Quem disse que pastores não se cansam e se deprimem? À frente de igrejas e inúmeras tarefas, líderes religiosos sofrem com a exaustão. O que fazer?
Por Lilia Barros
Vistos por muitos como alguém que não se cansa, intocável ou forte o suficiente para aguentar a sobrecarga e permanecer de pé como exemplo para a igreja, pastores têm sufocado o cansaço, o desânimo e até a depressão, numa escalada que está adoecendo líderes religiosos.
O esgotamento físico e emocional e a depressão extrema é o resultado de quem acredita que o pastor não pode esmorecer, afinal o que será da igreja? É justo esperar tanto desses homens?
Duas lideranças: em ministério pastoral e saúde mental se mostram preocupados com as dores dos pastores e com o atual quadro que muitos enfrentam em seus ministérios.

“É tempo de cuidar dos nossos pastores, pastoras e líderes!”, afirma Cassiano Luz, diretor executivo da SEPAL – Servindo aos Pastores e Líderes, uma missão internacional.
“Nos últimos anos a Sepal tem observado com extrema preocupação as dores daqueles que são cobrados pelo cuidado de outras pessoas, enquanto eles mesmos não recebem o cuidado que precisam.”
Sem amigos
De acordo com o Instituto Schaeffer, “70% dos pastores lutam constantemente contra a depressão, 71% se dizem esgotados, 80% acreditam que o ministério pastoral afetou negativamente suas famílias e 70% dizem não ter um amigo próximo”.
Esse quadro tem levado ao alarmante aumento do número de suicídio de pastores e líderes, tendo como causa mais comumente noticiada a depressão, associada ao esgotamento físico e emocional, traições ministeriais, baixos salários e isolamento por falta de amigos.

É preciso desacelerar, diz psicólogo
O pastor e psicólogo Marcos Guimarães, do Espírito Santo, avisa que é preciso desacelerar, mas ressalta que desacelerar não é parar, mas encontrar seu próprio ritmo.
“Estamos no segundo mês do ano e já é hora de lembrar da importância de manter um ritmo que seja constante e saudável. Como na corrida, por vezes é necessário acelerar, em outros momentos, diminuir a intensidade. Mas, para manter esse equilíbrio é necessário conhecer o próprio ritmo antes de seguir com trabalho, ministério e outros compromissos.”
Entrevista
Falando à Comunhão, o pastor e psicólogo Marcos Guimarães, fez uma leitura sobre essa problemática que atinge cristãos e liderança em seus ministérios e saúde.
Comunhão: Faça um paralelo entre gerir uma empresa e pastorear uma igreja.
No que tange as questões administrativas, há muita semelhança. Sobretudo se considerarmos as denominações chamadas tradicionais e/ou históricas. As questões burocráticas que envolvem manejo de pessoal, contas a pagar, dificuldade com baixas receitas, cobrança por resultados.
Infelizmente há uma área de muita semelhança nos dois ambientes, o assédio moral. Seja em uma empresa ou em uma igreja, é muito comum quando conversamos com os funcionários, inclusive o pastor, percebermos que em reuniões ou em conversas privadas, existem comportamentos da diretoria ou por parte de algum membro, comportamentos de assédio ou de diminuição do trabalho pastoral ou do próprio pastor.
O que difere em grande medida é que, além desse cenário de similaridade, há as chamadas responsabilidades espirituais e o cuidado pessoal. Por exemplo, o diretor de uma empresa não costuma receber seu funcionário no meio do expediente para falar sobre problema de seus filhos ou no seu casamento.
Vejo um outro problema que é muito grave em minha análise. O fato de o pastor trabalhar todos os domingos do mês, meses seguidos. Advogo que no máximo a cada dois meses o pastor tire o final de semana de folga para manutenção de sua saúde física e mental e cuidado de sua família – vale ressaltar aqui que a Lei brasileira não permite que uma pessoa trabalhe três domingos seguidos (Art. 386 da CLT). Nisso a igreja difere das empresas.
Fazer uma intervenção intencional e madura entendendo a necessidade do líder espiritual, fará toda a diferença nesses contextos. Penso que o pastor também deve procurar nos acordos iniciais com a igreja, deixar claro questões que são importantes para ele gerir seu autocuidado, porém, caso isso não tenha acontecido, é importante que haja espaço para negociação entre as partes, pois um funcionário adoecido, seja na empresa ou na igreja, não renderá o que pode.
Comunhão: A igreja está preparada para uma conversa sobre esgotamento e suicídio entre pastores? Por quê?
Penso que ainda não totalmente, mas vejo que algumas comunidades têm procurado conhecer mais sobre o tema e tentado ver seus líderes como pessoas que também têm dificuldades, inclusive no âmbito da saúde mental.
Comunhão: Como se dá a espiritualidade no campo da saúde? Esse é um assunto bíblico?
A espiritualidade é uma das formas de enfrentamento de doenças, demoniada como estratégia de coping. A espiritualidade ajuda o indivíduo a ter mais cuidado com seu corpo, com as escolhas que faz, com as decisões que toma. Levar em conta a espiritualidade e a fé na tomada de decisões tem se mostrado extremamente salutar e se considerarmos o ensinamento do apóstolo Paulo sobre o corpo ser o templo do Espírito, isso faz com que, para muitos o cuidado do corpo (físico e mental) seja uma prioridade.
Comunhão: Fazer terapia ainda é um tabu? As pessoas entendem ser falta de fé?
Sim, infelizmente para muitas comunidades de fé e para muitos líderes eclesiásticos ainda é um tabu. Associar ansiedade e depressão a ações malignas continua sendo a tônica em vários círculos religiosos e isso atrapalha a pessoa a buscar ajuda. A má compreensão de alguns textos bíblicos por parte de alguns expositores aprisiona as pessoas e as faz pensar que essas coisas não acontecem se você não estiver em algum tipo de pecado.
Comunhão: Estamos vivendo uma pandemia de depressão no meio cristão? Na sua visão, os pastores e líderes evangélicos estão capacitados para um ministério nessa área?
Acredito que, como a igreja é uma extensão da sociedade, no aspecto de grupo, sim, estamos em um nível acentuado de casos de depressão nos contextos cristãos, pois essa é uma realidade mundial. Penso que muitos pastores e líderes estejam capacitados, sim. O problema maior é com a parte que não está capacitada, pois pode dar informações que não ajudam a pessoa a buscar ajuda adequada. É necessário, urgente que as doenças emocionais sejam encaradas da mesma forma que são encaradas as doenças físicas.
Retiro Sepal 2023
Tema: Relacionamento, descanso e cuidado
Data: 1 a 5 de maio de 2023
Local: – Hotel Majestic – Águas de Lindóia (SP)

