Helena Tannure: “As pessoas estão muito reativas”

Helena Tannure, referência em família, em entrevista à Revista Comunhão

Escritora, conferencista e ministradora da Palavra de Deis, ela se tornou uma das referências no Brasil no assunto família. A ex-integrante do Diante do Trono classifica como fundamental a preocupação com a oração no lar.

Helena Tannure, uma mulher serena nas palavras e inspiradora na conduta. Mãe, cantora, apresentadora, conferencista e ministradora da Palavra de Deus. Ela se tornou referência no meio evangélico sobre o tema família, da qual é uma defensora apaixonada.

Há oito anos, pastora Helena, como é conhecida, deixou o Ministério Diante do Trono, da Igreja Batista Lagoinha, de Belo Horizonte (MG), que integrou por 13 anos, para um novo desafio. Aos 51 anos, a mineira se desdobra entre as funções da casa, o ministério pastoral e a vida de escritora e de empresária.

Nesta entrevista exclusiva à Comunhão, Helena Tannure fala sobre a sua conversão, o processo de cura e restauração de um abuso sexual que sofreu na infância, o chamado de Deus ao ministério, a homossexualidade na sociedade e o quão importante é a instituição familiar, tão atribulada e bombardeada nos dias de hoje. Confira!

Como é a Helena Tannure antes e depois de Jesus?

Sou a filha caçula de três irmãos. Meus pais se converteram quando eu tinha 11 anos, mas a semente do Evangelho foi brotada quando eles ainda eram noivos. Naquela época, católicos praticantes, achavam que era necessário conhecer Jesus com profundidade. Quando o casamento deles estava a ponto de terminar, um casal dos EUA bateu à porta de nossa casa e falou que Deus o tinha enviado para orar pelos meus pais. Então meus pais se renderam a Jesus e a partir daí comecei a frequentar a igreja.

Aos 14 anos, durante um retiro de carnaval, entreguei minha vida a Jesus. Entendi que precisava do Senhor, mas O coloquei no banco de trás do carro da minha vida, fazendo minhas escolhas, vivendo meus sonhos e desejos. Tive uma infância difícil, sofri abuso sexual, e Deus tinha que formatar completamente a minha autoestima, a maneira de ver o mundo e de me relacionar com o próximo.

Dos 17 aos 23 anos, vivi para mim mesma. Casei-me aos 22 anos como sonhava. Na minha vida estava tudo bem, cantava no coral da igreja, fazia evangelismo. Mas não sentia alegria. Um vazio tomou conta do meu coração e me levou a buscar a Deus além da igreja. Foi então que o Senhor me mostrou o estado em que me encontrava, pois era invejosa, ciumenta e briguenta. Em uma briga que tive na família, minha mãe me disse que eu não tinha nascido de novo. E isso foi um baque pra mim, mas ao mesmo tempo libertador.

Entendi que a obra de transformação que tinha acontecido na minha vida foi apenas externa. Deus queria me mudar de dentro para fora. Então, Ele começou a fazer a obra em mim. Afinal, quando a gente busca, a gente acha. Deus vai desconstruindo e estabelecendo dentro de nós o que é importante para Ele. O Senhor me transformou, de fé em fé, de glória em glória. Muitas coisas Ele já fez, já modificou, e eu sei que tem infinitamente muito mais para fazer.

O que aprendeu com a experiência de integrar o Ministério Diante do Trono?

O Diante do Trono foi uma grande escola, fundamental no meu processo de crescimento, na minha espiritualidade e no meu amor pelo Senhor. A liderança do grupo sempre me instigou a buscar Deus. Quando nos reuníamos em oração, havia arrependimento e quebrantamento. Todo o processo de cura da minha vida começou dentro do grupo, até mesmo em relação ao abuso que sofri na infância, que veio à tona.

Em uma ocasião na qual participávamos de um acampamento de carnaval, Deus fez uma grande obra entre nós, nos levantando para o arrependimento e convicção de pecado. A minha perspectiva do Diante do Trono é que Deus reuniu pessoas que precisavam de ser curadas, transformadas, libertas e restauradas. O grupo foi a grande guinada na minha vida, a ponto de eu  entender que precisava de me relacionar com Deus, que Ele veio para fazer reconciliação e que eu necessitava voltar completamente para o Senhor.

A rotina hoje permite dar atenção à família e aos amigos como gostaria?

Embora as pessoas pensassem que o Diante do Trono tinha uma agenda muito intensa, conseguíamos nos revezar, pois o grupo era grande, então não sacrificava a família. Depois que saí, ao contrário do que imaginei, minha agenda ficou ainda mais intensa. Deus mudou tudo. A família, eu dou um jeito de priorizar, mas gostaria de ter mais tempo para os amigos. Quando viajo para ministrar no fim de semana com meu marido, voltamos no domingo cedo para almoçarmos todos juntos; e de segunda a quinta, estamos em casa com nossos filhos.

A família tem estado sob ataque em várias esferas.
De maneira geral, a família brasileira perdeu a orientação bíblica?

O grande problema é que muitas vezes os pais acham que só levar os filhos para a igreja é o suficiente. Pelo contrário, tem de haver um discipulado, uma preocupação com a oração no lar. Isso é prioridade. Hoje os pais saem para trabalhar fora e não pensam em quem vai ficar com os filhos para cuidar deles e educá-los. Não dá para terceirizar essa responsabilidade.

E mesmo quando a mulher tem necessidade de trabalhar fora por conta das questões financeiras, acaba dando o seu melhor para o mercado, priorizando a carreira. Para a família, a dedicação é mínima, e isso traz prejuízos, pois onde há uma lacuna o inimigo aproveita. Então, temos de prestar bastante atenção em como estamos gastando esse tempo, sobre o que conversamos.

Às vezes as famílias estão dentro de casa, mas desconectadas, e quando se assustam acontece uma tragédia. Quando os filhos estão emitindo sinais de socorro, não percebemos porque estamos ocupados demais. É um processo inconsciente, mas precisamos revê-lo, pois está gerando danos sérios na afetividade dos nossos filhos, e eles vão buscar respostas em outros lugares e relacionamentos.

Como enfrentar as influências externas espirituais para proteger a família?

Viver uma vida cristã e ter um relacionamento com Deus, além da igreja. É muito importante levar os filhos à Escola Dominical, mas só isso não vai resolver. Eles veem os pais terem uma vida dentro da igreja, mas em casa uma postura completamente diferente.
Na igreja os pais são proativos e amorosos e no seio familiar vivem brigando. Nosso maior desafio é ter atitude cristã em todo lugar.

E a Igreja tem sido eficaz em orientar e proteger esse núcleo?

Vejo a Igreja muito inclinada a fazer o que é certo. Hoje temos boa literatura e congressos voltados para família. Mas nada adianta se não houver uma mudança de atitude frente ao ataque da família. A Igreja está se movimentando, está preocupada, chamando para conversa e disponibilizando até terapeutas familiares. Mas as pessoas também precisam assumir sua posição. Temos de lembrar que nós somos a Igreja, o Corpo de Cristo, e temos responsabilidades nesse processo.

Falta diálogo entre as pessoas?

As pessoas estão muito reativas, estamos prontos para reagir, discordar e contar nossa opinião. Isso acontece tanto entre o casal, como entre os filhos e na sociedade. O que vemos nas redes sociais é apenas uma amplificação do que está acontecendo dentro de casa, nos relacionamentos empresariais e até mesmo dentro da igreja. Essa postura reativa impede o diálogo profundo e verdadeiro. Temos de aprender a ouvir o outro, e não ter que dar uma resposta, mas acolher, refletir e repensar.

Internet e TV têm influenciado a juventude de forma bastante negativa. Faltam limites aos jovens? Quais as consequências de se ter acesso a qualquer conteúdo?

Falta limite para todos. Nós, como pais, também estamos demasiadamente envolvidos com a internet. Às vezes os filhos estão conversando conosco e estamos dando prioridade em responder a um WhatsApp ou a um e-mail. Hoje vemos nos restaurantes a família inteira olhando para a televisão e ninguém conversando.

O problema não são a tecnologia ou as redes sociais, mas a maneira como agimos e as usamos. E o que poderia ser uma ferramenta de bênção pode se tornar maldição. Temos de saber o momento de desligar o celular, a TV, e retomar o diálogo, o olho no olho, sentar ao redor de uma mesa e estar ali de verdade. As pessoas estão viciadas e não admitem isso. Precisamos trabalhar em nós mesmos, não apenas nos jovens. Antes de encorajar o outro a se dominar, tenho primeiro de me dominar. A juventude só está refletindo o que nós, pais, temos reproduzido.

Quais as consequências do uso abusivo da tecnologia?

Solidão! Distanciamento, falta do diálogo verdadeiro e relacionamentos superficiais. O acesso à tecnologia nos traz notícias em tempo real. É um bombardeio de informação, principalmente com notícia ruim, que nem conseguimos lidar com tudo. Estamos enchendo a nossa alma de notícias trágicas, e uma hora ela vai gritar, gerando alguma doença, um transtorno emocional. Às vezes não temos tempo de processar e vamos sobrecarregando nossas emoções. Isso termina em solidão, suicídio, depressão, síndrome de burnout. É um alerta de que precisamos acordar.

Os registros de casos de violência doméstica, uso de drogas, pedofilia e pornografia são diários. A que atribui essa crise de valores da sociedade?

Isso é resultado de um conjunto de coisas. Por exemplo, quem ensina valores para uma criança não é a sociedade, é a família. A diferença é que antes havia uma concordância geral. Os pais tinham uma fala, o professor e o médico fortaleciam essa fala. Como vivemos numa sociedade em que os valores são questionáveis, tudo é relativizado, então não há mais o mesmo diálogo. Os pais ensinam uma coisa, e a professora desconstrói.

O que temos de fazer diante disso é fortalecer esse discurso com a nossa atitude dentro de casa. Outro ponto é que os pais hoje não estão em casa e se esquecem da atenção aos filhos. Então, o que adianta encorajar os filhos a construírem ou terem algo se eles forem seres humanos destruídos? Não adianta termos profissionais de sucesso, falando vários idiomas. Isso não é suficiente. Estamos saindo de um extremo, onde não se encorajava estudar, e vamos para outro, onde investimos tudo em construir algo, mas negligenciando a melhor parte, que são o amor, a aceitação, o diálogo, o acolhimento e a percepção de que o outro está em sofrimento.

A mulher é sensível ao olhar e comportamento diferente de um filho, mas hoje, por estar fora de casa, não consegue perceber o que está acontecendo com o filho. Esse é o desafio de nosso tempo, e só Deus é que pode dar esse equilíbrio.

A cada dia aumenta o número de pessoas que assumem a homossexualidade. Como um cristão deve lidar com alguém que fez essa escolha e que cuidados os pais devem adotar ao buscarem orientação quando não souberem como agir?

A homossexualidade é apenas um sintoma. A homoafetividade está ali por uma consequência da negligência e falta de afetividade dentro de casa, de pais que abandonam suas famílias, homens que são abusivos, apáticos. Com isso a figura feminina fica muito forte em casa, como a que resolve tudo. Há uma quebra com a figura masculina porque o pai foi omisso ou violento. Isso é uma quebra de afetividade. Deus constituiu a família como homem e mulher. Quando os dois não têm liberdade dentro do casamento para terem amplamente homem e mulher, estão brigando e disputando poderes, um dos sintomas é essa confusão na sexualidade dos filhos.

Além da negligência ou apatia paterna, tem também o abuso sexual, que pode levar à homossexualidade. E hoje temos a mídia, que está estimulando esse comportamento. O jovem passa por um momento de dúvida na sua sexualidade. E na transição da adolescência, muita coisa pode se apresentar, mas isso se resolvia, agora não mais, pois está sendo sugestionado e instigado a experimentar a prática. O papel da Igreja é mostrar a verdade, acolher e amar, porque Jesus ama o invejoso, o que não consegue largar mentira, o que tem desvio de caráter, o fornicador e o homossexual. Nós não somos dignos de apontar o pecado da homossexualidade quando temos a prática do sexo antes do casamento. Quando Jesus dispensou a mulher adúltera, Ele a perdoou.

O que a Igreja tem de fazer é revelar Cristo, e quem convence o homem da justiça, do pecado e do juízo é o Espírito Santo. A Igreja tem que estar de portas abertas para qualquer pessoa. E nós, como cristãos, temos de estar prontos para sermos transformados pelo poder do Senhor, dependendo dEle para vencer nossas áreas de vulnerabilidade.


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