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quinta-feira, 2 julho, 2020

Entrevista: Ricardo Quadros Gouvea

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No terraço de um hotel em Vila Velha, apreciando o belo dia de sol e a praia adiante, o cientista Ricardo Quadros Gouvêa recebeu a equipe de Comunhão. Apesar do renome e dos muitos títulos que ostenta em seu currículo, a conversa com o professor transcorreu em clima de total informalidade. Muito propício para o entendimento do tema central da entrevista: os conflitos entre o Criacionismo e o Evolucionismo. Conflitos que este teólogo, filósofo e ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil defende que, na verdade, não existem. Confira.

Comunhão: Quais os principais pontos de conflito ou de contato entre uma visão espiritualizada da criação do mundo, como o Criacionismo, e uma visão materialista, como o Evolucionismo?
Ricardo: Visão espiritualista ou materialista são jargões, rótulos que não explicam nada. Na verdade, existe, sim, o cientificismo, que é quando você absolutiza e acha que a ciência vai resolver todos os problemas da humanidade. A ciência é uma atividade humana extremamente importante e que deve ser apoiada pelos cristãos e pela Igreja. Toda investigação científica é uma tentativa de entender racionalmente como o mundo se organiza, e isso não tem nada de anti-espiritual. Deus nos deu a faculdade racional para que nós a usemos e compreendamos o mundo. O que não é espiritual é o crente achar que a ciência é contra a fé, que a ciência está em oposição à vida espiritual e à fé cristã. A ciência e a fé se completam.

Quer dizer então que o senhor não vê conflito entre Criacionismo e Evolucionismo?

Todo cristão é criacionista, mas o fato de eu ser criacionista não me coloca necessariamente em oposição à teoria da evolução, porque esta me diz como o mundo foi criado e me permite crer que esta criação foi um ato de Deus. É importante entender que criação não é um termo científico, e sim teológico, que implica em si a existência do Criador. A ciência não pode falar de criação ou de Deus, porque o que se propõe é explicar o mundo a partir das leis que regem o próprio mundo do ponto de vista das leis físicas, leis naturais, e não a partir de uma perspectiva sobrenatural. Se incluir o sobrenatural, ela deixa de ser ciência. A teoria da evolução, principalmente no seu aspecto do paradigma evolucionário, não tira nenhuma dignidade, ou majestade, ou glória, de Deus. Pelo contrário. Quando nós consideramos as grandezas astronômicas, a grandeza da vida na Terra, a inteligência, a sofisticação do design inteligente que existe no processo criativo, na evolução das espécies ou mesmo na história do universo, das estrelas e galáxias, isso só reforça a majestade divina, a grandeza da glória de Deus, da Sua sabedoria, do Seu poder.

Mas muitos pontos de conflito entre estas duas posições já foram levantados…
Muitas pessoas pensam que devemos fazer uma leitura literal de Gênesis 1 e dos sete dias da criação. São extremistas, que rejeitam a cultura e não adotam uma postura dialógica com a Academia, a cultura e a ciência e que, baseadas numa interpretação literal da Bíblia, vão propor uma teoria da “Terra jovem”. Sustentam que a Terra tem 10, 20 mil anos e que a humanidade existe há pouco tempo. Todas as evidências científicas, toda a observação da Cosmologia moderna, da Paleontologia, da Arqueologia, o estudo dos fósseis, dá-nos a entender que o planeta Terra existe há bilhões de anos, e a humanidade faz parte do grande processo evolutivo das espécies e formas de vida, conforme explica a teoria da evolução, que vem de Darwin. Não há conflito com Gênesis 1 porque este não é um texto científico, mas religioso e poético, que fala sobre a relação de Deus com o homem e com a humanidade. Fala sobre algo muito mais importante do que a teoria da evolução: do fato de que todas as coisas foram criadas por Deus, são criaturas, como nós, e portanto não são dignas de adoração. Só Deus é digno de adoração. Isso é uma mensagem teológica, não tem nada a ver com Ciência.

Se levarmos em conta a teoria da evolução das espécies, em que momento então nós ganhamos uma alma? Os animais têm alma?
Quem fala que o corpo é o cárcere da alma e que a alma deve existir separada do corpo é Platão, o filósofo grego, mas não a Bíblia. A Bíblia tem uma alta consideração pelo corpo, e pela matéria, e a expectativa bíblica, a esperança cristã, não é a da vida da alma desencarnada, mas sim da restauração do corpo e de toda a criação. Como diz em Apocalipse, “em novo céu e nova terra”. Então, nós estamos falando de uma ressurreição do ser humano na sua inteireza, corpo e alma, de modo que esse dualismo que separa a alma do corpo é um paradigma errado de reflexão teológica.
O que nós chamamos de alma tem a ver com auto-consciência, com essa faculdade exclusiva do ser humano de saber que existe e que o seu destino está em suas mãos, coisa que os animais não têm. E que nós temos, portanto, liberdade, que é um dom de Deus, o que nos dignifica, enquanto seres, acima dos animais. O fato de que nós temos a dignidade de sermos livres, é aí que entra a distinção entre ser humano e animal.

Mas então em que ponto da evolução nós ganhamos uma alma? Quando nos distinguimos do macaco?
O que a teoria da evolução diz não é que nós viemos do macaco. Essa é uma explicação caricatural de seus detratores. A teoria diz que o homem, ou os grandes primatas, têm ancestrais comuns – o que é bem diferente. Em algum momento, há cerca de 2 milhões de anos, surgiram os hominídeos, que evoluíram por meio da alteração do DNA – porque, como nós sabemos, o DNA sofre mutações, que podem levar para melhor ou para pior, e aí entra a seleção natural, descartando os maus resultados Então você tem a evolução: o homo erectus, o homo faber, até chegarmos, há uns 30 mil anos atrás, ao homem de Cro-Magnon, o homo sapiens. Em algum momento neste percurso o homem se tornou auto-consciente, consciente das suas obrigações morais, de que podia definir o seu próprio destino, de que estava vivo e tinha responsabilidades diante dos seus semelhantes e diante de Deus, porque passou a ter experiências místicas, religiosas. Então, isso foi gradual, foi um processo.

O senhor crê que esse fenômeno aconteceu só aqui, no planeta Terra?
Não existe nenhuma evidência científica disso ainda, mas é possível especular sobre a possibilidade, ou mesmo probabilidade disso, já que a natureza segue padrões. Existem padrões para a formação de estrelas, de planetas, para o surgimento da vida.
Nós sabemos, por exemplo, que somente na nossa galáxia existem 100 a 150 bilhões de estrelas. Metade delas tem toda a possibilidade de possuir planetas rochosos, como a Terra, a uma distância favorável ao surgimento de vida como a vida humana.
No universo, existem 100 bilhões de galáxias, cada uma delas com outros inúmeros bilhões de estrelas! São números e grandezas quase incompreensíveis para nós. De modo que afirmar a não-existência de vida em outros planetas, hoje, exige uma fé maior do que reconhecer a probabilidade da existência de vida em outros mundos.

Você concorda que tanto avanço científico e tecnológico contribui para diminuir a fé, no sentido de que, hoje, quase tudo se baseia em uma comprovação “científica” para ser validado?

Não, absolutamente. Nós vivemos numa época de profundo obscurantismo, de preconceito, de superstições, de crendices. O Brasil vive mergulhado em crendices. Poucas pessoas no país entendem o que é a Ciência, conhecem Ciência; Física, Biologia… a vasta maioria da população brasileira está mergulhada num oceano de crendice e superstição.
Por outro lado, é fato que nós vivemos numa era científica e que a Ciência é um sucesso, porque construiu a revolução tecnológica que nos permite comprar boas roupas a baixo preço, ter saúde, vacinas, produzir alimentos em grande escala, transporte de massas, ar-condicionado, microondas, MP3. Graças a Deus nós vivemos esse momento privilegiado, de grande avanço científico e tecnológico.
Deus não precisa da validação da Ciência. Mas a Ciência não é contra Deus. Nunca foi. O próprio Charles Darwin era um cristão, e nunca negou a sua fé. Nós temos que compreender que o cientista não fala sobre Deus porque não é esse o seu papel enquanto cientista. O que não exclui o valor da Teologia e da Religião. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, são dois poderes distintos que se complementam. Essa é a melhor maneira de se colocar a questão.

Então a supervalorização da Ciência e seus achados nada têm ver com o fato do aumento da incredulidade e do ateísmo?

Realmente existem hoje cientistas que são ateístas militantes, e que promovem o combate à religião. Mas esses cientistas são uma pequena minoria barulhenta e não-representativa dos cientistas em geral. A maioria dos cientistas não acredita que seja papel da Ciência militar contra a religião. Procuram o diálogo e a convivência pacífica com a religião. Vivemos em um mundo secularizado, em que as pessoas perceberam que não há necessidade de Deus. Deus não é mais algo que nos preocupa diariamente. E muitas pessoas então se tornaram absolutamente secularizadas.
No entanto, as pesquisas, como as do IBGE, inclusive, evidenciam que praticamente não existe ateísmo. No nosso país, por exemplo, o número de ateus é mínimo. A maioria das pessoas é religiosa, possuem crenças, de variadas espécies. A maioria do povo brasileiro é cristã, e acredita em Deus. De modo que essa visão de que nós vivemos num mundo ateu não é verdadeira.
Realmente, nós às vezes nos comportamos como se não precisássemos de Deus. Mas mais do que nunca quem nos alerta para isso é a própria Ciência. Existem várias formas pelas quais a humanidade pode ser extinta: o holocausto nuclear, o aquecimento global e problemas ambientais, a crise ecológica. Se nós não buscarmos uma espiritualidade que nos aproxime daquilo que Deus propôs para o homem, em termos comportamentais, em termos físicos, nós estamos fadados a sofrer sérias conseqüências, pelo menosprezo às questões espirituais.

E é possível reverter este quadro?
Claro que é possível reverter. O que eu acredito é que nós precisamos crescer do ponto de vista científico, tecnológico, educacional e também espiritual. As pessoas precisam crescer em religiosidade, porque só isso vai fazer com que a gente saiba usar adequadamente todo este conhecimento que nós temos. Hoje nós temos um grande progresso tecnológico, mas um pequeno avanço do ponto de vista da espiritualidade. É como você jogar uma metralhadora no colo de uma criança. A humanidade precisa crescer espiritualmente, para que ela possa ultrapassar essa grande provação que é ter todo este desenvolvimento tecnológico diante dela.

O que diz, exatamente, a teoria do desenho inteligente?
Diz que, por exemplo, há uma série de “coincidências”, circunstâncias sutis, minimamente calibradas, que permitem o surgimento do nosso universo e da vida na Terra. Por exemplo: se a potência do Big-bang (explosão original de onde surgiu o universo) tivesse sido minimamente maior do que foi, as partículas válidas da matéria não teriam se formado. Não haveria estrelas, não haveria galáxias. Nós teríamos simplesmente uma pulverização total desta matéria, e o nosso universo não seria como ele é, nem haveria criação nenhuma, de nada. Por outro lado, se a potência da explosão fosse minimamente menor do que ela foi, a força gravitacional provocaria um colapso e um retorno da matéria, sem criar condições de formação do universo e da vida. Então, foi uma calibragem muito sutil que permitiu que tudo isso acontecesse. Isso nos dá a entender que há um propósito, e que há uma governança sobre os acontecimentos.

E quanto à vida na Terra?
Há uma distância específica entre a Terra e o Sol que permite que o ambiente terrestre seja favorável ao surgimento da vida. Não pode haver vida em Júpiter, nem em Mercúrio ou em Saturno, por exemplo, seja por estarem muito longe ou muito perto do Sol, seja pela sua força gravitacional muito grande. A Terra tem as condições ideais específicas para o surgimento da vida, e o que o desenho inteligente ensina é que todas estas coisas foram programadas por uma Inteligência para que acontecessem do jeito que acontecem. Isto se aplica também à teoria da evolução das espécies de Darwin. Há um processo de leis naturais que permite o desenvolvimento das espécies e da vida humana, do ser humano, conforme aconteceu. Mas este não é um jogo determinista. Existe certa liberdade. O determinismo está nas leis estabelecidas, mas estas leis não determinam que as coisas aconteceriam exatamente como aconteceram; poderiam ter sido um pouco diferentes.

Cite o seu versículo ou trecho da Bíblia favorito.
Existem muitos. Mas pra ocasião cito uma palavra de Paulo que diz assim: “Os judeus querem sinais, e os gregos querem…” – os gregos aqui são os filósofos – “mas nós pregamos Cristo. Cristo crucificado. Escândalo para os judeus, loucura para os gregos”. E realmente a fé tem um elemento de loucura, do ponto de vista da Filosofia e da Ciência, porque ambas existem no âmbito da mera racionalidade. E isso não é algo ruim, a razão é uma coisa boa, e alguém precisa cuidar dela. Existem elementos da fé evangélica que são, de fato, supra-racionais, e, portanto loucura no que se refere à racionalidade. São absurdos, mas isso não quer dizer que sejam sub-racionais, ou irracionais. São elementos que podem estar além das possibilidades da razão. Essa loucura de que nós estamos falando é uma loucura santa, não é ruim; é uma loucura que nos permite enxergar além ainda do que a mera razão nos permite enxergar.

[important color=blue title=Perfil de Ricardo Quadros Gouvêa (PhD)]

  • Possui formação nas áreas de Filosofia, Ciências da Religião, Teologia, História Intelectual, Letras e Comunicação Social
  • Doutor em Estudos Históricos e Teológicos pelo Westminster Theological Seminary, na Pennsylvania, e está em vias de concluir seu segundo doutorado na Universidade de São Paulo
  • Licenciado em Letras pela Fundação do Ensino Superior de Olinda, PE
  • Professor de Filosofia e pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Valores do programa de pós-graduação em Administração de Empresas da Universidade Presbiteriana Mackenzie
  • Foi professor dos programas de pós-graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e da Universidade Presbiteriana Mackenzie
  • Professor de Teologia nos programas de pós-graduação do Seminário Teológico Servo de Cristo
  • Professor visitante do programa de pós-graduação da Faculdade Unida de Vitória, ES
  • Professor de Filosofia da Faculdade Fênix de Brasília, na extensão em Guarulhos, SP
  • Membro-fundador e primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Kierkegaard
  • Membro-fundador da Sociedade Brasileira de Filosofia da Religião
  • Tem artigos publicados em revistas acadêmicas, capítulos de livros como, por exemplo, Um Olhar sobre Ética e Cidadania (Editora Mackenzie, 2003) e O Evangelho de Nárnia (Ed. Vida Nova, 2006) e três livros: Paixão pelo Paradoxo: Uma Introdução aos Estudos de Kierkegaard e Sua Concepção da Fé Cristã (Ed. Novo Século, 2000; 2ª edição pela Fonte Editorial, 2006) e A Palavra e o Silêncio: Kierkegaard e a Dialética entre a Razão e a Fé em Temor e Tremor (Custom/Alfarrábio, 2002) e A Piedade Pervertida: Um Manifesto Anti-Fundamentalista em nome de uma Teologia de Transformação (Ed. Grapho, 2006)[/important]

Entrevista publicada na Revista Comunhão em fevereiro de 2008

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