Yago Martins: Informar Teologia para transformar

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Conhecido pelo canal “Dois Dedos de Teologia”, o pastor Yago virou uma referência no país ao discutir temas polêmicos e atuais na internet: “Nos esforçamos por abrir o apetite aos banquetes da tradição cristã porque fazemos teologia para a vida”, diz

Aos 27 anos ele virou um fenômeno na internet, não só por pregações, mas na disseminação de discussões de temas polêmicos da Bíblia. Pastor Yago Martins tem levado milhões de pessoas a refletirem sobre assuntos atuais levando em consideração a propagação do bom evangelho de Cristo.

Atuante na polarização de teologia na internet, Yago é conhecido pelo canal “Dois dedos de Teologia“. E defende a ideia de que a teologia produzida na internet tem um papel não somente de informar, mas de transformar. “Queremos ajudar os irmãos no crescimento teológico para o benefício de suas igrejas”.

Yago Martins fez parte do blog “Voltemos ao Evangelho” e fundou o ministério “Cante as Escrituras”, ambos do Ministério Fiel. É pastor na Igreja Batista Maanain, em Fortaleza (CE), professor e diretor da Academia de Formação em Missões Urbanas, coordenador do Núcleo de Estudos em Cosmovisão Cristã e autor de quatro livros.

Conectado na atualidade no mundo, Yago gosta de retratar temáticas profundas e indicar o caminho da continuidade e do progresso através de seus vídeos. Mas seu principal alvo é oferecer o que ele chama de “refeição completa”.

“Nos esforçamos por abrir o apetite aos banquetes da tradição cristã”, reforça. Nesta entrevista exclusiva à Comunhão, Yago Martins fala da criação desse projeto, confissões religiosas e a importância do exercício da santidade. Confira!

Comunhão – Você criou o canal “Dois Dedos de Teologia” no Youtuber, como ele foi pensado e com qual objetivo foi criado?

Yago – O canal foi criado com o objetivo de alcançar aqueles que têm dificuldade em encontrar material teológico com facilidade. O nome “Dois Dedos de Teologia” sempre teve como objetivo evocar cautela e humildade. Indicar que a internet pode oferecer o que é bom, mas sempre em pequenas doses. Queremos ajudar os irmãos no crescimento teológico, para o benefício de suas igrejas. Eu mesmo fui transformado em minhas compreensões sobre Deus através daquilo de bom que foi produzido para blogs e YouTube, então me sinto em profunda dívida com esta ferramenta, e pretendo continuar produzindo para ela enquanto Deus me der fôlego.

Como são escolhidos os temas que são divulgados pelo canal?

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Os temas surgem de forma bastante variada. Falo de teologia a partir de questões feitas pelos membros da igreja que pastoreio ou nos comentários dos vídeos. É pouco frequente usarmos polêmicas do momento ou notícias, para não nos misturarmos com uma visão utilitarista da produção de conteúdo.

Quando fazemos isso, geralmente é escolhendo bem nossas batalhas. Na maior parte do tempo, fazemos teologia da vida e para a vida. O relacionamento de pastoreio que mantenho com os irmãos da minha comunidade de fé, a Igreja Batista Maanaim, em Fortaleza/CE, dá conteúdo vivencial para que a teologia que produzimos na internet não seja mero arrazoado erudito. O objetivo é informar para transformar.

Vários temas das publicações no Youtube são meio polêmicos entre os evangélicos, mas tem alcançado milhões de visualizações, como explicar essa amplitude?

As pessoas gostam de se guiar pelos assuntos do dia. Pela nossa falta de agenda cultural, preferimos dar pitacos sobre cada nova polêmica que surge, seja em qualquer cenário – gospel ou secular. As visualizações nos YouTube representam justamente nosso espírito fofoqueiro e maledicente, e muitos têm transformado em negócio a satisfação desta espiritualidade corrompida. Se não tivermos a propagação do bom evangelho de Cristo como alvo e não nos guiarmos pela agenda do Espírito, podemos acabar baixando a cabeça pelos resultados numéricos, trocando a primogenitura por pratos de lentilha.

Quais os resultados colhidos com a implantação do canal até hoje?

Os testemunhos de gente abençoada pelo canal suplantam qualquer negatividade que tenhamos recebido até hoje. Apesar dos incontáveis desafios, somos sempre encorajados com descrentes que passaram à fé em Cristo Jesus através dos vídeos, de igrejas abençoadas pelos materiais, de pastores motivados a permanecer no ministério e de jovens indo ao seminário. Missionários em países distantes agradecem por cada publicação. Irmãos que pensavam em abandonar a fé encontram força para continuar no caminho. Tudo isso está muito além de nossos méritos, mas Deus tem usado vasos de barro para levar seu grande tesouro. Que Deus nos dê força, enquanto pudermos transportar essa mensagem valiosa.

Pastores e líderes ministeriais precisam optar pela “inovação” em suas pregações hoje para alcançar um público maior? Como fazer isso?

Eu não acredito que inovações ministeriais e tecnológicas são condições necessárias para ministérios fiéis. Todos os dias igrejas são abençoadas pelo ministério de homens comuns, que talvez nunca apareçam no YouTube, mas que fazem o cristianismo vivo nos corações dos fiéis. Tentar imitar ministérios bem-sucedidos ou apelar para novidades convenientes só torna o coração ansioso e ingrato, e tira de nós aquilo que é mais poderoso na transformação do ser-humano, a simples e profunda pregação do evangelho. Clareza, profundidade e paixão são todas as “inovações” que os ministérios precisam. Isso não significa que não nos importamos com nossos métodos, em organizar atividades que façam sentido dentro de nossos contextos, de ler bem a cultura e tentar responder adequadamente às realidades dinâmicas de nossos dias. Isso pode até ser importante, mas geralmente não é estritamente necessário e certamente nunca será suficiente.

O Youtube tem sido uma ferramenta muito usada por pastores para a disseminação da Palavra de Deus, assim como as mídias sociais em geral, vocês acreditam que esse é o caminho para alcançar os chamados “desigrejados”?

Os desigrejados precisam, antes de qualquer coisa, entender o que significa ser igreja de Cristo e quais as implicações da fé em nosso senso de comunitariedade. Sem participação na vida de uma comunidade, temos uma fé resumida a aprendizados desengajados. A internet pode ser um meio de alcançar os que estão fugindo da vida congregacional justamente porque a comunicação online se tornou um refúgio para quem se recusa à participação eclesiástica formal.

Como você enxerga a importância da internet na disseminação de uma teologia saudável?

A internet está cheia de conteúdo dos mais variados. As pessoas já a usam para sanar suas dúvidas e questões internas. Se nós não ocuparmos espaços, estaremos entregando para o mundo sem Deus o protagonismo da participação humana. Teólogos, pastores e comunicadores cristãos devem olhar para a internet como um campo missionário vasto, carente de obreiros preparados.

Antes do “Dois dedos de Teologia”, você fez parte da equipe do blog “Voltemos ao Evangelho”, que publica notícias relacionadas à fé. Fale um pouco dessa ferramenta de comunicação, e qual a importância dele em sua vida?

O Voltemos ao Evangelho foi certamente o ministério online mais importante da minha vida, e tenho certeza que falo por pelo menos dezenas de milhares de pessoas. Minha vida de fé foi transformada por meio daquilo que o Vinícius Musselman Pimentel, sua antiga equipe de voluntários e, hoje, o esforço profissional do Ministério Fiel realizaram na internet. As traduções de sermões de bons pregadores americanos supriram uma falta imensa de nomes conhecidos na exposição bíblica. Depois, com divulgação dos melhores pregadores nacionais, uma geração inteira teve acesso a ensino bíblico de qualidade e vernacular. Só Deus poderá recompensar o bastante os responsáveis por tudo o que o Voltemos ao Evangelho deu ao Brasil.

Vários pastores declaram que o povo tem “Fome e sede” do Evangelho, apesar de tantas denominações existentes no Brasil ensinarem o liberalismo, doutrinas, teologia da prosperidade. Como saciar essa sede dentro do que é ensinado na Bíblia? 

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Assim como em muitas falas do próprio Cristo. Precisamos dar ao povo o pão da Palavra, instrução que salve, sabedoria que apresente Cristo vivo e entronizado.

Enquanto acharmos que a fome e sede pelo Evangelho é mero desejo por mais eventos ou entretenimentos, que é falta de nomes famosos em nossas comunidades ou que estamos falhando nas últimas do mundo ministerial, estaremos negligenciando a arma mais poderosa de Deus, o Espírito Santo trabalhando através da Palavra. Nada pode ser mais poderoso para saciar o homem de Deus.

No blog percebemos que existe um credo religioso próprio. O que acham de igrejas que não tem uma confissão de fé? Acha que pode estar influenciado pelo movimento pós-moderno?

Eu acho credos e confissões ferramentas importantes. O confessionalismo é um reconhecimento da própria pequenez intelectual diante daquilo que Thomas Sowell chamou de racionalidade sistêmica. É um jeito de dizer que confiamos naquilo que a tradição julgou superior, ainda que possuamos dúvidas sobre esta ou aquela questão em especial. Um credo ou uma confissão de fé não representa um substituto à Escritura, mas é um documento que interpreta a Escritura. Ele se torna necessário porque é impossível, em qualquer tentativa comunicacional moderna, responder simplesmente “cristão” quando perguntam o que somos no âmbito da religião, ou “na Bíblia”, quando questionados sobre o que cremos. De forma costumeira, proferimos pequenos credos em nossos diálogos cotidianos. “Sou da igreja batista” diz que você crê em uma interpretação da Bíblia que só permite batismos de adultos e por imersão. Dizer “sou assembleiano” significa dizer com certo grau de certeza que você acredita em uma interpretação pentecostal dos dons espirituais, e por aí vai. Mesmo que eu não siga nenhum grande Confissão Reformada de forma total, eu não tenho qualquer crítica a quem encontra nos credos históricos o descanso do fim da corrida intelectual, aquela terra firme de quem passou anos em mar bravio, labutando com os teólogos, as doutrinas e os textos bíblicos. O que me causa desconforto é encontrar quem faça das Confissões seu ponto de largada doutrinário, prendendo correntes aos próprios pulsos. Ao transformar o ancoradouro em prisão e o tesouro do fim do arco-íris em meras grades intelectuais, você incapacita o próprio pensamento e castra a capacidade de pensar com a mente de Cristo. O teólogo encontra no texto das Confissões o resultado de suas próprias pesquisas e não o limite da própria racionalidade. Nas palavras de um conhecido, a tradição é um solo seguro, mas nunca deve ser um teto para o pensamento. É uma cerca de proteção, não as grades de um calabouço.

Só veremos ao Senhor se formos alcançados pela santidade de Cristo

Qual a importância de se discutir “Santidade” para o público evangélico, diante da situação atual da igreja brasileira?

O autor da epístola aos Hebreus diz que devemos seguir “a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12.14). Isso parece importante o bastante – só veremos ao Senhor se formos alcançados pela santidade de Cristo. Infelizmente, não falamos mais de santidade com medo de sermos chamamos de “moralistas”. As pessoas são normalmente chamadas de moralistas em duas ocasiões. Uma é quando elas defendem padrões morais muito fechados e restritos, a outra é quando põem os padrões morais em um lugar demasiadamente central no relacionamento do homem com Deus. E quem vai discordar desta acusação de exagero moral? Se você definir moralismo como um tipo de ascetismo culturalmente anorexo (no primeiro caso) ou como preeminência da moral sobre a fé na obra de Cristo (o segundo caso), a religião cristã é tudo, menos moralista. No entanto, lutar contra o moralismo pecaminoso não pode se confundir com lutar contra a importância da moral cristã. Ao lermos a Escritura, encontramos muito de moral, de cobranças de vida, de minúcias comportamentais, de certo e errado. Na luta contra uma ênfase errada no comportamento ou contra padrões comportamentais exagerados, muitos acusam de moralismo o mero interesse por santificação e por viver uma vida que agrade a Deus. Se isto é moralismo, então há um lugar para o moralismo na Escritura. A cara de Tiago, por exemplo, é uma carta profundamente moralista: certo e errado, padrões de vida e indicações práticas. Provérbios seria um poço de moral, escrito de moralistas para moralistas. Paulo, então, subiria no pódio do moralismo com tantos padrões a serem seguidos pelas igrejas. Eu não quero ser um moralista, mas se amar a santidade e se interessar pelas indicações morais da Escritura me faz um moralista segundo os olhos deste cristianismo roto dos amiguinhos da fé, então serei um moralista com todo o prazer. Claro, existe um moralismo ímpio, hipócrita, nascido no berço de ouro da falsa religião. É terrível que abandonemos uma vida vivida pelo poder que há na Cruz e na luz fornecida pelo evangelho. A salvação pelas obras dos romanistas e do evangelicalismo popular não representa a forma santificada pela qual o cristão vive sua santidade. O falso moralista chama de pecado o que Deus permite, proíbe aquilo que não gosta e chama seus gostos pessoais de maturidade na fé. Olhar para nosso relacionamento com Deus em termos de andarmos na cartilha da santidade bíblica de forma plena é entrar em paranoia religiosa. Somos salvos pela fé, não pelo que fazemos para Deus.


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