18.9 C
Vitória
quinta-feira, 29 julho 2021

Grande “reset”

Mais Artigos

pessoas

Não cabe à Igreja nem a ninguém uma tentativa de resistência a um governo mundial, uma vez que a própria história bíblica demonstra que as coisas que devem acontecer certamente encontrarão o seu espaço no tempo e a boa mão do Senhor

Por Magno Paganelli

Desde que a pandemia de Covid-19 alarmou o planeta com como elemento surpresa e desdobramentos econômicos, politização do tema e mudanças profundas nos hábitos sociais, comportamentais e familiares, muita coisa tem sido falada sobre as implicações apocalípticas de tal evento. Livros, palestras e lives aos montes surgiram desde então, com as mais diversas previsões sobre o futuro imediato e remoto da civilização mundial.

Mais recentemente vejo nas redes sociais pessoas temerosas diante do que tem sido chamado de Great Reset ou Grande Reinicialização e as diversas implicações que devem ser implementadas em escala planetária. São oito as diretrizes a serem alcançadas até 2030, conforme o World Economic Forum (Fórum Econômico Mundial), de Davos. As propostas podem ser vistas aqui.[1] Paralelamente ao Grande Reset há a Agenda 2030 da ONU, com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).[2]

A despeito de certo alvoroço que constatamos entre alguns grupos cristãos, especialmente entre aqueles que são rápidos em fazer associações apressadas e elaborar teorias da conspiração, há a meu ver alguns aspectos que precisamos ter em mente quando eventos de grande projeção parecem “sentar-se no sofá da sala” sem antes pedir licença.

O primeiro é que há muito tempo a Igreja brasileira tem clamado por um avivamento para o aumento da evangelização mundial, pela conversão dos inimigos da fé cristã e a queda de governos corruptos, além de orar pela volta do Senhor. Entretanto, ao mais leve sinal de uma instabilidade global, nos agitamos e por vezes passamos à “exigir os nossos direitos”! Não estou afirmando nem negando que agora Deus esteja nos dando um grande avivamento, nem qualquer outra coisa. Apenas sugiro que tenhamos prudência e deixemos de ser ativistas inconsequentes. Como iremos conciliar os nossos pedidos a Deus com os direitos civis de todos? Penso que devemos enxergar o mundo real a partir dos valores cristãos que dizemos defender, e não somente partindo dos direitos que alegamos possuir ou do suposto controle ao qual não queremos nos submeter quando as peças no tabuleiro começam a se mover.

O segundo ponto é que o Grande Reset não é uma disputa entre direita e esquerda, entre capitalismo e comunismo ou uma igreja satânica contra a fé cristã. Por trás do Grande Reset está um plano de poder, sim, mas não nos modelos como há décadas o Ocidente tem visto. As propostas anunciados por Klaus Schwab, fundador do World Economic Forum, em reunião com líderes globais, deverão ser discutidas em Davos, Suíça, em 2021, ainda sem data definida até o presente momento. Participam dessas reuniões as maiores autoridades políticas e empresariais do mundo, especialistas nos temas ligados ao meio ambiente, pautas sociais, questões epidêmicas e representantes de grandes corporações tecnológicas e das mídias sociais.[3]

Curiosamente, as propostas feitas por Schwab tocam situações as quais muitos de nós, cristãos, desejamos que aconteçam no mundo: redução da pobreza e o que chamam “problemas dos bens comuns globais”, a questão da segurança internacional e a Quarta Revolução Industrial (ou Indústria 4.0). Cada um desses pontos têm amplas interpretações, evidentemente, e múltiplas possibilidades; isso é fato.

O Brasil já tem um comitê instalado no país para discutir o seu alinhamento a esses propósitos lançados por Davos e do ponto de vista racional, é impossível que fiquemos de fora nas questões inerentes a essa discussão, pois elas passam por melhorias em educação, saúde, segurança, tecnologia e tantas outras. Em sã consciência ninguém desejaria estar de fora desse novo tempo.

E aí vem a terceira implicação deste curtíssimo artigo, que é o incômodo de parte da comunidade cristã sobre aspectos práticos de sua fé. Acreditar no conteúdo bíblico pressupõe a mobilização (pessoal ou coletiva) em favor de mudanças. A Bíblia é um livro de contracultura, e será por muito tempo. Ela provoca mudar comportamentos, modos de ver o mundo, orienta a trabalhar pela mudança das condições de vida, pela humanização da sociedade, pela melhoria ou transformação da cultura etc.

No entanto, há aspectos do conteúdo da Escritura que não são dados ao nosso acesso, pois são da competência de Deus. É Ele quem interfere na história de um modo como não compreendemos e dá a ela um fim de acordo com os seus planos. Tem sido assim desde a Antiguidade e inúmeros fatos previstos na Escritura estão registrados na história mundial; são dados verificáveis.

Desse modo, a exaltação emocional e certa histeria por parte da Igreja diante de supostos planos misteriosos que irão destrui-la precisam ser vistos sob a ótica bíblica ampla. Evidentemente há uma agenda em curso, ainda que fisicamente não exista um “Escritório Central do Mal” (além do próprio inferno, seja lá onde ele está) e os adeptos dessa agenda atacam frontal e violentamente os valores promovidos pela Igreja e a própria cultura ocidental. Ninguém intelectualmente honesto rejeita esse quadro.

E qual é a “ótica bíblica” pela qual devemos ler os fatos? A ótica da esperança de que Deus permanece no controle de tudo e que a vitória que esperamos encontra-se no final da história. A história é escatológica. Karl Barth, comentando Romanos 8.24,25, disse que “O cristianismo que não é cabal e integralmente escatologia não tem cabal e integralmente nada a ver com Cristo”.[4]

Jürgen Moltmann, que viveu em um contexto de regime socialista pós-Segunda Guerra, foi encarcerado em um campo inglês de prisioneiros de guerra até que fosse repatriado em 1948, acrescenta: “Os apocalipses bíblicos não são cenários pessimistas de catástrofes mundiais que apenas espalham medo e terror, com a intenção de paralisar as pessoas mediante a adequada crença na fatalidade, mas são mensagens de esperança no perigo, que deve ser atentamente encarado e ao qual se deve opor resistência. Eles mantêm viva a confiança em Deus”.[5]

Não pensamos que tal esperança deve estar em um regime político ou teoria econômica, como parece ser o caso da compreensão de Moltmann. Sem fundir teologia com política (e subvertendo o conceito dele), a esperança, a meu ver, está mais alinhada ao conceito paulino, conforme expresso em suas cartas (ex. Romanos 12.12 e 1Corintios 13.13). Não fiquemos aflitos.

Não cabe à Igreja nem a ninguém uma tentativa de resistência a um governo mundial, uma vez que a própria história bíblica (p.ex. trechos de Daniel) demonstra que as coisas que devem acontecer certamente encontrarão o seu espaço no tempo e a boa mão do Senhor tem conduzido a permanência de todos nossa grande casa chamada Terra. Tenhamos, pois, esperança de que Deus nos espera no final.

[1] Disponível em <https://www.weforum.org/about/world-economic-forum> e acessado em 18.02.2021.

[2] A Agenda global 2030 é um compromisso assumido por líderes de 193 Países, inclusive o Brasil, e coordenada pelas Nações Unidas, por meio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Além dos ODSs, há 169 metas a serem atingidas no período de 2016 a 2030, relacionadas a efetivação dos direitos humanos e promoção do desenvolvimento, que incorporam e dão continuidade aos 8 Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, a partir de subsídios construídos na Rio + 20.[2] Veja em <https://www.weforum.org/about/world-economic-forum> e https://www.cnj.jus.br/programas-e-acoes/agenda-2030/o-que-e-a-agenda-2030/, ambos acessados em 18.02.2021.

[3] Afirmações de Klaus Schwab, fundador e executivo do FEM: “Todos os países, dos Estados Unidos à China, devem participar, e todos os setores, bem como a tecnologia de petróleo e gás, devem ser transformados […] Em suma, precisamos fazer ‘O Grande Reinício’ do capitalismo. […] A pandemia representa uma rara janela de oportunidade para refletir, reimaginar e resetar o mundo”. Disponível em <https://www.mises.org.br/article/3277/comecamos-com-os-lockdowns-e-estamos-indo-para-o-grande-reset-atualizado> e acessado em 15.01.2021.

[4] BARTH, Karl. Carta aos Romanos. São Paulo: Fonte Editorial, 2008. p. 484.

[5] MOLTMANN, Jürgen. No fim, o início: breve tratado sobre a esperança. São Paulo: Edições Loyola, 2007. p. 70.

Magno Paganelli é Doutor em História Social (USP) e Mestre em Ciências da Religião (Mackenzie)

- Publicidade -

Comunhão Digital

- Continua após a publicidade -

Fique Por Dentro

Entrevistas