A espiritualidade desapareceu da igreja?

Por bom tempo no Cristianismo o enfoque tem sido no campo da Teologia em que as discussões estão na busca da uniformidade da interpretação doutrinária da Bíblia, uma espécie de “etiqueta identificadora” do crente e da igreja. Um dilema neste enfoque é que o Cristianismo acabou se reduzindo a um conjunto de proposições conceituais e até o plano da salvação acabou ficando como um conjunto de proposições, em vez de demonstrar um novo estilo de vida ao aceitarmos a Jesus. Ser crente, então, passou a ser aceitar certos conceitos e proposições teológicas.

Por outro lado, a vida do crente passou a ser validada tendo em vista o seu empenho operacional no trabalho da igreja. Temos aqui o foco no verbo FAZER. Não há dúvida em que Deus nos tem dado dons de serviço para que cada crente possa participar no desenvolvimento da vida da igreja, no empenho à obra do reino de Deus, na propagação e ensino do evangelho, no aconselhamento, na obra social, etc.

Portanto também um enfoque legítimo. O dilema é que, com a herança recebida de nossos precursores, que vieram de uma cultura essencialmente pragmática, podemos ter reduzido Cristianismo a atividades, programas, eventos e estrutura. Isto tem levado ao desenvolvimento de intenso “ocupacionismo” e gerado alguns equívocos na compreensão não apenas da doutrina da igreja, mas na sua vivência prática. Mas também é possível notar o crescimento de um tipo de “adoracionismo” em que o culto acaba se tornando numa espécie de “show” regado com intensa “aeróbica gospel”. No fundo, é o Cristianismo funcional, programático e agitado de fim de semana em que o culto da igreja se torna um ponto de encontro e o domingo, dia do descanso e celebração se tornou em dia do cansaço e agitação.

“O Cristianismo é essencialmente introspectivo, é primeiro voltado para dentro, e depois para fora. Isso requer o investimento prioritário num estilo “místico” de vida pessoal.”

No momento é possível notar que tem crescido o movimento de um tipo de autoajuda gospel onde circulam freneticamente nas redes sociais frases de motivação onde Deus se coloca à disposição da pessoa como que um “garçom” pronto para servir e, custe o que custar, a sua vida vai dar certo. Paralelamente também segue um evangelho tipo de troca, em que se você for “crente bonzinho” Deus vai lhe “premiar” com dezenas de bênçãos, um verdadeiro mercado da fé em que o evangelho se tornou mercadoria.

Não é possível negar que o Cristianismo é teologia/doutrina, é atividade, precisa de programas, eventos, que Deus é nosso socorro bem presente na hora da angústia. Mas onde anda a espiritualidade essencial que deveria ser o grande motivador e impulsor de tudo isso?

O Cristianismo é essencialmente introspectivo, é primeiro voltado para dentro, e depois para fora. Isso requer o investimento prioritário num estilo “místico” de vida pessoal. Aliás, esta palavra – mística – fugiu do vocabulário dos teólogos talvez com receio da subjetivação. Mas essa vida mística envolve situações tais como Jesus ensinou sobre nos trancarmos num quarto secreto para ali dialogar com Deus, ouvir a sua voz, derramar nosso coração, uma vida de solicitude, de silêncio para ouvir a voz de Deus e aí estarmos preparados para agirmos como cristãos na vida cotidiana. Daí a pergunta inicial “onde está a espiritualidade na igreja?” Como a igreja está influenciando a sociedade e a cultura? E aí como você reage a essa questão?

Lourenço Stelio Rega é teólogo, eticista e Master/Neuro Coach. É diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo


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