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sexta-feira, 18 junho 2021

Os estragos do abuso sexual; Eduque para a vida

O abuso sexual infantil explora e degrada a vítima e pode causar sérios danos ao desenvolvimento cognitivo, social e emocional de uma criança

Por Elen Almeidah

O caso da menina de 10 anos que foi abusada pelo tio trouxe um despertar para a necessidade urgente da prevenção e cuidado com a criança. Afinal, o abuso sexual infantil explora e degrada a vítima e pode causar sérios danos ao desenvolvimento cognitivo, social e emocional de uma criança.

A sociedade tem assumido a responsabilidade coletiva de prevenir o abuso sexual infantil. Mas o assunto ainda é um tabu, especialmente, nas rodas religiosas, e torna-se acalorado apenas quando casos de grande violência ganha os noticiários e redes sociais.

A missionária Brena Riker, graduada em Letras pela UFPA (Universidade Federal do Pará) e graduanda em Psicologia pela UNIBH, lida diretamente com a temática da sexualidade humana há 15 anos. Ela está na produção do livro Educar para a vida que também será Ebook. Como educadora, com foco em família e sexualidade, é conhecida por palestrar sobre o tema, especialmente, voltado à proteção de crianças e adolescentes.

As falas abordam formas de melhorar o desenvolvimento, saúde e segurança das crianças e como devemos defender políticas e programas que ajudem a atender às necessidades básicas dos infantes e das famílias.

Na visão da educadora

Líder do Ministério Ser (Sexualidade e Restauração), sediado em Belo Horizonte/MG, um importante instrumento de ensino e capacitação da Igreja no que se refere ao enfrentamento e desafios relacionados à sexualidade, é necessário promover a pesquisa, o treinamento e a educação para fortalecer os fatores de proteção e garantir por consequência o combate ao abuso sexual.

“Se atentarmos para o significado da palavra educar no dicionário seremos surpreendidos. Existem muitos verbos infinitivos. Educar aparece como sinônimo de urbanizar, arrotear (ou seja, dar uma rota), educar no sentido de iluminar, trazer luz. E depois, no dicionário, ele deixa de ser infinitivo e passa a trazer essa ideia de impessoalidade: iluminar-se, ajustar-se, desembrutecer-se-, reconstruir-se. Por isso, no meu ministério trago essa marca – Educar para a vida –, porque vai além de educar para as letras, do ABC, da educação formal”, pontua Brena.

Segundo ela, trata-se do educar para vida, para os relacionamentos, para a beleza de si e do outro, para o respeito, para a cidadania e à moralidade.

“Educar enquanto se vive. E quando falamos de sexualidade, nós podemos agarrar a oportunidade de enganchar essa educação para a vida, porque o conceito de sexualidade – como energia em busca do bem-estar, onde e como as pessoas se expressam desde o nascimento do indivíduo até sua morte –, isto é, sexualidade enquanto forma de expressão por meio de trocas relacionais, carinho, afeto, abraço, gostos e preferências e não somente por meio do sexo, ou mesmo o próprio entendimento dessa educação para a sexualidade, fortalece os princípios de uma educação para vida”, explica ela.

Brena revela que há uma fragilidade no processo de educar para a vida e ela estaria evidenciada no entendimento de quem são as crianças, por que elas estão aqui e qual o papel dessa infância na formação da identidade dessa criança enquanto adulto ou futuro adulto.

Brena
Foto: Arquivo pessoal

A fragilidade no processo de educar

Brena Riker, que é esposa do pastor David Riker e mãe de duas crianças, tem seu ministério embasado na educação das famílias cristãs. Ela firma que a fragilidade no educar nasce quando as famílias decidem não se ocupar desse processo integral de educação da criança.

“Os pais precisam alfabetizar seus filhos não somente pagando escola, mas alfabetizar ouvindo, validando os sentimentos, ensinando limites, pedindo perdão e dando condições dessa criança se sentir segura. Ou seja, alfabetizar no dia a dia, nunca perdendo de vista a intencionalidade na educação”, alerta.

A primeira recomendação que a educadora faz diz respeito a não deixar os filhos “ao vento, ao léu ou mesmo nas telas de redes sociais”. Para ela, o mais importante é que os pais se apropriem de um processo que, de fato, é inevitável: educar para a sexualidade. “Esse é um processo que é revestido de inevitabilidade. A educação sexual acompanha a própria geração de vida, desde a vida embrionária, quando o processo de educar para a sexualidade começa”, compartilha.

Tragédias e o despertamento social da temática

O caso da menina de 10 anos, que sofreu abuso sexual e engravidou do próprio tio, em São Matheus ( ES), trouxe grande comoção na sociedade e no meio cristão, gerando, além do debate, o que Brena Riker trata como “despertamento social”.

“Quando acontece casos semelhantes costumamos despertar para os conceitos de educação sexual, mas esse despertar passa rapidamente e as histórias lamentáveis das vítimas caem no esquecimento. Por isso, o que precisamos fortalecer de verdade são os princípios de educação para a vida e à existência”, orienta a educadora.

Ela lembra que o criador fez isso ao longo de toda a palavra, na qual revela-se um Deus educativo por meio de atitudes, situações, ensinamentos, leis, normas, mas principalmente por meio dos relacionamentos das pessoas com Deus. “Ele educou para as melhores escolhas, para a melhor jornada de seus filhos e filhas. Da mesma forma, a gente precisa utilizar as áreas de influência da nossa vida – e a sexualidade é uma delas – para se apropriar dessa educação para a vida”.

O que é de fato prevenção ao abuso

Aumentar a conscientização sobre a inaceitabilidade do abuso sexual infantil e promover a noção de que parar o abuso sexual infantil é responsabilidade de todos são algumas das informações que mais circulam pela internet. Todos os adultos e adolescentes precisam saber que o abuso sexual infantojuvenil é um crime que costuma causar graves danos às crianças, que a ajuda está disponível para aqueles que a procuram e que as crianças nunca podem consentir na atividade sexual. Mas afinal como tudo isso é transmitido às crianças e qual a forma eficaz de prevenção?

“Prevenir é basicamente evitar que algo aconteça, é antecipar-se. Prevenir não é, por exemplo, explicar que alguém não pode tocar nas partes íntimas da criança. É, antes de mais nada, explicar o que são as partes íntimas, qual o projeto de Deus para as partes íntimas, qual a função delas no processo global de formação corpórea dessa criança. Por isso, é preciso entender a razão de a criança interagir com esse corpo, porque esse corpo é dela… Então, antes das noções de prevenção mais populares na internet, especialmente, durante o Maio Laranja, existe um trabalho de base anterior”, informa a educadora.

Brena recorda que os pais que buscam ajuda, fazem perguntas sobre como proteger seus filhos ou como educar sexualmente, ignorando que esse processo já está acontecendo.

“É necessário correr atrás de lidar com a integralidade da sua criança, com todas as áreas que estão conectadas à sexualidade – e quase todas as áreas estão –, e em cada área dessa elaborar estratégias de diálogo, de fortalecimento de conceitos que a família pretende trazer para a criança, construindo uma base prévia que serão pontes para a prevenção. Após isso, quando tivermos de falar sobre os assuntos mais casca-grossa, como o abuso sexual infantil, por exemplo, a ponte já vai estar muito pavimentada e vai ser mais fácil acrescentarmos esses conceitos que são da proteção e da prevenção propriamente ditos”, instrui Brena.

Abuso sexual: prevenção e resgate

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