Se o nosso corpo é composto de átomos organizados em porções anatômicas, o luto não é pontual e regular, é irregular e processual
Por Clovis Rosa Nery
Se houvessem palavras que pudessem descrever literalmente o luto eu as usaria, mas
não há. Eu penso que não! Em tese, somente saberia explicar claramente o que ele é
quem o vivenciou; porém, a dor emocional é tão profunda que a pessoa não teria
condições de fazê-lo com isenção.
Carregaremos para o resto da vida as cicatrizes do luto. A morte de alguém que amamos
arranca um pedaço de nós. Embora a dor seja distinta, a amputação é universal. Mesmo
depois de a ferida fechar o vazio melancólico não cessa. São marcas profundas,
fotogramas de um passado que vai além de seu horizonte.
Nessa situação sombria, para as indagações não há respostas. Palavras intensificam o
sofrimento. Relativamente confortador é o som do silêncio. É indispensável, mas é
difícil, resignar-se ao “Senhor, seja feita a Tua vontade” quando a angústia é maior que
o coração.
Experimentando o luto jamais seremos os mesmos. Esse “vulcão” gera um suspense no
ser, dilacera a alma, tornando a mente turbulenta. Andando nas nuvens, as lágrimas
contidas se avolumam, e os dias ficam cinzentos. Navegando em seus mistérios,
desejamos proximidades, mas a silenciosa.
Há perigos no ato de viver. Especificamente no luto há uma dor paralisante, uma agonia
almática que não passa, mas se modifica com o tempo. O Mestre já havia dito: “No
mundo tereis aflições”. E ter “bom ânimo”, como Ele recomendou, não é tão fácil. É
preciso resiliência, é preciso fé, e muita.
Meu pai se foi há 20 anos. Essa sensibilidade continua viva e ativa aqui dentro do peito.
A circunstancial lacuna abismática não passou. Não vai passar! Mas modificou-se a
ponto de tornar-se suportável, não obstante um pedaço de mim não tenha resistido e, por
isso, também se foi.
O luto induz-nos a uma reflexão sobre a nossa transitoriedade existencial, a ponto de ser
praticamente impossível dissociá-la da morte, pois ambas interagem. Assertivamente
diz Deepak Chopra: “O contrário da morte não é a vida. É o nascimento. A vida é o
continuum”.
De forma bastante realista, Osmann de Oliveira diz que precisamos passar por um
hospital, uma prisão e um cemitério. Segundo ele, no hospital aprendemos valorizar
a saúde; na prisão, a liberdade; e, no cemitério “entendemos que um dia o nosso
chão será o nosso teto”.
Assim, na monotonia progressiva de um expresso de vagões quentes e escuros, sem
janelas e portas um ano é como um século. Mas, curiosamente, a viagem é fugaz, com
datas e horários diferentes. Todos os passageiros deixam tudo para trás, e descem na
mesma estação: morte.
Contudo, penso que há um ponto delicado no luto. Refiro-me não ao luto de quem fica.
Além do consolo religioso, não sabemos muita coisa sobre ele. Faltam-nos traços claros
de evidências. Se duas pessoas se amam nesta vida, como apenas uma sofrerá com a
separação? Quem parte terá uma amnésia?
Ser um pouco bereiano não é desaconselhável. O “sábio” vai me dizer: “Ela está com
Deus!”. Eu replicarei indagando: “Mas ela já não estava com Deus?”. “O Deus do outro
lado é diferente do nosso?”. Paremos por aqui, porque, segundo Aristóteles, até mesmo
a filosofia tem seus limites.
Eu queria entender. Não vou conseguir. Não é bom aprofundar em conjecturas. Elas
estimulam o definhamento da fé, especialmente quando os dias são maus. Por tudo isso,
é bom seguir o conselho do Mestre: receber o Reino de Deus como uma criança.
Façamos isso!
Clovis Rosa Nery, Psicólogo, pesquisador e escritor.


