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segunda-feira, 21 junho 2021

Ética: valores culturais sobrepondo os princípios de Deus

Com toda essa modernidade, muitas questões relacionadas ao cristianismo vêm sendo reavaliadas. Mas a ética cristã pode ser mudada ou “atualizada”? Os valores culturais e pós-modernos podem prevalecer? E o que diz a Palavra? Eis a questão.

Por Sânnie Rocha

Quando se fala na palavra ética, imediatamente as pessoas pensam ser este um dos valores morais que todo ser humano deve carregar independentemente da religião que segue. Mas no Brasil há uma tentativa de fraude a cada 15,8 segundos, de acordo com dados do Indicador Serasa Experian. E quando a referência é um indivíduo cristão, a exigência desses valores éticos e morais é obrigatória. Isso porque em diversos trechos da Palavra estão expressos mandamentos que estabelecem esse preceito de forma objetiva.

A Bíblia afirma que o homem é a imagem e a semelhança de Deus, e ele precisa ter o seu caráter ético como santo (Lv11:45 e Sl 99:9), justo (Sl 11:7 e 145:17), verdadeiro (Sl 119:160 e Is 45:19), misericordioso (Sl 103:8 e Is 55:7), fiel (Dt 7:9 e Sl 33:4), avalia o professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pastor da Presbiteriana de São Paulo, Alderi Souza de Matos.

Paulo ensina aos romanos em suas cartas que a Igreja é o Corpo de Cristo, que Ele é a redenção. Como cada parte desse Corpo, estão seus membros, e para eles diz: “A ninguém torneis mal por mal; procurai as coisas honestas, perante todos os homens”.

Mas o que vem acontecendo não é bem aquilo que está apresentado nas Escrituras. Não é difícil encontrar estampadas no jornal notícias com identificação do evangélico e da igreja onde congrega em situações de furto, relacionadas a venda de produtos pirata, estelionato, entre outros crimes, além das casos de corrupção, infidelidade e violência no lar contra a esposa e filhos.

Ainda temos aquelas “pequenas” ações do nosso dia a dia em que muitos cristãos usam o “nada a ver” e podem estar ferindo a ética explicitada por Deus na Bíblia. Matos destaca isso como uma questão cultural, a partir de valores que estão arraigados, mas que precisam ser mudados para que prevaleça a relação com “verdade, honestidade, justiça, que não são coisas opcionais, não se admitem exceções”.

“Precisamos ser coerentes com o Evangelho que pregamos e repudiar as tentações que nos deixam fazer concessões. Infelizmente o que temos é uma influência muito grande da nossa cultura do jeitinho em detrimento dos valores éticos expressos na Palavra. Quando culturalmente fomos criados para não aceitar situações assim, fica mais fácil cumprir a Palavra”, ressalta.

Como os valores culturais de casa, da família e de uma série de situações que vivemos no decorrer da vida, a Igreja passa a ser a orientadora das mudanças do caráter, desenvolvendo a orientação através da ética cristã mostrada em diversos pontos da Bíblia.

Imitadores de Cristo

A Palavra professa que os cristãos, como o próprio nome diz, devem ser imitadores de Cristo. Por essa razão, o pastor Alderi acredita que a figura do líder precisa ser imaculada para que ele seja o orientador da sua igreja e para que os membros possam se espelhar eticamente.

“Se os próprios líderes e pastores se utilizam de certas práticas, as ocorrências de desvios éticos entre os membros se tornam normais”, salienta. Ele relembra também fatos históricos, como desvio de receitas das igrejas. São escândalos que não sujam apenas a reputação dos que praticaram, ou de toda a sua igreja, mas também são a demonstração mais clara de um desvio de conduta ética que mancha o Evangelho e faz com que aqueles que não o conhecem tenham uma visão totalmente deturpada da razão para segui-lo.

“Uma igreja sem uma comissão de movimentação financeira está propensa a ter problemas. Quando se tem uma equipe que cuida desse movimento e apresenta os relatórios para toda a igreja, minimiza-se a ocorrência de desvios éticos”, explica. Para o pastor da Presbiteriana de Vitória, Hernandes Dias Lopes, a ética é a prática do que cremos.

“Se cremos em verdades absolutas, teremos uma ética firme e absoluta. Se somos governados pelo relativismo, teremos uma ética flácida e situacional. A ética cristã é pautada pela verdade revelada nas Escrituras. É quando um cristão age de acordo com os ensinos da Palavra de Deus e não conforme os ditames de uma sociedade secularizada. O cristão precisa ser ético porque não o ser é uma negação do cristianismo que professa”, descreve.

Ele acrescenta que a Igreja Evangélica brasileira, por causa de sua teologia deficiente, tem uma ética deficiente. “A teologia é mãe da ética. Assim como um homem crê, assim ele é. É só lermos Salmos 15; Pv 24.24; Mt 6.24; Lc 3.10-14; At 8.18-24; Ef 4.25-29 que vamos ter conhecimento do que a Bíblia diz sobre esse assunto”, indica.

Redução da rigidez

Autor do livro “O que é a Ética”, publicado pela MK Editora, o pastor Márcio Duran acredita que a ética cristã em nossos dias permite o debate de ideias. O que antes era absolutamente proibido de se fazer, hoje é aceito e até recomendado.

“O cristão continua com o sentido pragmático de seus padrões morais, mas já não tão rígido como antes. Já aceita analisar alguns pontos na atualidade e, com isso, cede espaço para mudanças. É bem verdade que há ainda muitos pontos considerados intocados, mas quem pode afirmar que não o serão em alguns anos? Neste período de pós-modernidade, época de múltiplas informações e questionamentos, conseguirá o cristão manter intocados seus pontos mais centrais?”, questiona. Ele acredita que a resposta aos questionamentos pode ser positiva.

“O que nos surpreende é verificar outros pontos que foram tão fortes no início do cristianismo e ainda por muitos séculos, terem se tornado pontos irrelevantes em termos éticos. A caridade é um deles. É um aspecto dos mais intrigantes. A sociedade mudou, todos sabemos, mas o cristianismo também.

A sociedade é mais individualista do que nunca, não se questiona, mas como pode o cristianismo ter se tornado tão egoísta, individualista e imediatista? Portanto, queremos entender a ética cristã nos dias atuais, como ela nunca deveria ter deixada de ser entendida e vivida: a partir do amor ao próximo, da solidariedade, compaixão e do respeito à vida humana”, explica.

Outra característica que tem se tornado cada vez mais comum no meio da Igreja é o questionamento da necessidade e a ausência da disciplina eclesiástica.

“Os discípulos cristãos não podem concordar com isso. Temos que ponderar nosso posicionamento em nossas decisões éticas; devemos procurar, com sensibilidade, aplicar princípios bíblicos em cada situação. O senhorio de Jesus Cristo é fundamental para o comportamento. Jesus é Senhor e continua sendo a base da nossa vida”, afirmou o pastor ArleudoKunsch, da Igreja Batista em Cascata, Serra.

A ÉTICA DO ANTIGO TESTAMENTO

• O caráter ético de Deus
A religião dos judeus tem sido descrita como “monoteísmo ético”. O Velho Testamento fala da existência de um único Deus, o Criador e Senhor de todas as coisas. Esse Deus é pessoal e tem um caráter positivo, não negativo ou neutro. Esse caráter se revela em seus atributos morais. Deus é santo (Lv11:45 e Sl 99:9), justo (Sl 11:7 e 145:17), verdadeiro (Sl 119:160 e Is 45:19), misericordioso (Sl 103:8 e Is 55:7), fiel (Dt 7:9 e Sl 33:4).

• A natureza moral do homem
A Escritura afirma que Deus criou o ser humano à Sua semelhança (Gn1:26-27). Isso significa que o homem partilha, ainda que de modo limitado, do caráter moral de seu Criador. Embora o pecado haja distorcido essa imagem divina no ser humano não a destruiu totalmente. Deus requer uma conduta ética das Suas criaturas: “Sede santos porque eu sou santo” (Lv 19, 2; 20, 26).

• A Lei de Deus
A lei expressa o desejo que Deus tem de que as suas criaturas vivam vidas de integridade. Há três tipos de leis no Antigo Testamento: cerimoniais, civis e morais. Todas visavam a disciplinar o relacionamento das pessoas com Deus e com o seu próximo. A lei inculca valores como a solidariedade, o altruísmo, a humildade, a veracidade, sempre visando ao bem-estar do indivíduo, da família e da coletividade.

• Os Dez Mandamentos
A grande síntese da moralidade bíblica está expressa nos Dez Mandamentos (Ex 20, 1-17; Dt5, 6-21). As chamadas “duas tábuas da lei” mostram os deveres das pessoas para com Deus e para com o seu próximo. O reformador João Calvino falava nos três usos da Lei: judicial, civil e santificador. Todas as confissões de fé reformadas dão grande destaque à exposição dos Dez Mandamentos.

• A contribuição dos profetas
Alguns dos preceitos éticos mais nobres do Antigo Testamento são encontrados nos livros dos profetas, especialmente Isaías, Oséias, Amós e Miquéias. Sua ênfase está não só na ética individual, mas social. Eles mostram a incoerência de cultuar a Deus e oferecer-lhe sacrifícios, sem todavia ter um relacionamento de integridade com o semelhante. Ver Isaías 1, 10-17; 5, 7 e 20; 10 1-2; 33, 15; Oséias 4, 1-2; 6, 6; 10, 12; Amós 5, 12-15, 21-24; Miquéias 6, 6-8.

A ÉTICA DO NOVO TESTAMENTO

Novo Testamento completa o Velho
A ética do Novo Testamento não contrasta com a do Antigo, mas nele se fundamenta. Jesus e os Apóstolos desenvolvem e aprofundam princípios e temas que já estavam presentes nas Escrituras Hebraicas, dando também algumas ênfases novas.

Ética de Jesus
A ética de Jesus está contida nos seus ensinos e é ilustrada pela sua vida. O tema central da mensagem de Jesus é o conceito do “reino de Deus”. Esse reino expressa uma nova realidade em que a vontade de Deus é reconhecida e aceita em todas as áreas. Jesus não apenas ensinou os valores do reino, mas os exemplificou com a vida e o seu exemplo.

O Sermão da Montanha
Uma das melhores sínteses da ética de Jesus está contida no Sermão da Montanha (Mateus Caps. 5 a 7). Os seus discípulos (os Filhos do Reino) devem caracterizar-se pela humildade, mansidão, misericórdia, integridade, busca da justiça e da paz, pelo perdão, pela veracidade, pela generosidade e acima de tudo pelo amor. A moralidade deve ser tanto externa como interna (sentimentos, intenções): Mt 5, 28. A fonte do mal está no coração: Mc 7, 21-23.

A vontade de Deus
Jesus acentua que a vontade ou o propósito de Deus é o valor supremo. Vemos isso, por exemplo, em Mt 19, 3-6. O maior pecado do ser humano é o amor próprio, o egocentrismo (Lc 12, 13-21; 17, 33). Daí a ênfase nos dois grandes mandamentos que sintetizam toda a lei: Mt 22, 37-40. Outro princípio importante é a famosa “regra de ouro”: Mt 7, 12.

A ética de Paulo
Paulo baseia toda a sua ética na realidade da redenção em Cristo. Sua expressão característica é estar e viver em Cristo. Unido a Ele pela fé, o cristão pode viver uma nova vida (II Co 5, 17; Gl 2, 20; 3, 28; Fp 4, 1). Em suas cartas, ele apresenta uma série de implicações da redenção para a vida diária do crente em todos os aspectos (Rm 12, 1-2; Ef4, 1), os motivos que devem impulsionar as pessoas em sua conduta são a imitação de Cristo (Rm 15, 5; Gl 2, 20; Ef 5, 1-2; Fp 2, 5) e o amor (Rm 12, 9-10; I Co 13, 1-13; 16, 14; Gl 5, 6).

O viver ético é sempre o fruto do Espírito (Gl5, 22-23) e a ênfase ao bem-estar da comunidade, o corpo de Cristo (Rm 12, 5; I Co 10, 17; 12, 13 e 27; Ef 4, 25; Gl 3, 28), ao mesmo tempo valorizando o irmão por quem Ele morreu (Rm 14, 15; I Co 8, 11; I Ts 4, 6; Fm 16).

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão, da edição nº 206, de Outubro de 2014. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

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