Pastores defendem práticas claras na administração dos recursos e reforçam a transparência como princípio bíblico que fortalece os vínculos com os membros
Por Patricia Scott
Com o crescimento das igrejas e o aumento das demandas sociais, a necessidade de uma governança transparente e eficaz tornou-se cada vez mais evidente. Os membros querem entender como seus dízimos e suas ofertas são aplicados; os líderes precisam tomar decisões com base em dados concretos; e a sociedade observa atentamente a postura das congregações diante das questões éticas e legais.
Nesse contexto, o pastor Ozeas Corrêa, líder da Igreja Rest, no bairro Ingá, em Niterói (RJ), explica que, na prática, prestar contas significa dar transparência ao uso dos recursos confiados à liderança espiritual. “É apresentar relatórios acessíveis, justificar as decisões estratégicas e manter canais abertos de diálogo com a comunidade”, detalha.
Ele lembra que a Bíblia não ignora essa responsabilidade. Portanto, Paulo, em 2 Coríntios 8.20-21, ressalta o cuidado para agir de modo a não receber críticas quanto ao uso dos recursos, fazendo o que é correto “não apenas diante do Senhor, mas também diante dos homens”. Então, a prestação de contas ultrapassa a boa prática administrativa: é expressão de integridade e serviço cristão.
O pastor destaca três dimensões que se complementam nesse processo: a legal, pois as igrejas são regidas por estatutos e normas que exigem transparência mínima; a ética, que protege a liderança de abusos e fortalece a confiança da comunidade; e, principalmente, a bíblica, que confere o sentido mais profundo à prestação de contas. Ele cita a Parábola dos Talentos (Mateus 25.14-30), onde Jesus ensina que todo mordomo deve responder pelo que recebeu. Assim, prestar contas é um ato de mordomia fiel e temor a Deus.
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Por outro lado, a ausência de transparência abre espaço para rumores, desconfiança e, muitas vezes, escândalos. “Sem clareza, inevitavelmente surgem perguntas — com ou sem fundamento.” O pastor cita 1 Timóteo 3.2, lembrando que o líder deve ser irrepreensível, pois a reputação da igreja repercute não só internamente, mas na sociedade em geral, inclusive nas redes digitais. “Se a confiança for abalada, até a mensagem do Evangelho perde credibilidade.”
Cultura de confiança
Para transformar a prestação de contas em uma cultura de confiança, e não mera formalidade, Corrêa recomenda práticas concretas: relatórios trimestrais claros e acessíveis; conselhos administrativos que representem a comunidade; auditorias externas, mesmo voluntárias e em igrejas pequenas; reuniões abertas com apresentação de resultados e planos; e versões resumidas dos relatórios disponibilizadas online, garantindo o sigilo dos doadores.
“É essencial comunicar com clareza, objetividade e linguagem pastoral”, enfatiza Ozeas. “Evite termos técnicos. Use recursos visuais simples, como gráficos e categorias como ‘missões’, ‘ações sociais’ ou ‘obras e manutenção’. E não basta informar o que foi feito: explique o porquê de cada decisão.”
O líder religioso aconselha que a liderança adote um tom de gratidão, não de defesa, estando aberta a responder dúvidas com humildade. “A igreja precisa entender que nem toda decisão agradará a todos, mas a unidade é possível quando há verdade e respeito mútuo.” Ele cita Provérbios 15.22: “Com muitos conselheiros se obtém êxito.”
Liderança transparente
O pastor Ozeas reconhece que, em muitos contextos, a prestação de contas ainda é vista com desconfiança ou como desafio à autoridade espiritual — um reflexo de tradições autoritárias, medo de críticas ou despreparo técnico. “Mas uma liderança madura não teme transparência. Ela a valoriza”, afirma, citando Martinho Lutero: Uma consciência cativa à Palavra de Deus não se esconde da verdade. Quem anda na luz não tem medo da exposição.
Por fim, Corrêa reforça que a era digital ampliou a necessidade de transparência. Para igrejas híbridas, sugere relatórios em PDF por e-mail ou no site, reuniões transmitidas online com espaço para perguntas e formulários digitais para dúvidas e sugestões. “A tecnologia deve ser aliada da integridade, ampliando o acesso e fortalecendo a confiança — especialmente daqueles que não estão presentes fisicamente, mas permanecem espiritualmente comprometidos.”
Direito dos membros
Na mesma linha, o pastor Kennedy Sobrinho, líder da Assembleia de Deus – Ministério de Madureira, em Caldas Novas (GO), destaca que a prestação de contas é essencial e um direito dos membros, mas muitos não têm iniciativa para buscar essa informação. “As igrejas mais tradicionais possuem conselhos que prestam contas mensalmente aos congregados.”

Kennedy afirma que, apesar de a prestação de contas não ser sempre entendida como obrigação legal na igreja, o princípio da confiança é fundamental. No entanto, ele alerta que, diante de má gestão, o fiel deve se posicionar: “Se a liderança usa os recursos para benefício próprio, vive no luxo e não presta contas, o melhor é se desligar. Há igrejas sérias que honram a confiança do povo.”
Princípio bíblico
Embora a expressão “prestação de contas” não apareça diretamente na Bíblia, o pastor lembra que o princípio está presente. Cita Paulo, que orienta que “tudo seja feito com ordem e decência” — o que inclui a gestão financeira da igreja. “Administrar os bens da igreja exige prudência, responsabilidade e organização. Não pode ser feito de forma improvisada ou leviana”, destaca.
Para ele, a prestação de contas traz transparência essencial à relação entre líderes e membros, fundamental para o crescimento saudável da igreja. “Não há mais espaço para lideranças autoritárias que decidem tudo sem prestar contas. Além de ultrapassado, isso pode configurar ilegalidade.”
Por outro lado, a ausência da prestação de contas abala a integridade da liderança, principalmente quando membros contribuem regularmente, mas não têm acesso aos resultados ou benefícios da comunidade. “Essa falta de transparência mina a confiança, dificulta o diálogo e pode levar ao afastamento ou rompimento com a igreja.” Para evitar isso, Kennedy defende que a prestação de contas seja rotina, por meio de reuniões exclusivas, avisos em murais ou painéis digitais.

