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sexta-feira, 5 DE dezembro DE 2025

Evangélicos e os dois pesos e duas medidas em relação a Israel

Por Magno Paganelli

É interessante notar como os evangélicos no Brasil se valem de dois pesos e duas medidas em política, especialmente em política externa e, mais especificamente quando o “externa” equivale a “Israel”.

É sabido e notório que evangélicos brasileiros são conservadores. Seguem a cartilha norte-americana nos costumes, na maneira de pensar, em algumas tradições eclesiásticas e no modo de interpretar as Escrituras (a hermenêutica e o fazer teológico). Isso acontece porque parte das nossas denominações foi fundada por missionários de lá. Próximo da virada para o nosso século, diversas editoras (eu diria a maioria, seguramente), só se deu ao trabalho de traduzir e publicar obras de autores evangélicos consagrados no Norte. Nada foi produzido a partir daqui, por puro comodismo dos editores, que não se deram o trabalho de parir pensamento autóctone e amamentar escritores até que amadurecessem. Era mais fácil traduzir o que já vinha pronto.

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Na política dos Estados Unidos há um forte, profissionalizado e endinheirado lobby judaico, e essa prática é legitimamente reconhecida; no Brasil ela acontece, mas não é reconhecida oficialmente. Por lá, grupos como Stand With Us, Canary Mission, Coalização Israel no Campus, AIPAC e afins ( como comentei aqui ), patrocinam parlamentares (como o presidente Joe Biden, Bob Menedez, Hillary Clinton, Mark Kirk, Joe Lieberman, Mitch McConnell, Chuck Schumer, John McCain e Ted Cruz), os influenciam e pautam as políticas interna e a externa para que sejam favoráveis ao Governo israelense e legislem em favor de uma agenda positiva para o país do Oriente Médio, independentemente de qual espectro estiver legislando, mais à direita ou à esquerda.

Os interesses geoestratégico, militar e econômico norte-americano em Israel é justificável. Os Estados Unidos têm o que fazer e precisam estar presente na região, dado o seu papel como ator global. O mesmo é disputado e tentado por Rússia e China, pelas mesmas razões na mesma região. E evangélicos brasileiros seguem essa esteira de interesses que, a propósito, nada têm a ver com o perfil e a natureza de sua missão orgânica ou institucional.

Israel, além de ser um parceiro ideal para os Estados Unidos, também encontra no parceiro ocidental recursos econômicos para investimentos em sua indústria bélica e na alta tecnologia, além de um defensor internacionalmente forte das suas demandas e narrativas em âmbito internacional. Só para lembrar, o poder de veto dos Estados Unidos tem sido fundamental para livrar Israel de sanções que poderiam ser impostas pela ONU.

Note que até aqui navegamos em águas nada espirituais em que a Igreja deveria atentar-se. Eu posso admitir que tudo no mundo tem um fundo espiritual, mas será que os setores pentecostal, neopentecostal e alguns segmentos das igrejas tradicionais (batistas, presbiterianos, metodistas e mais alguns) olham por essa perspectiva a relação entre o que defendem na política brasileira e o que apoiam na política de Israel? A considerar a parafernália ritualística de menorás/candelabros, arcas da aliança, talits e bandeiras de Israel em ambientes ditos evangélicos, não. A materialidade do crime é patente.

O moderno Estado de Israel é um país fundado em 1948 por grupos vindos especialmente do Leste Europeu. Lá vigoravam ideologias, partidos e movimentos de cunho socialista, ideologias, partidos e movimentos que hoje são “repelidos” pelo mainstream evangélico brasileiro – pelo menos de acordo com a conjuntura e os seus interesses. A Igreja evangélica só apoia a esquerda quando leva vantagens, tanto que houve “acusações de ‘ingratidão’ lançadas a pentecostais que se beneficiaram economicamente durante os governos petistas e votaram contra o PT” na campanha de 2018, “o que apenas ilustra a fragilidade dos elos constituídos”, como advertiu Paul Freston no artigo “Bolsonaro, o populismo, os evangélicos e América Latina”.

Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, mantém na corda bamba de um governo à direita, com apoio de extremistas de direita, entre os quais a ala mais forte são os religiosos radicais ultraortodoxos, aqueles mesmos que odeiam Jesus e os cristãos e que dizem que Jesus foi fruto do estupro de Maria por um soldado romano – quando não dizem coisas piores. E esse pacote que a Igreja brasileira apoia, mesmo sem conhecer. Esses são os escolhidos, segundo a cartilha política norte-americana enfiada goela abaixo nos evangélicos tupiniquins.

Netanyahu está com a justiça no seu encalço e só se mantém no cargo por causa do genocídio que lidera contra palestinos em Gaza e aos ataques ilegais na Cisjordânia, contando com o apoio e atos igualmente terroristas dos colonos. Entre a população de seu país, o premiê vem perdendo apoio aos montes. Até mesmo interlocutores aliados, como os Estados Unidos, não concordam com as medidas que vem tomando.

Evangélicos brasileiros que apoiam esse Israel sionista (que nada têm a ver com os remanescentes descritos no Novo Testamento) se enquadram no que Jesus disse que aconteceria em Mateus 13: aquilo que precisam enxergar, ignoram completamente. Desconhecem as raízes político-ideológicas do Estado de Israel, nada sabem sobre as ações terroristas que grupos judeus armados cometeram entre 1920 e 1948 (Irgun, Gang Stern, Muleiros de Sião) e endossam por lá algumas práticas que rejeitam na política daqui. E tudo isso adocicado pela esperança de uma escatologia caolha, que olha as questões por um viés triunfalista, que não é unanime na própria tradição teológica que professam, e que sobrevive alienada da realidade vivida na região.

Magno Paganelli é pós-Doutor e Doutor pela USP, Mestre em Ciências da Religião
(Mackenzie), professor e escritor. Pesquisa o conflito Israel-Palestina e o Hamas há onze anos. É autor do livro Hamas x Israel, publicado pela Editora Hábito. Instagram e Youtube @magnopaganelli

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