Ibrahim: A força que vem do alto

Ibrahim sobreviveu a um ataque do Boko Harram em 2014 ao ouvir a voz de Deus

Era madrugada de junho de 2014 quando Ibrahim (nome fictício por segurança) tinha acabado de fazer seu devocional e estava pronto para trabalhar em sua propriedade, no norte da Nigéria. Foi quando terroristas do Boko Haram invadiram a comunidade fortemente armados gritando ‘allahu akbar’ (‘Alá é o maior’) e “cristãos, seu fim chegou hoje”.

“Quando vi aquela turba invadindo a vila, pensei: ’Estou entre a vida e a morte’. Orei por coragem e estratégia, e pedi que Deus desse uma solução: sair da casa e enfrentar o grupo ou esperar que minha casa fosse atingida por lança-foguetes. Então ouvi uma voz que dizia: ‘Você não vai morrer hoje. Nada vai te acontecer. Estou com você’”, contou o nigeriano.

Mesmo com os disparos Ibrahim decidiu fugir. “Entreguei minha vida a Deus. As balas passavam por mim e tudo o que eu podia ouvir eram sons de tiros em minha direção. Não sei quando parei de correr, mas Deus me livrou das balas e de ser capturado”. Ibrahim perdeu sua casa e seus bens, mas não a fé. “Em nenhum momento me senti abandonado por Deu, pois sempre esteve comigo e me fazia sentir Sua presença e Seu amor”.

A perseguição religiosa aos cristãos na Nigéria já vitimou milhares de pessoas nos últimos anos. Ibrahim é um dos sobreviventes. Ele esteve no Brasil contando o seu testemunho e como é viver sob constantes ameaças. Os detalhes sobre sua vida no país ele contou em entrevista exclusiva à Comunhão.

Como foi sua infância e adolescência na Nigéria?  

Nasci num lar cristão, aceitei a Jesus na infância através de meus pais, que falavam do amor de Deus. A perseguição sempre existiu. Não éramos aceitos em todas as escolas, as vezes ficávamos meses sem conseguir matrícula. Enquanto os vizinhos muçulmanos tinham suas vagas em escolas garantidas. Os homens de famílias cristãs não conseguiam trabalho com a mesma facilidade. Muitos tinham suas lojas ou produtos boicotados. Isso me fazia querer mais seguir a Jesus e não me desviar de seus caminhos. Nunca passamos necessidade, pois sempre confiamos que a solução viria de Deus.

O que mais marcou sua vida em relação aos ensinamentos de seus pais?

 Meus pais me ensinaram a amar a Deus e à sua Palavra, a buscar sempre soluções na Bíblia e perguntar a Deus sobre qualquer problema ou questão que tivesse em minha vida. Eles vivem essa verdade e esse é o maior legado deles para mim.

Como descobriu Jesus Cristo?

Foi ouvindo de Deus em casa, na igreja, e em reuniões com os irmãos. Como minha família é cristã, isso sempre foi natural para nós. Nunca me desviei dos caminhos do Senhor e isso fortaleceu minha fé e me deu certeza de que Ele está comigo em qualquer situação.

Que tipo de perseguição os cristãos sofrem na Nigéria?

De todos os tipos, desde a ideológica, religiosa até a física, que envolve invasões, ataques, sequestros, tortura e morte. Agora a perseguição tem ido além da privação econômica, dominação política e discriminação. Com toda essa pressão e violência enfrentadas todos os dias, é natural que qualquer homem viva com medo, desista facilmente, mas cremos em Deus que nos protege. Quando houve o ataque do Boko Haram, eu e um grupo de cristãos ficamos dois anos em campos de refugiados vivendo de doações e orações de cristãos em todo o mundo. O que vi e vivi em campo de refugiados ainda ressoa em minha mente: fome, dor, medo, morte, doenças, mas em nenhum momento me senti abandonado por Deus.

Como é viver a Palavra em um ambiente marcado por perseguições aos cristãos?

A Palavra de Deus é nosso guia para todas as situações. Sempre recorremos à Bíblia para decidir o que fazer em determinada ocasião. Nos reunimos como igreja em pequenos grupos e reuniões familiares, sempre em oração. A estratégia é partilhar o amor de Deus juntos e esquecer nossas diferenças. Se estamos divididos, o inimigo consegue causar destruição. Tentamos conhecemos mais o perseguidor para termos resposta às suas dúvidas sobre o nosso Deus e do porquê continuamos em nossa fé, apesar de toda perseguição. A Portas Abertas nos oferece treinamento bíblico, onde nos é ensinado como responder, de forma amorosa à perseguição.  É muito difícil ser cristão na minha região, principalmente após os ataques entre 2014 e 2016. Depois que voltamos dos campos de refugiados, víamos nossos pertences com outros vizinhos, muçulmanos, que tinham sido privilegiados pelo Boko Haram. Estamos sempre com medo de que o Boko Haram, ou os fulanis (grupo extremista composto por pastores de cabra e agricultores), nos ataquem novamente, uma vez que continuam rondando e agindo no Nordeste da Nigéria.

E como um missionário consegue falar de Cristo nesse ambiente?

Não é fácil, pois não sabemos quem é o nosso vizinho, se é só um muçulmano pacífico que não quer mal algum e que pode ouvir de Jesus, sem nos causar danos ou perigo, ou se é um simpatizante ou mesmo membro do Boko Haram infiltrado em nossa comunidade. Nós falamos de Cristo agindo. Nossos atos falam a respeito de Jesus. As pessoas vêm a Jesus por meio do nosso testemunho e por ver que permanecemos na fé em Cristo, apesar de toda perseguição, dor e morte que nos rodeia todos os dias. ‘Queremos esse Deus de vocês, que não os abandona nunca’, eles dizem. A Bíblia diz que nos últimos dias a fé de muitos esfriará e que a perseguição aumentará. A volta de Jesus está próxima.

Como foi a sua experiência no Brasil? Viu muito preconceito?

É minha primeira vez no Brasil e fiquei muito feliz por conhecer o país. Na Nigéria, o cristão enfrenta uma severa perseguição. Somos constantemente pressionados a deixar nossa fé em Cristo. É importante que a igreja brasileira, livre de perseguição, conheça essa realidade, ore e participe das ações por nosso país. Precisamos muito das orações dos cristãos brasileiros. Fui muito bem recebido no Brasil e vi muitos negros nas igrejas. O amor e carinho que me foi transmitido não me deixou sentir qualquer tipo de preconceito ou racismo. O Brasil é um país rico culturalmente e de muita liberdade em todas as áreas. As diferenças que devem ser diminuídas.

E quanto a igreja aqui, o que mais chamou sua atenção?

A liberdade para adorar, cantar alto, fazer cultos em praças, na rua, de falar de Jesus, pregar a Palavra sem medo de que ela possa te fazer mal. Isso é uma benção que a Igreja brasileira pode não estar usando em seu favor. As pessoas são muito carinhosas e refletem muito o amor de Deus. Se utilizassem mais isso, certamente, o Brasil seria um país cem por cento cristão. Esse país tem muita sorte, pois têm um idioma só, não é como o nosso que é multi idiomático, e essa uniformidade pode ser uma vantagem para a união. Então, peço aos brasileiros que ande na bíblia, ame uns aos outros, trabalhem juntos e esqueçam as diferenças.

Local do ataque do Boko Harram em 2014


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