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quarta-feira, 20 janeiro 2021

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Ao invés de Halloween, dia 31 de outubro marca o evento da Reforma Protestante há 502 anos, e desde 2016 foi sancionado como o Dia Nacional da Proclamação do Evangelho

Nas ruas vemos lojas com enfeites com abóboras, bruxas, fantasmas, zumbis e vampiros. Subitamente nos damos conta que o dia 31 de outubro se aproxima. Há 20 anos atrás nada disso existia. A festa de Halloween se implantou tão rapidamente na nossa cultura que nem tivemos tempo para discernir se pode conviver ou não com a vida cristã.

Curiosamente, o Halloween tem sua origem no cristianismo do século VII quando o Papa Bonifácio IV instituiu o dia de Todos os Santos para que os cristãos lembrassem dos mártires da fé.  Antes era comemorado no dia 13 de maio até que um século mais tarde o Papa Gregório III alterou a data para o dia 1 de novembro.

Na noite da véspera, 31 de outubro, os pagãos da Inglaterra, Irlanda e França celebravam o fim do verão e início do inverno, com fogueiras, abundância de comida e a crença de que nesta noite os espíritos dos mortos podiam conviver com os vivos. Quando os missionários cristãos chegaram a estas regiões, os novos convertidos fizeram uma associação entre as duas festas.

Os mortos foram compreendidos como os santos, as fogueiras passaram a iluminar o caminho das almas no purgatório e criou-se o hábito de crianças irem de casa em casa cantando ou dizendo orações pelas almas dos mortos. Em cada casa visitada as crianças recebiam bolos ou doces. As igrejas tocavam os sinos por toda a noite. A expressão “All Hallows’ Eve” (véspera de Todos os Santos) acabou por tornar-se Halloween.

Com a migração para os Estados Unidos, os ingleses e irlandeses levaram consigo suas tradições religiosas e culturais. Lá, o Halloween recebeu outras contribuições como o uso de espantalhos, abóboras entalhadas, a expressão “doces ou travessuras” e o uso de fantasias. Dos Estados Unidos o Halloween foi introduzido no Brasil a partir das escolas de inglês como uma festa cultural. Finalmente, o cinema acabou por popularizar entre nós não só o feriado como também sua associação ao terror e à monstros.

Apesar disso, o dia 31 de outubro continua a ser celebrado como véspera do dia de Todos os Santos por muitas igrejas cristãs. Nos Estados Unidos, não há proibição por parte dos pastores das igrejas evangélicas à participação das crianças nas brincadeiras de gostosuras ou travessuras. Conversei certa vez com um pastor presbiteriano que acompanhava suas filhas, fantasiadas recolhendo doces, e a opinião geral é que as crianças não relacionam a festa de Halloween com demônios e sim com doces e diversão e que a festa é uma oportunidade de criar bons relacionamentos com a vizinhança.

No Brasil o Halloween divide opiniões entre os cristãos, até mesmo entre católicos e evangélicos. Há líderes que defendem a proibição à sua participação. Mas há também aqueles que incentivam o uso de alguns de seus elementos ou o resgate de seu significado original para maior espiritualidade ou para a evangelização.

Algumas igrejas evangélicas criaram o Halloween gospel com abóboras e doces com mensagens evangelísticas e festas para as crianças fantasiadas de fadas, princesas, caubóis, etc.

A versão católica do Halloween gospel é o Hollywins (a santidade vence) em que as crianças são incentivadas a fantasiarem-se como os santos e santas católicos e participarem de missas e festas com doces.

A igreja católica da Inglaterra criou um evento chamado “Night of Light” (noite de luz) com uma vigília de Todos os Santos, diversão e doces para as crianças, onde os participantes se vestem de branco e acendem uma vela simbolizando a luz de Cristo.

Deixando todas estas questões de lado, o dia 31 de outubro marca o evento da Reforma Protestante há 502 anos, que desde 2016 foi sancionado como o Dia Nacional da Proclamação do Evangelho. Assim, concorde você ou não com o Halloween, não deixe de celebrar o dia 31 de outubro!

Lidice Meyer Pinto Ribeiro é Doutora em Antropologia Social (USP). Investigadora integrada. Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL). Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


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