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quarta-feira, 14 abril 2021

Filmado sem máscara na pandemia, psiquiatra toma celular de mulher em Piracaia

O psiquiatra Eduardo Portieri estava sem máscara de proteção facial, obrigatória no Estado durante a pandemia, e explicou que não poderia fazer a consulta da criança, um menino de 6 anos, porque não atende menores da idade

Por Rayssa Motta e Fausto Macedo (AE)

A tatuadora Lia Costa foi até o posto de saúde central de Piracaia, município com cerca de 27 mil habitantes no interior de São Paulo, na manhã da quarta-feira, 10, acompanhar uma família em situação de vulnerabilidade que precisava de atendimento.

Na unidade de saúde, o Centro de Saúde II José F. Rosas, o psiquiatra Eduardo Portieri estava sem máscara de proteção facial, obrigatória no Estado durante a pandemia, e explicou que não poderia fazer a consulta da criança, um menino de 6 anos, porque não atende menores da idade.

Diante das reclamações por estar sem o equipamento e pela “omissão” no atendimento, o médico pediu que chamassem a equipe de segurança. A tatuadora, que a esta altura registrava o episódio, ouviu de Portieri que poderia ser processada caso a imagem dele fosse exposta. Como Lia não interrompeu o vídeo, o médico arrancou o celular da mão dela. “Chama a segurança aí porque a mocinha está muito nervosa”, diz o médico na gravação.

Estadão conversou com a tatuadora, que divulgou o episódio nas redes sociais. Ela contou que o médico passou diversas vezes sem máscara enquanto ela aguardava o atendimento

“Esperamos por aproximadamente uma hora. Nesse período, o médico passou para cima e para baixo sem máscara, o que me chamou bastante atenção. Mas eu não falei nada com ele. Na hora do atendimento, ele olhou para a criança e perguntou se a gente achava que ele era palhaço, se a gente achava que ele podia ficar perdendo tempo, porque ele não atende criança. Então eu expliquei que o atendimento na verdade era para a mãe. E ele falou que não ia atender ninguém”, explicou.

Lia contou que a confusão começou depois que o médico se recusou a prestar atendimento ao menino e viu que estava sendo gravado. “Comecei a gravar e pedi que ele usasse a máscara. Ele, por ser médico, já teria uma obrigação moral de usar. Ele continuou dizendo que não ia atender ninguém e chamou o segurança para mim Me viu fazendo a gravação e veio até mim, tomou o meu celular a força, disse que ia me processar, me agrediu fisicamente e ficou em poder do celular por um tempo. Ele fugiu, foi para uma sala lá em cima do posto de saúde, onde todos os funcionários administrativos estavam”, relatou.

Como a amiga da tatuadora também gravava a confusão, o momento em que o médico toma o celular de Lia ficou registrado. “Ele veio com bastante truculência”, disse.

A moça percorreu o centro de saúde até encontrar a sala onde o médico estava com o celular. Ele acabou devolvendo o aparelho, mas os dois foram até a delegacia. Lia registrou um boletim de ocorrência na unidade, onde passou por exame de corpo de delito. Já o médico entrou com um processo por desacato a funcionário público no exercício da função e uso indevido de imagem.

A tatuadora pretende agora acionar o Ministério Público de São Paulo, mas se diz ‘apavorada’. “Eu ainda não fui procurada pela prefeitura. Não sei o que vai acontecer. Estou apavorada. Moro sozinha. É uma cidade muito pequena. Eu tenho um estúdio de tatuagem no centro. Pedi medida protetiva e disseram que não é cabível. Então eu não estou saindo de casa”, contou.

O blog apurou que o psiquiatra chegou a ser nomeado pelo prefeito José Silvino Cintra (PSD), em junho de 2018, para a Diretoria Técnica do Departamento Municipal de Saúde, cargo que ocupou por mais de um ano. Segundo o portal da transparência do município, seu salário bruto atual é de cerca de R$ 9,3 mil. A prefeitura informou que está apurando o caso, mas não confirmou que o médico foi afastado enquanto corre o processo administrativo.

A diretora da unidade de Saúde, Maria Aparecida, informou que foi aberta uma sindicância para averiguar o episódio. Ela também disse que trabalha com o médico há 26 anos e, nesse período, ele nunca se envolveu em problemas.

“A moça não é nem paciente. Ele estava dentro do consultório sem máscara e ela começou a filmar ele sem máscara dentro do consultório, mas ele estava sozinho, não tinha ninguém. Aí no auge da discussão ele acabou saindo atrás dela”, disse a diretora. “O doutor Eduardo está com a gente há 26 anos. A gente está no auge de uma pandemia. A paciente foi afrontar ele dentro do consultório. Lógico que ele não podia nem ter feito aquilo de ir atrás e pegar o celular. Mas só foi mostrado o que aconteceu com a moça e não o que aconteceu com ele também”, completou.

Estadão também ouviu Eduardo Portieri. Segundo o médico, não houve omissão no atendimento ou agressão. Ele conta que explicou para a família que não poderia atender o menor de idade, mas orientou o grupo a fazer a ficha da mãe, para que o atendimento dela pudesse ser realizado.

“Eu trabalho há 40 anos como psiquiatra, tenho 30 anos no posto de saúde e existe um protocolo. Não tem atendimento para menores de 16 anos. Eu já tinha até acabado de atender os pacientes do posto. Aí a minha diretora pediu para atender a mãe da criança, porque segundo ela era um caso grave”, disse o médico. “Não houve agressão, não houve recusa de atendimento à paciente, que seria a mãe da criança”.

Na avaliação do psiquiatra, o grupo não ‘aceitou’ a impossibilidade de atender o menino. “Chegou para mim a pasta errada, o encaminhamento errado e paciente errado. Quando eu contestei isso, se criou esse tumulto. O atendimento era para a mãe. Eu estava esperando a mãe. Aí ela se recusou a fazer a ficha dela”, disse.

Portieri ainda disse que estava sem máscara, porque estava sozinho na sala. “Eu estava dentro da minha sala, isolado, não sou obrigado a usar máscara dentro da minha sala sozinho. Ela desvirtuou o assunto para a questão da máscara. Criou-se um tumulto, que eu não sei a troco de quê, e me colocaram nessa história”, afirmou. “Se eu estou dentro da minha sala, se eu estou em área aberta, não tem porquê [usar máscara]. A área lá é pequena”, acrescentou.

O médico também disse que tomou o celular de Lia porque ‘perdeu a cabeça’. “Ela estava falando alto, com o celular na minha cara Eu estava trabalhando, no meu local de trabalho”, contou. “Eu não tenho porquê ameaçar nada. Ela está se colocando em uma posição de vítima. Eu tenho os prints do Facebook dela com ameaças. Se alguém tem que ficar com medo, pela história que ela contou, sou eu. Eu que tenho que ficar preocupado.”

Com a palavra, a prefeitura de Piracaia

“A Prefeitura Municipal de Piracaia vem a público esclarecer que o episódio ocorrido na Unidade de Pronto Atendimento, amplamente divulgado nas redes sociais, já está em processo de apuração, visando o devido esclarecimento dos fatos. Desta forma, a partir da conclusão dos procedimentos administrativos adotados, nos manifestaremos oportunamente.”

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