23.3 C
Vitória
segunda-feira, 14 junho 2021

Especulações: O que se sabe sobre as explosões no Líbano?

Explosão em depósito de nitrato de amônio na área portuária da capital do Líbano traz algumas especulações. “Há no Líbano e fora dele quem especule a participação secreta de Israel na explosão”, declarou Natalia Calfat, Doutoranda em Ciência Política

A explosão em um armazém na região do porto de Beirute, o Líbano, nesta terça-feira, 4, que deixou mais de 100 mortos e cerca de 4 mil feridos, chamou atenção do mundo. Até agora a causa do incidente é desconhecida. Não se sabe, por exemplo, se ocorreu um acidente ou um atentato terrorista.

A suspeita é que a explosão tenha atingido um galpão que guardava grandes quantidades de nitrato de amônio, composto geralmente usado como fertilizante. Cerca de 2.750 toneladas desse material estavam estocadas havia seis anos, de acordo com o primeiro-ministro Hassan Diab.

Há operações de resgate nesta quarta-feira (5). Muitas pessoas estão desaparecidas. Moram mais de 750 mil pessoas na região que foi afetada pela explosão. O presidente do país, Michel Aoun, disse que a capital deve declarar estado de emergência. E disse ser “inaceitável” que 2.750 toneladas de nitrato de amônio fossem armazenadas por seis anos em um depósito sem a segurança necessária.

Vários países já ofereceram ajuda humanitária para o país. Em pronunciamento, o primeiro-ministro libanês disse que o país enfrenta uma catástrofe e declarou luto oficial de um dia. “Eu prometo que esta catástrofe não passará sem que os culpados sejam responsabilizados. Os responsáveis pagarão o preço”, afirmou Hassan Diab.

O Líbano atravessa sua pior crise econômica em décadas, marcada por depreciação monetária sem precedentes, demissões em massa e restrições bancárias drásticas.

Em entrevista à Comunhão, a doutoranda em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, Natalia Calfat, explicou o contexto político do país, o que já está se falando sobre os motivos das explosões. Foi ou não acidental? Confira

Comunhão – Em 2018, o primeiro ministro de Israel Benjamin Netanyahu disse na Assembleia Geral da ONU que o Hezbollah (com a ajuda do Irã) construiu três instalações para o o armazenamento de mísseis “no coração de Beirute”. Um dos depósitos se encontraria embaixo do porto da cidade. Tudo leva a crer que essa explosão não foi apenas um acidente? poderia ter sido um atentado?

Natalia – Ao que tudo indica a explosão foi de fato acidental, causada por leniência do governo que, apesar dos vários alertas, não havia retirado o material confiscado no Porto já há 6 anos. O evento, caso a versão oficial continue a se confirmar, fala bastante sobre a crise de governança que o país vive e seria reflexo de mais um dos vários episódios de má gestão – como foi a crise do lixo de 2015 e como é o caso da permanente crise de energia. Por hora, então, o envolvimento de Israel, Hezbollah ou dilemas securitários parecem estar descartados. Mas uma investigação completa deve ser feita.

É sim teoricamente possível que alguém tenha se valido da informação de que se tratava de material altamente explosivo e, se aproveitando da leniência e má gestão do governo, iniciado a explosão justamente no local. Mas parece improvável que este seja o caso. Explosões como essa já ocorreram em outros locais do mundo; tampouco algum grupo terrorista assumiu autoria do ataque, como seria de costume. Naturalmente, há também no Líbano e fora dele quem especule a participação secreta de Israel na explosão.

Ou tem haver com o fato de o país ter um histórico de guerras civis e muitos atentados à bomba? Qual a relação política disso com o que aconteceu ontem?

Nathalia_explosão
Foto: Arquivo pessoal

Desde a última invasão Israelense ao país, em 2006, Hezbollah e Israel vivem um estado de dissuasão mútua. São frequentes as alegações do tipo que você menciona na pergunta anterior.

Mas ainda que as armas fossem do Hezbollah – o que não parece ser o caso aqui – elas fazem parte das atuações do grupo na fronteira a leste e a sul, não internamente.

Mas sem dúvida o país é palco quase permanente de tensões. Recentemente, em ataque israelense à Síria, um membro do Hezbollah teria sido morto. O grupo declarou que a morte seria vingada e retaliações de algum tipo seriam esperadas. A explosão também foi dias antes do julgamento do Tribunal Especial para o Líbano sobre o atentado contra Hariri, um julgamento altamente disputado e que refletiu a polarização da sociedade e elite política libanesa.

Antes da guerra síria, o último grande ataque terrorista em solo libanês havia sido em 2005, justamente matando o ex Primeiro-ministro Rafiq Hariri. Entre 2013 e 2017, dezenas de ataques terroristas de maior ou menor dimensão perpetrados por grupos extremistas foram registrados em solo libanês. Os suspeitos em geral eram vinculados ao Estado Islâmico e Jabhat Fatah al-Sham (antiga Al Nusra). Com o combate conjunto do exército Libanês e do Hezbollah na Síria e ao longo da fronteira, essa ameaça foi dissipada.

O presidente libanês, Michel Aoun afirmou que os responsáveis pela catástrofe ‘terão que prestar contas’ e apelou pela solidariedade dos países. Qual a conotação da fala do presidente para um país que tem um acúmulo  de crises de segurança e econômica? 

Como porta-voz do governo e assumindo sua posição de liderança, a fala de Aoun chama pela responsabilização doméstica pela tragédia. Contudo, infelizmente, as próprias autoridades políticas estão sendo implicadas. As ajudas humanitárias já começam a chegar, sobretudo da União Europeia e países do golfo. A ONU também prometeu ajuda emergencial.

A crise política, econômica  e securitária se intercalam pois o país sempre foi palco de ingerência internacional e de aliança de suas elites políticas com um ou outro lado do espectro. A crise econômica que tem a ver com o modelo rentista também foi agravada pela política de “pressão máxima” de Trump sobre o Irã e o Hezbollah, já que o Líbano teve seus bancos atingidos por sanções. Essa ajuda também vem no contexto de outros pedidos de financiamento externo para pagamento da dívida e juros da divida. Esses pacotes de resgate sim, em confluência com o Ato Caesar, que reforça sanções à Síria, vinham pressionando pela saída do Hezbollah do governo de união nacional do país. Ocorre que desde 2006 Aoun e Hezbollah são aliados na coalizão 8 de Março, e qualquer composição plural de governo precisará incluir este bloco, que, se tomado de forma conjunta, inclusive obteve 55% dos votos nas eleições parlamentares de 2018.

O país vive uma situação extremamente delicada, inclusive alguns países como a França, ofereceram ajuda humanitária. Mas qual a importância da ajuda de países do Oriente Médio, sobretudo de Israel, que sempre foi o foco de guerra entre países da região neste momento?

Em tragédias como esta, qualquer apoio externo é um esforço humanitário e bem-vindo. Nações ao redor do mundo demonstraram solidariedade, e o Brasil, que possui uma importante comunidade libanesa, ficou especialmente abalado. Contudo, a ajuda oferecida por Israel não necessariamente significa uma possibilidade de alívio das tensões. A direita israelense, por exemplo, já se opôs a esforços neste sentido por se tratar de um ‘país absolutamente inimigo’. Yair Netanyahu, filho de Benjamin Netanyahu, também se pronunciou contra, condenando todo o Líbano como ‘oficialmente um Estado terrorista’.

- Publicidade -

Matérias relacionadas

Comunhão Digital

- Publicidade -

Fique Por Dentro

- Publicidade -

Plugue-se