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quarta-feira, 14 abril 2021

Os filhos do divórcio

Com o crescimento cada vez maior do número de casamentos desfeitos, o que fazer para manter emocionalmente saudáveis os filhos, as vítimas da separação?

Por Patrícia Scoth

Levantamento realizado pelo Colégio Notarial do Brasil – Conselho Federal, entidade que representa os cartórios de notas do País, aponta um crescimento de 15% no número de divórcios em 2020, se comparado a 2019. No total, foram 43.859 pedidos de dissolução matrimonial no ano passado, frente a 38.174 no período anterior. A pesquisa também revela que 22 estados e o Distrito Federal foram os que mais incrementaram esse número.

Observou-se que Santa Catarina foi onde teve a maior elevação do número de processos de divórcio, subiu 95%. Outros quatro estados tiveram aumento superior a 30% e bateram recorde histórico: Rondônia (54%), Acre (50%), Mato Grosso do Sul (49%) e Espírito Santo (30%).

Já as Estatísticas do Registro Civil no País, divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes a 2019, apontam que os brasileiros estão ficando unidos civilmente por menos tempo. Em 2018, a média de duração da união era de 17,6 anos. Já em 2019, essa média caiu para 13,8 anos.

No ano passado, 48,2% dos divórcios registrados tiveram menos de 10 anos de duração. Dez anos antes, em 2009, esse percentual foi de 30,4%. Em contrapartida, 9,6% dos divórcios formalizados em 2019 ocorreram entre 20 e 25 anos de união, enquanto 18,3% após 26 anos ou mais de casamento. Uma década antes estes percentuais eram, respectivamente, de 16,4% e 24,5%. Dados deixam claro que o divórcio acontece com mais frequência em dois momentos: quando os filhos são ainda crianças ou chegaram à fase adulta.

Reflexo da pandemia

O atípico ano de 2020 provocou muitas mudanças, tanto na convivência entre as pessoas, como também na prestação de serviços aos cidadãos. Os Cartórios de Notas obtiveram a autorização nacional para prestarem uma série de serviços online, possibilitando que os cidadãos resolvessem seus problemas, tanto pessoais como patrimoniais, sem sair de casa.

O lançamento da plataforma digital e-Notariado, no segundo semestre do ano passado, possibilitou a abertura do processo de divórcio. Para isso, basta que o indivíduo tenha um certificado digital, emitido gratuitamente por um cartório, além da carteira de identidade, CPF e Certidão de Casamento. Na plataforma, é possível agendar videoconferência com tabelião e dar início ao processo de divórcio. O Colégio Notarial do Brasil informa que para realizar o divórcio em cartório de notas, o casal deve estar em acordo sobre a decisão e não pode apresentar pendências judiciais com filhos menores de idade ou incapazes.

Durante a pandemia, muitos casais passaram mais tempo juntos, o que fez com que a relação fosse observada com mais atenção, sem contar a desburocratização do divórcio, o resultado foi a crescente onda de divórcio. Diante dessa gritante e triste realidade, são justamente os filhos tão ou mais afetados que os adultos. Afinal, eles sempre desejam ver os pais juntos e felizes. No entanto, nem sempre é possível.

Então, quando o divórcio é inevitável, como blindá-los desse processo doloroso? Como deve ser o comportamento do, agora, ex-casal para que os filhos sejam emocional e psicologicamente saudáveis? A reportagem da Comunhão conversou com especialistas e mães que passaram pelo processo de divórcio para responder estas e outras perguntas que permeiam o assunto.

“A quebra da aliança não faz parte do plano de Deus, mas que o amor familiar deve ser preservado mesmo em meio à separação” – Pastora Eristelia Bernardo, da Igreja Internacional da Graça de Deus, Caratinga (MG)

Na visão do advogado Daniel Teixeira, professor de Direito da Universidade Estácio de Sá (RJ), a desburocratização do divórcio impulsionou o aumento de casos no Brasil sem que fosse possível que o casal tivesse tempo de tentar a restauração seja por terapia ou aconselhamento pastoral. “A grande questão é baixa qualidade dos relacionamentos conjugais, que ficou ainda mais evidenciada com a pandemia”, analisa, acrescentando que as relações líquidas são o reflexo da desconstrução do casamento. “Os valores familiares estão banalizados, e as pessoas não investem tempo na relação a dois, que é descartável. Como consequência, temos uma sociedade desajustada”.

Quando é inevitável desfazer o casamento, segundo o advogado, uma questão importante deve ser observada: a alienação parental prevista na Lei 12.318/2010, que gera graves consequências emocionais e psicológicas. “É caracterizada quando há uma lavagem cerebral na criança ou no adolescente, ou seja, quando a mãe ou o pai imputa características falsas do outro genitor aos filhos”, explica Daniel, que emenda: “Como consequência eles desenvolvem sentimentos negativos do pai ou da mãe, que normalmente não detém a guarda do menor”. Também caracteriza alienação parental dificultar o exercício da autoridade parental, impedir o contato da criança ou do adolescente com o genitor, não permitir o direito regulamentado de convivência familiar.

Relação afetiva

Todo processo de separação é difícil, doloroso e frustrante. Mesmo em tempos modernos, a intenção, no início da relação, nunca é por fim a uma história, que, geralmente, foi iniciada com amor, respeito e cuidado. A partir do momento em que os filhos se tornam objetos para atingir o outro, é iniciada uma disputa entre o ex-casal.

“No contexto de alienação parental, o objetivo é que o genitor seja visto de forma desmoralizada pelos filhos”, garante a psicóloga Marta Macedo (RJ), que adverte: “É um ato de violência. Crime previsto em lei”. Ela enfatiza que, muitas vezes, o adulto não percebe, mas danos são causados aos filhos com esse comportamento. “Porque estão impedindo que o menor construa uma relação afetiva com o pai ou a mãe”.

Esses prejuízos emocionais e psicológicos, diz a psicóloga, quando não são percebidos e trabalhados são manifestados até a fase adulta. “Quando surgem adultos fragilizados, depressivos, com baixa autoestima e, em algumas situações, agressivos, o que interfere nas relações interpessoais”, enumera Marta. Mesmo com a dissolução do casamento, a responsabilidade pela construção e fortalecimento dos filhos continua sendo de ambos. “É preciso maturidade e respeito um com outro e, principalmente, com os seres gerados desse relacionamento”.

Outro ponto-chave que precisa ser evidenciado é quando uma terceira pessoa é agregada a uma estrutura familiar que, muitas vezes, está fragilizada. Lidar com o novo é algo que gera medo e insegurança. Então, a psicóloga Marta Macedo sugere que antes da tomada de decisão seja estabelecido um diálogo consistente e sincero com os filhos, para que seja estabelecida uma relação honesta, sólida e confiável. Diante de tantas denúncias de abusos cometidos contra menores por padrastos, as mães precisam ser vigilantes. “Não podemos generalizar, mas, como prevenção, é fundamental atentar para as mudanças bruscas de comportamento dos filhos”, enfatiza Marta, que conclui: “Demonstração de ciúme e posse pelas enteadas pode ser um sinal. Os sinais sempre surgem”.

“Porém, desde o princípio da criação, Deus os fez macho e fêmea. Por isso, deixará o homem a seu pai e sua mãe e unir-se-á a sua mulher. E serão os dois uma só carne e, assim, já não serão dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou, não o separe o homem (Marcos 10.6-9)

Dedicação aos filhos

Divorciada há dois anos, a administradora Dayene Santos de Souza Feliciano, de 31 anos, é mãe de duas crianças: Kaique, de oito, e Ana Luísa, de dois. Ela conta que chegou a brigar algumas vezes com o ex-marido na frente das crianças. “No entanto, percebi que fazia muito mal a elas.

Então, mudei meu comportamento”, frisa ela, da Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro. O contato dos pequenos com o pai acontece quinzenalmente, “Mas uma vez por semana, ele passa em casa para visitá-las. Todos os dias, se falam pelo telefone. Não impeço o contato”, salienta.

Dayene revela que, por diversas vezes, Kaique perguntou o motivo da separação. “Deixamos bem claro que foi uma decisão nossa, que ele e a irmã não tiveram nenhuma responsabilidade”, ressalta, acrescentando que é preciso muito diálogo e paciência. “É uma nova realidade, e as crianças sentem. Por elas, optamos pela boa convivência”, admite e expõe: “Não falo mal dele para os meus filhos. Nem os utilizo para obter informações. Seria nocivo para o desenvolvimento emocional deles”.

Mãe de três filhos, Levi, 36, Marcelo Henrique, 35, e Letícia, 33, a professora universitária Miriã Conceição de Freitas Araújo Sougey, de 56 anos, enfrentou o divórcio depois de quase vinte anos de casamento.

Na época, sem emprego fixo e com as crianças com idades entre 10 e 13 anos, ela revela que saiu de casa para recomeçar do zero. “Foi muito difícil. Eles ficaram um ano sem contato com o pai, mas o Senhor supriu as nossas necessidades”, testemunha Miriã, que congrega na Igreja Batista, em Campos dos Afonsos, na zona oeste do Rio de Janeiro.

Ela enfatiza que demorou a tomar a decisão do divórcio pelos filhos, principalmente pelo mais velho. “Ele me pedia para não deixar o pai, por isso, muitas vezes, passei por cima de muitas coisas. Entretanto, chegou a um ponto insustentável”, confidencia Miriã, que destaca: “Nunca falei mal do meu ex-marido, inclusive tive apoio da família dele”. Com tempo, de acordo com ela, o relacionamento entre pai e filhos foi ajustado pelo Senhor. “Priorizei o ensinamento da Palavra para os três, que ensina o perdão e a honrar pai e mãe”.

Laços amorosos

Na análise do Pr. Jander Monks, da Universidade da Família, em Pompéia (SP) – organização cristã, sem fins lucrativos, com foco na educação familiar –, o diálogo franco e transparente é fundamental para que os filhos não carreguem nenhuma culpa pelo fim do casamento dos pais.

“Muitas perguntas surgem e, com elas, a insegurança, o medo, o peso. Então, é importante o adulto conversar de maneira honesta”, assegura. O papel dos pais, diz o pastor, mesmo separados, continua sendo fundamental na construção do emocional dos filhos. “Nenhuma pessoa consegue substituir pai e mãe”, pontua. O pastor Jander aconselha muita paciência e calma aos pais, tendo em vista que muitos menores mudam o comportamento a partir da quebra da família.

“É preciso entender os motivos e, para isso, é preciso estar disposto a ouvir esses filhos com muito amor e acolhimento”. O pastor analisa que existe uma corrente na sociedade que apregoa que a família tradicional atrapalha o desenvolvimento do indivíduo. “E a partir desse pensamento as leis foram tornando mais fácil a dissolução do casamento”, avalia o pastor Jander, que enxerga os filhos do divórcio na desvantagem para a própria construção familiar. “Na maioria das vezes, eles crescem entendendo que o casamento é ruim. Não traz felicidade e realização”, frisa e complementa: “Não tiveram a chance de desfrutar dos prós e dos contra de uma relação a dois, percebendo que, mesmo diante das dificuldades, vale a pena lutar pelo casamento. Que o amor tem o poder de restauração, e o perdão é libertador”.

“Os pais devem ter atenção para o possível desenvolvimento de inquietações e transtornos em crianças e adolescentes, como a agressividade” – Rosi Siqueira, psicanalista

“A família é a base. O ideal é que não haja separação, porque gera muitos males a todos os envolvidos. A quebra da aliança não faz parte do plano de Deus”, prega a pastora Eristelia Bernardo, da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD), no Centro, em Caratinga (MG). No entanto, ela entende que o amor familiar deve ser preservado mesmo em meio à separação. “É inadmissível utilizar os filhos para atingir o outro. Os filhos devem ser blindados”, enfatiza e continua: “E os pais maduros para resolverem seus conflitos”.

É importante destacar, diz a pastora, que filhos não nascem prontos, mas são formados. “Eles são o resultado daquilo que os pais transmitem (Provérbios 22.6)”, ensina. Seguindo esse parâmetro, a pastora Eristelia assevera que os pais divorciados precisam educar os filhos na mesma sintonia, para que tenham um desenvolvimento saudável. “Os valores ensinados devem ser os mesmos. Pai e mãe precisam falar a mesma linguagem com os filhos”, cita. Caso contrário, de acordo com ela, dificultará a construção do caráter dos filhos. “Os prejuízos ficarão evidenciados. Os menores devem ser sempre prioridade”.

Luto e futuro

Já a psicanalista Rosi Siqueira salienta que haja transtornos brandos e com mínimas consequências na vida de crianças e adolescentes, os pais precisam compreender que o divórcio não é acumulativo aos filhos. “Ou seja, não existe divórcio de filhos”, observa. Ela explica que os adultos não podem fingir que nada está acontecendo. “Logo, todos precisam vivenciar o luto da separação, para que o emocional e o psicológico comecem a ser ajustados”, frisa. Rosi ressalta que toda perda traz dor e amargura, e os filhos podem sofrer inquietações e desenvolver transtornos. “Crianças e adolescentes, por exemplo, perdem o estímulo para os estudos. Outros se tornam agressivos, mentirosos ou buscam prazer em fugas que os façam esquecer o momento doloroso”, exemplifica e pondera: “Daí ser essencial o acolhimento e a constante reafirmação do amor dos pais para com os filhos com palavras e gestos”.

Por outro lado, a psicanalista chama a atenção para o tipo de discurso que pais e mães têm com os filhos pós-divórcio. Rosi assevera que algumas meninas pela sensibilidade e identificação com o sofrimento da mãe poderão desenvolver aversão ao sexo oposto, principalmente se ouvir frases, como, por exemplo: “Nenhum homem presta”. Por outro lado, “alguns meninos podem se tornar frios se entender que a mãe foi a culpada pela separação”. Rosi afirma ainda que comentários do tipo “você é igual ao seu pai” ou “você é idêntica a sua mãe” não devem ser feitos. “Ninguém gosta de ser comparado”, avalia e comenta: “É primordial enfatizar aos filhos que o futuro pode ser promissor, se houver união familiar, independente do divórcio”.


Dicas de leitura

Ajudando os filhos a sobreviverem ao divórcio
Archibald D. Hart – Mundo Cristão

O psicólogo Archibald D. Hart ensina o que deve ser feito para ajudar os filhos a enfrentarem as dificuldades decorrentes do divórcio dos pais. Ele fala com sabedoria, lucidez e discernimento bíblico sobre questões a serem resolvidas quando os pais se separam. É possível que pais divorciados, com a orientação adequada, auxiliem os filhos a se tornarem mais ajustados e bem-sucedidos, mas isso exigirá bastante esforço.

 

 

 

Filhos do divórcio
Judith Wallerstein, Julia Lewis, Sandra Blakeslee – Edições Loyola

Leitura imprescindível para todos os filhos adultos oriundos de faamílias divorciadas, como também para professores, juízes, advogados e profissionais de saúde mental. Questionando algumas das crenças mais acalentadas sobre o assunto, este livro há de alterar para sempre o modo como as pessoas pensam sobre o divórcio e seu impacto de longo prazo sobre a sociedade.

 

 

 

Lá e aqui
Odilon Moraes – Pequena Zahar

Uma pequena obra-prima que transborda de emoção, destinada a leitores de todas as idades. A escritora aborda com rara delicadeza um assunto difícil: a separação dos pais. Imagem e texto se unem para contar a separação, aos olhos de uma criança, que pode ser vivida de maneira positiva, sem menosprezar o sofrimento.

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