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sexta-feira, 17 setembro 2021

Fortalecendo a comunhão

Pequenos grupos, núcleos, encontros familiares e células são alguns dos nomes das reuniões nos lares para estudar a Bíblia e aumentar a integração entre os membros da igreja

Por Regina Silva

Tempo, tempo, tempo, ou a falta dele, é algo que tem sido um complicador na vida da sociedade moderna, que vem criando novos formatos de conhecimento, como a educação à distância, ou de relacionamentos interpessoais pelas redes sociais. E nessa nova sociedade, cada vez mais sem tempo, crescem nas igrejas os pequenos grupos de estudo, com 10 a 15 pessoas, que definem os melhores  dias, horários e locais para juntos estudar a Bíblia, aumentar a comunhão e adorar a Deus.

É uma estratégia da Igreja para a atualidade. É, também, um momento de evangelização, pois muitas pessoas só têm o domingo para estar com suas famílias e filhos e acabam não conseguindo estar nos horários determinados para estudo e culto. Os pequenos grupos se tornam fortes aliados da Igreja, na sua missão de comunhão, integração e discipulado enquanto organismo espiritual. Os primeiros cristãos se reuniam em casas, em pequenos grupos para comunhão e estudo.

Em Colossenses 3:16 temos a exortação de Paulo: “Habite ricamente em vocês a Palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria, e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seus corações”. Nos grupos se compartilham vitórias; há testemunho, oração uns pelos outros; estuda-se a Bíblia e fala-se mais abertamente sobre a vida cristã.

Após a morte de Jesus, o Livro Sagrado fala que os apóstolos se reuniam em casas, como vemos em Atos 12:12 “Foi à casa de Maria […] onde muitos estavam reunidos e oravam”. Por não ter um templo próprio para suas reuniões, a Igreja do Novo Testamento acostumou-se, desde o início, a reunir-se nas casas (At 12.12; Rm 16.3-5; Cl 4.15).

Participar de um grupo de estudo não substitui estar em congregações no templo, pela importância de Igreja reunida na propagação do Reino de Deus. Em Hebreus 10:25 há a seguinte exortação: “Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns”.

Como veremos, ao se reunir em pequenos grupos, a igreja encontra um meio de sair do espaço físico e se apresentar à comunidade de maneira mais intimista.

Modelo eficaz

Um dos pastores da Igreja Batista Filadélfia e cientista social, Elmir Dell’Antonio ressalta que o estudo em grupos, que na sua igreja tem o nome das tribos de Israel, adota um modelo antigo, considerando que foi proposto há mais de dois mil anos, mas eficaz. “Não é um modernismo é um resgate. É a máxima da propaganda boca a boca, que é mais eficaz que toda  tecnologia e as redes sociais. O grupo é uma propaganda positiva do Evangelho”, afirma.

“Não é um modernismo é um resgate. É a máxima da propaganda boca a boca, que é mais eficaz que toda  tecnologia e as redes sociais. O grupo é uma propaganda positiva do Evangelho” (pastor Elmir Dell’Antonio). Foto: Reprodução

O pastor lembra que a ideia de “células” foi inicialmente rejeitada pela questão da doutrina e do misticismo que a encerrava. “Hoje tem dado certo, porque absorvemos os modelos, as estratégias, e não a doutrina”.

Ele comenta que estar se relacionando, prática nem sempre possível durante os cultos no templo, é uma necessidade primitiva do ser humano. Elmir acredita que um grupo de estudo deve respeitar as faixas etárias e de interesse. “Não temos como compartilhar questões de casais com adolescentes, ou o inverso. A mensagem precisa ser diferenciada, mesmo que o estudo seja o mesmo”.

E quanto ao receio de alguns líderes de se dividir a igreja, ele crê que seja uma questão de habilidades. “Seja no culto familiar ou na tribo, devemos ensinar e aprender a sermos filhos de Deus. É um discipulado”.  Mas destaca que o fato de ter um grupo de estudo no ambiente do lar não substitui o culto doméstico. “A principal célula é a família. Atualmente, há uma falta de tempo, com mães no mercado, filhos sobrecarregados pelas exigências da vida moderna. Muitas vezes, não conseguem se reunir diariamente, mas não podemos abrir mão de estar, pelo menos, uma vez por semana, reunidos em família, para ouvir, compartilhar e conhecer”.

Fortalecimento do caráter cristão

O pastor da Igreja Batista de Cidade Continental, Jazanias Emidio, é um fã dos grupos de estudo. Ele os vê como uma boa estratégia, assim como o uso das redes sociais para aproximar as pessoas do Evangelho. “É mais fácil chamar para uma reunião fora do templo, por já saber como funciona o ritual. Já numa reunião fora do espaço físico templo, pode ser algo mais interessante, motivador para ouvir e aprender de Deus”.

E o pastor Jazanias ressalta que o perigo desses grupos é só um: não estudar a Bíblia. “Se o grupo estiver centrado na Palavra, haverá mais fortalecimento, maior comunhão, e isso não se trata de dividir, mas de multiplicar”. Se existem pastores que estão vivendo o momento de levar a igreja aos grupos de estudo fora do templo, há aqueles que partiram de células e agora também se reúnem em um espaço físico, como é justamente o caso da Igreja de Vitória.

O presbítero da Igreja de Vitória, Deronis Ferreira de Souza, conta que inicialmente a formação era em células, lá chamada de grupos familiares. “Os grupos foram crescendo e sentimos a necessidade de buscar um local maior para congregar todas as células”. Atualmente, são 42 grupos familiares em Vitória, Vila Velha, Cariacica e Serra.  Ele acredita que nesses núcleos é mais fácil desenvolver o koinonia.

“Podemos desenvolver o Evangelho simples de Cristo, com mais naturalidade. Podemos nos conhecer, orar um pelo outro, sermos mais amigos, para que o mundo veja Cristo em nós. O grupo deve ter um controle de participante. “Não deve ficar tão grande, a ponto de as pessoas terem que ficar na varanda, ou na cozinha e acabem conversando sobre outro assunto”, fala.

Outra ponderação que o presbítero faz é com relação à reunião dos líderes dos grupos. Na Igreja de Vitória esse encontro é semanal, para estudo em conjunto do texto que será levado aos grupos familiares, orando e compartilhando. Também, não há obrigatoriedade de ser em uma casa. “Os grupos têm liberdade de escolher onde querem se reunir. Pode ser no campo, na praia ou em outro lugar, considerando também a questão da mobilidade, onde for melhor para estarem juntos e servindo a Deus com seu dom”.

Ele lembra que as crianças, antes, ficavam em um quarto com alguém cuidando, mas hoje elas participam junto com os pais. “Entendemos que elas devem fazer parte do grupo, deixá-las ler a Bíblia, orar, cantar, entendo e respeitando que são crianças, quanto ao comportamento. Deixamos que participam para envolvê-las”.   “O grupo familiar pode ser uma estratégia para chamar outras pessoas que não entrariam na igreja, porque já sabem o que vão encontrar. Mas dentro de outro local, casa, grupo, fica mais fácil atraí-los. Hoje, é muito difícil tirar a pessoa, em um domingo, diante da programação na TV, que é preparada para prender, para ir a uma igreja e assistir a um culto, em uma casa ou outro local”, aponta Deronis.

Identificação. Para a advogada e membro da Igreja Filadélfia, Renata Piccoli, participar de um grupo de estudo, que no caso dela é chamado de Tribo de Dã, é muito enriquecedor e uma oportunidade de se aprender a Palavra em profundidade, além de proporcionar maior fortalecimento nos lares. “No nosso grupo, começamos adolescentes e, hoje, estamos casados, desenvolvemos amizades para a vida toda. Percebemos que temos afinidades tanto nas qualidades quanto nas dificuldades. Há uma grande identificação”.  Renata acredita que nos grupos, as pessoas têm mais facilidade de compartilhar necessidades, dificuldades ou mesmo uma bênção do que na igreja. “Nossa célula é quinzenal, por opção inicial do grupo, mas cada encontro tem sido tão bom, que já estamos pensando em torná-la semanal”.

Ela conta que já observou pessoas que tinham dificuldade em ir à igreja. “Nos grupos a receptividade é maior, é mais fácil o acesso. Muitas pessoas a partir da célula começam a frequentar igrejas”.

Uma ajuda muito importante na hora de passar por um momento difícil foi fundamental para a cura de Sirlene Barbosa, membro da Primeira Igreja Batista da Praia da Costa.  Ela, que frequenta os grupos de relacionamentos há muitos anos, relata como foi importante esse trabalho quando esteve doente.

“Quando adoeci e fiquei hospitalizada, os irmãos que mais me visitavam e demonstravam preocupação com a minha saúde e os meus sentimentos eram os do grupo, por isso falo que ali há maior irmandade e sintonia”. Participar de um grupo estudo, seja na casa dela ou em outras, é também uma oportunidade de interagir. A gente vê que não está só. É uma grande terapia, além de poder expor dúvidas sobre trechos da Bíblia, coisa que não temos tempo no templo, num culto normal”, conta Sirlene.

Quanto à possibilidade de se criar “panelinhas”, Sirlene acredita que isso não acontece com as pessoas mais maduras, tanto na idade como na fé. “Vivenciamos vários grupos dentro da igreja, não apenas o de relacionamento. É claro que os vínculos ficam mais fortes, pois oramos uns pelos outros, compartilhamos alegria e dores, assim nos sentimos mais afinados e confiantes com esses irmãos. O que fazemos é continuar a crescer como indivíduos e servos”.

Aprendizado não formal

A pedagoga e mestre em Educação Rutinelli da Penha Fávero, membro da 1ª Igreja Batista em Bento Ferreira, acredita que nesses espaços há um aprendizado não formal, uma vez que o foco é a comunhão. “São espaços para estar juntos amando e apoiando um ao outro, tal qual nos ensina o mandamento bíblico; também podem ser espaços para evangelização”.

As crianças também ganham nesses espaços, uma vez que nos pequenos grupos, pelo objetivo que têm, todos se beneficiam sempre. “Porém, quando os grupos que recebem crianças conseguem se organizar e pensar em um espaço possível para os pequenos, esse aproveitamento é muito maior. E isso não é difícil, mas requer vontade e algum investimento (de tempo e de espaço) dos membros dos grupos e das igrejas”. Rutinelli destaca a importância de tempo para convivência entre os irmãos nos pequenos núcleos.

“Nem sempre existem tempo e possibilidade para se estar juntos na igreja vários dias na semana. Muitos estudam à noite, outros trabalham, e é preciso pensar nas condições da própria cidade (trânsito ruim em determinados horários pode ser uma realidade). Além disso, o menor número de pessoas possibilita o olhar mais próximo às necessidades de cada um, tornando o discipulado mais perto”.

Salvação

A secretária Simone Simão, da Igreja Batista do Bom Retiro (SP), conheceu Jesus por meio de um pequeno grupo de jovens. Antes, ela nunca havia entrado em uma igreja evangélica. Era o Grupo Ágape, formado por jovens e adolescentes que se reuniam em quadras, casas, nas dependências da igreja, mas fora dos horários de culto, para juntos estudar a Bíblia, orar uns pelos outros e louvar, de maneira mais espontânea e evangelizar.

“Há mais de 30 anos, uma tia me falou destes grupo. Fui e gostei, por meio deles vim a conhecer Jesus e depois comecei a ir à igreja e em seguida me batizei. Eles foram muito importantes, pois estava na adolescência e eles foram uma referência, pois era um grupo unido, que queria agradar a Deus”, falou a jovem..

Saiba como implantar

Objetivos
• Alcançar com maior rapidez a maturidade espiritual.
• Despertar maior interesse em ajudar-se mutuamente e a comunidade.
• Gerar mais integração entre os membros.
• Identificar e desenvolver mais facilmente os dons espirituais.
• Pregar a Palavra mesmo para quem não vai a igreja.
Antes de começar
• Oração, estudo e troca de experiência com outros colegas pastores que já possuem essa prática.

Projeto piloto
• Para iniciar faça um cronograma dos grupos que serão iniciados, começando com um pequeno grupo e expandindo.

Treinamento
• Os líderes dos grupos devem ser treinados e sempre devem ter momentos para compartilhamento.

Organize
• Considere a mobilidade por bairros, por idades, por interesses.
• Crie nomes para os grupos.
• Os líderes definirão o dia, horário, a casa ou local de reunião, que dependendo do grupo e sem prejudicar o andamento da igreja, poderão ser modificados.

No grupo
• Tenha sempre uma atmosfera agradável.
• Reserva espaço e atenção para as crianças, se houver.
• Defina regras de convivência no estudo.
• Defina o que será feito, como cânticos, momento de oração, estudo, testemunhos entre outros.

Estudo
• Defina os livros que serão utilizados ou lições que sejam em comum, para que o aproveitamento seja maior. Os líderes deverão receber o material antecipadamente e, inicialmente, estudá-lo em conjunto.

Exemplo de pequenos grupos na Bíblia
• Em Tessalônica – Na casa de Jasom. Atos 17:5
• Em Corinto – Na casa de Tício Justo em frente à sinagoga. Atos 18:7
• Em Cesareia –  Na casa de Filipe – Paulo era hospedado. Atos 21:8
• Em Filipos – Casas de Lídia e do carcereiro. Atos 15:15, 32-34.
• Em Jerusalém – Na casa da mãe de João Marcos. Atos 12:12
• “E todos os dias no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e pregar Jesus, o Cristo”. Atos 5:42.
• “Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui”. Atos 17:6

Esta matéria é uma republicação exibida na Revista Comunhão – Agosto/2014, produzida pela jornalista Regina Silva e atualizada em 2021 (Priscilla Cerqueira). Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi originalmente escrita.

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