os voluntários se engajarem com esse propósito, que é do coração de Deus.”

Para aqueles que querem ajudar e talvez não saibam como, o presidente do Instituto Livres avisa que “toda igreja pode contribuir e participar a seu modo do avanço do reino no sertão”.

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