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domingo, 28 novembro 2021

Entrevista: Humberto Aragão

“Missões começa onde você está e termina onde Deus quiser”

Por Marlon Max

“Todo cristão ou é um missionário, ou é um impostor”, a frase atribuída ao famoso pregador inglês C. H. Spurgeon é chocante e se torna cada vez mais impactante na medida que o tempo passa. A noção de que o cristão tem, fundamentalmente, a obrigação de propagar o evangelho está diminuindo a cada década, de acordo com pesquisas.

Na atualidade, grande parte do trabalho de missões internacionais foi adaptado ou até mesmo suspenso no ano passado devido à pandemia. No entanto, mesmo bem antes disso, a percepção geral de como praticar missões e evangelismo global tem mudado, especialmente entre as gerações mais jovens. É o que aponta a pesquisa do o Instituto Barna — que realiza pesquisas com enfoque no cristianismo.

Dados do relatório “Traduzindo a Grande Comissão”, coletados pela Barna, criado em parceria com a Seed Company, mostram que, a partir de 2018, apenas 17 por cento dos cristãos ouviram falar da “Grande Comissão” e sabiam o que o termo significava.

A pesquisa também mostra que a idade faz uma diferença significativa no reconhecimento do papel vital da igreja na expansão do evangelho. Mais de um quarto das pessoas com mais de 60 anos (29%) e de adultos com até 40 anos (26%) disseram entender a relevância do trabalho missionário. Em comparação com 17% da chamada Geração X e um em cada 10 Millennials (10%).

Assista a entrevista

Outro dado importante coletado no estudo revela que 19% dos frequentadores globais da igreja com idades entre 18 e 35 anos dizem que os exemplos dos outros os inspiram a ser missionários.

Com as percepções de evangelismo e as preferências mudando entre as gerações mais jovens, os líderes da igreja podem estar se perguntando como isso impacta o trabalho e o apoio em missões futuras.

Fonte: Barna Group

Para compreender todas as nuances da atualidade do trabalho missionário, Comunhão conversou com o pastor e missionário Humberto Aragão. Há mais de 4 décadas Aragão dedica sua vida à causa do evangelho em diversas frentes. Neste tempo, ele liderou a OM (Operação Mobilização), participou de viagens ao redor do mundo no navio Doulos e atualmente é presidente da DFN Brasil — entidade que combate o tráfico de pessoas.
Esta entrevista exclusiva, também está disponível em vídeo e em podcast, em todas as plataformas de streaming nos canais da Comunhão.
Confira a entrevista!

Comunhão – O mundo mudou bastante nas últimas décadas, então certamente o movimento missionário precisou mudar também. Você poderia nos dar um panorama de como estão as frentes missionárias na atualidade?

Humberto Aragão – Essa pergunta nos remete à ciência e a tecnologia neste momento e se mistura com a única solução que temos pro mundo que é o evangelho. Hoje não dá mais para falar de “obreiros” naquele antigo esquema de missões que nós tínhamos. A realidade hoje exige que a gente fale de profissionais e bi vocacionada. No mundo inteiro hoje a gente precisa de gente que não só maneja bem a palavra, mas tenha conhecimento de outras áreas, como, por exemplo na área da agronomia, educação e construção civil e até mesmo empresários que queiram trabalhar para melhorar a condição econômica de países onde há corrupção e um cenário social desajustado.

Frequentemente algumas pessoas perguntam: porque ir para outro país, sendo que o Brasil também é um campo missionário? Esse é um falso paradigma?

O grande problema missiológico que temos no Brasil e no mundo também, é a falta de entendimento Bíblico em relação ao reino de Deus. Deus não fala de religião ou de sistema político, Deus é Deus. A intenção Dele é tomar de volta aquilo que foi usurpado na queda do homem e para tanto, a igreja é o único modelo de expansão que Ele tem. Então Deus quer que sua igreja entre nas diferentes áreas do mundo. A gente entende de democracia, mas não entendemos de monarquia, que é o cenário que a Bíblia inteira foi desenvolvida. E por isso esperamos uma segunda vinda de um Rei.

Portanto, eu ouço muito essa pergunta que você me fez, mas necessidade por necessidade, nós estamos iguais. A diferença é que em países como a Índia, não se encontra igrejas, ou uma rádio para fazer um trabalho de evangelização, enquanto aqui temos dezenas de editoras evangélicas, 24 horas por dia de conteúdo cristão em televisão. Então o que muda são as oportunidades e não as necessidades.

O mundo está em conflito. Há muitas regiões em que o trabalho missionário pode significar perigo. Como atuar em países assim?

Fazer missões no mundo onde a geopolítica já mostra que o cenário está diferenciado e existe aquela ideia de um cristianismo que nem sempre se adapta em outras culturas — carregamos o “jeitão” que temos de evangelho aqui do Brasil. Eu dei aula por 25 anos para CEO de grandes empresas sobre conhecimento cultural, e até eles chegaram a conclusão que, se eles não se prepararem para atuar em outras nações, conhecendo a história, a política e a economia… eles não terão sucesso. Então imagina um missionário que saiu daqui sem nenhum conhecimento achando que vai chegar e pregar o evangelho, certamente também não terá sucesso. Na índia uma vez me perguntaram: ‘porque vocês não falam desse Deus que criou o homem de forma igual onde não existe o nosso sistema de castas? Nós queremos esse Deus’ Então é essencial saber tudo sobre o povo ou localidade que se pretende alcançar.

Ainda falando dos perigos do campo… recentemente 17 missionários americanos foram sequestrados no Haiti, os criminosos pedem 17 milhões pela libertação deles. Qual é o papel da organização que os enviou nessa hora?

Temos um missionário que foi sequestrado na Malásia e faz quase cinco anos e até hoje não sabemos do paradeiro dele. Mesmo com pressão diplomática e ajuda de governos, nada resolve essa situação. Então toda organização missionária precisa ter um plano de contingência, para evitar ou agir em situações como essa. Há lugares no mundo que é preciso ter plano de fuga e por isso é preciso ter pessoas para contatar governos e pressionar para evitar o pior. Então, no caso desses missionários que foram sequestrados no Haiti, o próprio FBI já está envolvido no caso. Isso porque há um sistema de contingência sendo posto em prática. A agência missionária precisa se certificar que tem todos os parâmetros de riscos bem-postos para os missionários antes de saírem pelo mundo.

No idioma grego, doulos significa “servo”. O navio foi reconhecido pelo Guinness Book (Livro dos Recordes) como “o navio de passageiros mais antigo em operação (até 2010)”

Através da OM, você passou um bom tempo a bordo de navios, como foi a experiência e como é atuar desta forma?

Em 1979, o navio chegou pela primeira vez ao Brasil, cheio de jovens de 35 diferentes nacionalidades, o que gerou um efeito muito grande no Brasil inteiro. A bordo do navio Doulos, a gente não tinha essa noção de missões de curto prazo, nossa ideia era que o indivíduo ia dedicar o resto da vida naquilo. Mas o navio passou a oferecer oportunidades para quem queria servir por um ano, e eu, que já era químico e estava fazendo faculdade de biologia na época, deixei tudo e parti com o navio, isso sem falar inglês ou espanhol, fui aprender essas duas línguas no navio e acabei me tornando um tradutor. Então nessa jornada em dois anos eu conheci 25 países.

E a igreja brasileira, em geral, ainda investe em missões?

A gente cresceu muito nesse entendimento de missões. Nós passamos a perceber que missões começam onde você está e termina aonde Deus quiser. Quem manda na minha vida é Deus. Veja, a religião busca o céu, mas quem é do Reino quer trazer o céu para a terra. Então há uma diferença entre ser um cidadão desse reino ou apenas membro de uma igreja. Quando você é membro de igreja você cumpre ou não. Mas quando você pensa em Reino você pensa e participa de todas as questões, inclusive estar legalizado no país e fazer tudo para ser parte daquele povo. É saber como oferecer sua vida para aquele povo ou cultura.

Você desenvolve um trabalho muito específico e por isso talvez poucas pessoas conheçam, que é a defesa de pessoas em situação de risco devido ao tráfico humano. Pode nos explicar como isso é na prática?

O terceiro crime no mundo hoje que mais produz dinheiro é o tráfico humano e a escravidão. O tráfico humano ocorre em diferentes classes sociais, tem meninas que têm tudo em casa e recebem convites para irem para outro lugar do mundo e chegando lá perdem seu passaporte e ficam numa situação de escravidão para essa máfia que está no mundo inteiro. Por isso nós trabalhamos na raiz do problema, e a raiz é a família. A pessoa que entra nessa vida, quando resgatada vai precisar de uma recuperação completa, é aí que entram profissionais de várias áreas.

Pastor Humberto Aragão participa com exclusividade do Comunhão Entrevista

Qual o maior desafio no campo missionário hoje?

Eu creio que é a gente servir bi vocacionalmente e levar a igreja a entender que todos são parte da obra missionária. Uma vez que a pessoa já foi salva, ela já tem essa cidadania do Reino que tem o dever de expandir o evangelho pelo mundo.

E para quem quer participar em missões… qual treinamento se deve fazer ou como se juntar a uma organização?

É preciso conversar com o seu pastor e convencê-lo com um chamado que ele veja que é algo sério, relevante e que tenha informações importantes para dar sobre o lugar que se pretende ir. Também é preciso que comece agora a fazer parte do seu processo de transformação para que todas as pessoas vejam e digam: essa pessoa é chamada. Após isso, busque uma agência missionária séria, para que você não vá sozinho e possa te ajudar com a logística que envolve chegar em um novo país.

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