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quarta-feira, 27 janeiro 2021

Política: o desafio do vereador cristão

Em descrédito com a população, será que é possível um vereador evangélico fazer a diferença?

Por Priscilla Cerqueira 

“Esses políticos… Só lembram-se de nós em época de eleição, para conquistar nosso voto”. “Ganham salários absurdos e não fazem nada pelo povo!”. “Só pensam neles mesmos”. Se tem uma classe que anda desprestigiada no Brasil é o político. Não é de hoje que o brasileiro demonstra insatisfação e isso vem sendo constatado nas urnas.

As eleições municipais de 2020 tiveram um recorde de abstenção. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mais de 34,2 milhões de brasileiros deixaram de votar – o que corresponde a 23,14% do eleitorado.

As estatísticas comprovam a insatisfação. De acordo com o estudo da Growth for Knowledge (GFK), realizado em 2016, 94% da população brasileira não confia em políticos; 95% afirmam que os atuais não são transparentes e 89% acreditam que eles não se preparam para desempenhar bem o seu mandato.

Fonte: Growth for Knowledge (empresa de estudos de mercado)

A função desses profissionais é representar a população, propor projetos que promovam o bem comum. Mas os brasileiros não se sentem representados por políticos em exercício, acham que eles pensam mais nos seus interesses do que nas necessidades da população, que estão mais preocupados em se manter no poder do que governar.

Entrar para uma carreira política onde ele é visto pela sociedade como corrupto e um potencial infrator, é um desafio.

Atuante na política há 15 anos, Davi Esmael (PSD), que fará seu terceiro mandado como vereador em Vitória (ES), afirma que a política é essencial para a sociedade, mas “infelizmente o poder corrompe quem não tem valores sólidos e usa a política para seus interesses”. É possível converter gestão pública em benefício para o cidadão. O caminho é trabalhar pensando no próximo.

“A resposta às críticas precisa ser com resultados do trabalho desenvolvido. Tenho metas para cada bandeira do meu mandato e insisto diariamente para cumpri-las”, argumenta.

Polarização da política

Nunca se falou tanto em esquerda, direita no Brasil. E numa época de polarização política, onde a extrema esquerda defende o aborto, o casamento homossexual, que são questões que contrariam os valores bíblicos religiosos dos evangélicos, como ser um vereador cristão neste tempo?

Eleita vereadora para o segundo mandato, em Vila Velha (ES), Patrícia Crizanto (PSB) diz que ao se candidatar na disputa de uma cadeira como vereador é preciso saber que vai enfrentar um ambiente hostil. “Mas a vida pública é uma oportunidade de fazer a diferença. Somos sal e luz. Nossas escolhas são baseadas na verdade, na justiça, buscando o bem ao nosso próximo. Estamos prontos para defender a família”, afirma.

Para Rute Costa (PSDB), eleita com 43 mil votos para o segundo mandato na Câmara de São Paulo, “numa democracia, todos tem o direito de expor seu ponto de vista, mas é preciso ser cristão acima de tudo, seguindo os princípios morais ensinados pela Bíblia”.
Mesmo o ambiente sendo pesado e desafiador, o político cristão precisa deixar sua luz brilhar, “buscando excelência e mantendo os princípios bíblicos para ser respeitado e reconhecido em qualquer circunstância. Minha escolha é ser cristão em qualquer ambiente”, diz Davi Esmael.

A polarização vem acompanhada do ‘desprestígio’ que o político tem na sociedade. Quando entrou para a política, em 2016, Rute já sabia que enfrentaria isso na carreira, mas “nem tudo está perdido. Garanto que há políticos honestos e corretos por aí. Sempre vivi sem ter nada que me desabonasse, mas por conta de uns políticos ruins, todos são colocados no mesmo balaio’”, argumenta.

Testemunho implacável

O vereador cristão deve ocupar sua posição dando bom testemunho, influenciando pessoas e decisões, de acordo com os valores do Reino. Para um crente que atua na política hoje parece estar em um campo de batalha. Muitos enfrentam guerras, insultos, intolerância e até mesmo preconceito só por defenderem os princípios cristãos. Será então, que é possível fazer a diferença mesmo assim?

O pastor Fernando Borja, vereador em Belo Horizonte (MG), sabe muito bem o que é lidar com as diferenças e ter coragem para defender a Bíblia. Já enfrentou insultos, ofensas, intolerância, preconceito. Em 2017 saiu em defesa da família e conseguiu derrubar um projeto de promoção da ideologia de gênero.

“Da para fazer a diferença, desde que tenha coragem e não tenha medo de confrontar. Infelizmente muitos negociam apoio com o executivo para poder ter algum tipo de benefício para ele e para a sua comunidade. Um verdadeiro cristão tem que entender que não estamos ali para agradar homens, mas para fazer a vontade de Deus”, explicou.
Fernando não disputou a eleição desse ano.

Mas a esposa, Flávia Borja, vai assumir uma cadeira na câmara da capital mineira pela primeira vez, em 2021. A vereadora está cheia de expectativas e vontade de fazer a diferença na educação, onde atua há 27 anos. “Existe uma intenção de interferência na formação moral das crianças, o que é direito dos pais. Mas tenho a oportunidade de influenciar a vida das pessoas, sendo um instrumento de proteção da próxima geração”, disse.

Flávia, que é da Igreja Batista Lagoinha, acredita que o envolvimento do cristão na política se faz importante, urgente e necessário, principalmente a atuação das mulheres. “As mulheres cristãs precisam ocupar essa posição ou seremos engolidas pelo feminismo atual, que é totalmente contrário à família, que quer destruir o papel do homem e a construção moral de nossas crianças”, defende.

Mas para fazer a diferença tem que praticar os princípios cristãos, manter a essência, sendo um verdadeiro crente. “O cristão precisa ser cristão onde e com quem estiver. Antes de ser política, sou cristã e minha essência não pode se perder no ambiente a qual estou inserida, pelo contrário, é a essência cristã que deve transformar o ambiente. O segredo é vigiar e orar”, complementa Rute, que foi a quarta vereadora que mais protocolou projetos de leis no legislativo paulista durante seu primeiro mandato, que terminou em dezembro de 2020.

Em seus discursos como vereadora, Patrícia agradece a Deus, “para que todos se lembrem que sem Ele nada podemos fazer. Manifestamos nossa fé quando vidas são ajudadas, realidades transformadas e o povo tem paz para viver”.

Início de uma batalha

A partir de janeiro de 2021, iniciantes e veteranos irão iniciar uma dura batalha. Ygor Elson entende bem do funcionamento da administração pública, mesmo nunca tendo legislado na câmara. Conhece os 129 bairros da Serra (ES), onde foi eleito vereador pelo Podemos, também sabe dos problemas da cidade.

Experiente em atuar em diversas áreas da administração pública, ele acredita em grandes avanços e que pode contribuir para isso no legislativo municipal. “Sei que é um desafio, mas mostro para a cidade a nossa diferença como cristão, gestor e também pela experiência em administrar a cidade”, defende Ygor.

Mesmo sendo um caminho árduo e difícil pela frente, o que faz muitos crentes escolherem entrar para a política é a possibilidade de fazer algo pelo povo. Ygor também acredita no testemunho, na prática de valores, nos preceitos bíblicos de origem e pretende trabalhar para atuar na melhoria da vida das pessoas.

“Escolhi entrar para a política para conhecer mais a cidade e suas necessidades para melhorar e lutar pela vida das pessoas”, afirma Ygor Elson, vereador eleito para o primeiro mandato na Serra (ES).

Essa também é a bandeira de outro estreante na Câmara de vereadores. Atuando na luta pela comunidade autista e pessoas com deficiência há 10 anos em Anápolis (GO), Reamilton Espíndola (republicanos), que também é pastor, resolveu entrar para a política para ajudar ainda mais essa classe tão desfavorecida.

Em janeiro ele inicia sua jornada na Câmara de olho no alvo, que é Cristo. “Buscarei a aplicabilidade das leis em defesa da pessoa com deficiência, respeitando sempre minha profissão de fé”, prometeu.


Vereadores eleitos (2021-2024)

Em todo o Brasil, foram eleitos mais de 56 mil vereadores, e muitos deles são evangélicos. Confira alguns desses eleitos no país.

 

Davi Esmael | PSD/ Vitória (ES)
Pai de três filhos. Advogado e corretor de imóveis; trabalha na política há cerca de 20 anos; iniciando seu terceiro mandato como vereador na capital.
3.408 votos

Flávia Borja | Avante/ Belo Horizonte (MG)
Casada, mãe de três filhos. Professora, fonoaudióloga, trabalha na educação há 27 anos. Vereadora eleita para o primeiro mandato.
5.887 votos

Patrícia Crizanto PSB / Vila Velha (ES)
Casada, mãe de dois filhos. Reeleita vereadora pelo segundo mandato, ensino médio completo, atuante na política há mais de 15 anos.
2.935 votos

Ruth Costa / PSDB/ São Paulo (SP)
Casada, mãe de três filhos. Psicóloga, com especialização em psicopedagogia; iniciando seu segundo mandato na Câmara municipal.
43 mil votos

Ygor Elson / Podemos/ Serra (ES)
Casado, pai de duas filhas, graduando em Direito,
5 anos como assessor do Prefeito Audifax Barcelos; secretário municipal em três pastas.
2.151 votos

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