Escola Bíblica em crise?

Os motivos que levaram muitos crentes a não mais frequentarem a Escola Bíblica

Já se vão quase 300 anos desde que John Wesley, que se tornaria o líder do movimento metodista, iniciou a célula-mãe do que hoje é a Escola Bíblica Dominical, no estado norte-americano da Geórgia. E na Inglaterra, o jornalista Robert Raikes foi um dos grandes nomes da história da EBD em solo europeu.

A atividade que começou com o intuito de ajudar crianças de rua da cidade de Gloucester logo se tornou um marco na sociedade dos séculos XVIII e XIX. Quando Raikes faleceu, em 1811, mais de 400 mil estudantes estavam cadastrados nas escolas dominicais britânicas.

Algo semelhante aconteceria no Brasil, 44 anos depois, mais precisamente no município de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Em 19 de agosto de 1855, o médico escocês Robert Kalley e sua esposa, Sarah Poulton Kalley, inauguraram a primeira EBD brasileira com apenas cinco crianças, mas que logo cresceria e tomaria outras partes do país.

O impacto do ensino baseado na fé é tão grande que uma pesquisa realizada pela Escola TH Chan de Saúde Pública de Harvard (EUA), sob a liderança de Ying Chen, comprovou que tais hábitos influenciam a qualidade de vida. Entretanto, a EB (Escola Bíblica) aparentemente tem passado por uma crise entre seus frequentadores.

A revista Comunhão conversou com mais de 60 pessoas, com idade entre 18 e 65 anos, de diferentes denominações, em oito estados brasileiros, que apresentaram suas impressões sobre o tema.

Apesar de mais de 60% dos entrevistados ainda frequentarem os bancos da igreja nos domingos de manhã, alguns citaram em suas avaliações certas deficiências da congregação que os levaram a abandonar o estudo bíblico.

Uma das participantes do levantamento é Regina Oliveira. Membra de uma igreja batista em São Paulo, ela já foi frequentadora ávida da EB, até os 22 anos de idade, mas a falta de interesse por parte dos professores e a distância entre sua casa e o templo contribuíram para desmotivá-la.

“Aulas de conteúdo formativo e criativas trazem os alunos de volta a cada domingo. Aulas rasas, chatas e desinteressantes afugentam-nos” – Lecio Dornas, pastor da First Baptist Church Windermere, em Orlando, na Flórida (EUA)

Ex-professora das classes de jovens e adultos, Regina atualmente lamenta o estado de algumas classes que integrou em diferentes denominações, como Assembleia de Deus, Metodista e Presbiteriana.

“Por onde passei, eu julgava tudo e retia o que era bom. Mas o quadro é simplesmente desesperador. Parece que os professores estão usando as aulas para ensinar mais doutrinas e dogmas da denominação do que a Bíblia. Há um despreparo total, eles não sabem responder a uma pergunta sem enrolar. Isso me desestimulou totalmente”, confessa.

RAIO-X DA EB

Conduzindo uma turma de jovens há 10 anos, o presbítero Cleison Brügger, da Assembleia de Deus em Doutor Augusto Vasconcelos, Rio de Janeiro, defende que essa evasão tem causas diversas e é ocasionada pela realidade de cada igreja, principalmente quando se nota a presença de ferramentas cada vez mais variadas, como recurso multimídia e aparelhos eletrônicos, que garantem uma aula mais didática e dinâmica. “A escola bíblica está acompanhando a modernidade.

“Parece que os professores estão usando as classes para ensinar mais doutrinas e dogmas da denominação do que a Bíblia” – Regina Oliveira, membro de igreja batista em São Paulo

Acredito que o déficit e a evasão sejam uma questão de troca de prioridades. Conheço igrejas que trocaram o dia e o horário da atividade, mas isso não resolveu. É preciso que a junta pastoral conscientize seus membros sobre a importância da EB na vida espiritual, devocional e pessoal para que eles voltem a se interessar pelo estudo bíblico”, orienta.

Para Cleison, o método pedagógico também precisa ser atraente; é necessário que os ensinadores sejam relevantes, despertando o interesse dos alunos. “A EB é multifacetada e abrange pessoas de todas as idades. Portanto, cada classe possui seus desafios. Talvez, um olhar geral possa ajudar a localizar um aparente problema. O ensino acompanhado de dinamismo com certeza é mais eficaz.”

INÉRCIA E DESPREPARO

A ausência desse dinamismo foi um dos motivos que há 10 anos afastou Rafael Araújo, membro de uma igreja de linha neopentecostal, dos estudos bíblicos. Para ele, falta a algumas lideranças o entendimento de que é importante se livrar de paradigmas do passado.

“As igrejas, de forma geral, seguem praticamente o mesmo caminho, com revistas e conteúdo simulado, mas o momento que vivemos está muito dinâmico. As igrejas precisam de pessoas com autoridade no conteúdo de cada tema para que este possa ser transmitido aos fiéis.”

O pastor Magno Paganelli, da Assembleia de Deus Bereana em Vila Mariana (SP), observa que algumas congregações tomaram a iniciativa de renovar seus métodos. Entretanto, aponta que alguns fatores, como a correria do dia a dia, o aumento da carga horário no trabalho e a distância da residência dos membros, colaboraram para essa evasão.

Fonte: pesquisa realizada por Comunhão

Além disso, o acesso à informação e o aumento da presença dos evangélicos na mídia permitem que o aluno procure na internet um professor ou especialista em alguma área de seu interesse. “As pessoas chegam no domingo cansadas, e nem as culpo por isso. O membro faz um autodidatismo, abandona a grade curricular proposta pela editora e se especializa em reafirmar aquilo que acredita. Assim, deixa de ter uma oportunidade de ganho mais ampla.”

Paganelli também sugere que as igrejas estudem meios para conseguir atender à demanda de seu rebanho. “Algumas igrejas mudam o dia de seus estudos bíblicos para se ajustar à necessidade do rebanho ou pulverizam esses ensinamentos em cultos domésticos. Talvez insistir num modelo não seja a melhor resposta, mas sim entender a demanda do público e se ajustar a ela”, opina.

ADAPTAR-SE É PRECISO

Autor e educador, o pastor Lecio Dornas, da First Baptist Church Windermere, em Orlando, na Flórida (EUA), observa que a escola dominical sofreu e sofre as consequências dessa inadaptação, pois há igrejas que não perceberam a importância da adoção de estruturas mais funcionais e menos pesadas, em consonância com os novos tempos.

“O maior motivador de ausência na EB sempre foi a qualidade do ensino, tanto do ponto de vista de conteúdo, quanto do aspecto da metodologia. Aulas de conteúdo formativo e criativas trazem os alunos de volta a cada domingo.

“Talvez insistir num modelo não seja a melhor resposta, mas sim entender a demanda do público e se ajustar a ela” – Magno Paganelli, pastor da Assembleia de Deus Bereana em Vila Mariana (SP)

Aulas rasas, chatas e desinteressantes afugentam-nos. O grande segredo é investir na qualidade do ensino.” Pr. Lecio Dornas explica que, em uma era digital na qual o fluxo de informações é cada vez mais rápido, o foco deve repousar sobre a formação de conceitos, princípios, crenças e valores, que se desdobrem na automatização de condutas, atitudes, hábitos e comportamentos.

“A formação do aluno precisa ser construída em cada aula. Somente com muita coragem é que a EB vai estar pronta para atualizar sua estrutura e funcionamento e investir pesado em capacitação de professores e na melhora dessa fascinante aventura de promover o ensino das Escrituras, que são poderosas, como ensinou o autor da Carta aos Hebreus: “Pois a Palavra de Deus é viva e poderosa e corta mais do que qualquer espada afiada dos dois lados. Ela vai até o lugar mais fundo da alma e do espírito, vai até o íntimo das pessoas e julga os desejos e pensamentos do coração delas” (Hb 4:12).


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