Luciano Subirá: “Precisamos resgatar o verdadeiro evangelho”

“Você está feliz com Jesus?” “E Jesus está feliz com você?”

Por Luciene Araújo

A reação das pessoas a essas perguntas – risinhos “sem graça”, cabeças baixas e trocas de olhares – já demonstra a atenção que o assunto merece. O tradicional questionamento do Pr. Luciano Subirá, de 46 anos, em suas preleções é sempre um convite à fundamental reflexão sobre se temos sido verdadeiramente discípulos de Cristo, se temos mantido o Evangelho como nossa bússola de vida.

Nesta entrevista exclusiva à Comunhão, o pastor da Comunidade Alcance, em Curitiba (PR), e responsável pelo ministério Orvalho.Com, voltado ao ensino bíblico, falou sobre a importância da leitura, sobre o perigo do relativismo quanto relação à mensagem da fé e sobre a necessidade de encontrar uma forma de comunicação capaz de envolver principalmente os jovens, sem deturpações da Palavra. Confira!

Comunhão – Seu livro mais recente, “Até que Nada Mais Importe”, trata do entendimento incondicional sobre “colocar Deus em primeiro lugar”. Como surgiu essa inquietação?

Luciano Subirá – A mensagem que deu origem ao livro está em Filipenses 3:7-8, onde Paulo diz que o que para ele era lucro passou a não ter mais valor por causa de Cristo. Esse foi o texto que Deus usou há 10 anos para a chave que foi o grande achado na minha vida. Em dezembro de 2007, decidi que 2008 seria o ano da busca por Deus. Fiz três semanas de jejum, ingerindo apenas água e lendo a Bíblia avidamente. Em fevereiro, entramos em uma reunião de pastores, e algo único ocorreu. A partir de um louvor, as pessoas começaram a se prostrar, chorar, deitar no chão. Comecei a chorar muito, sob um sentimento de arrependimento dentro de mim, por não estar buscando a Deus como deveria. Na hora fiquei quase revoltado e, mesmo não tendo verbalizado, pensei: “Com tudo que tenho feito, se não está bom pra você, o que vai estar?”. Naquele momento, o Espírito Santo falou ao meu coração: “Até que nada mais importe”. Não se trata de performance. Mais do que buscar, é querer buscar a Deus de todo o coração.

Está faltando à Igreja entender a necessidade de mergulhar em Deus até que nada mais importe?

Não é a única coisa, mas, das que estão faltando, é uma das mais importantes. Quando perguntaram a Jesus qual o maior mandamento, Ele nem titubeou: “Amarás o teu Deus acima de tudo, com toda a tua alma”. Você consegue imaginar o resultado que seria a Igreja no Brasil, com pelo menos 50 milhões de pessoas, colocando Deus acima de tudo, até que não haja nada que concorra com o que Ele falou, não apenas em termos de devoção, mas também na determinação de andar e viver em obediência? Imagine isso só por um instante!

Nesse contexto, o relativismo da Igreja preocupa?

Preocupa, e muito, porque a gente está relativizando doutrina, integridade, intensidade do relacionamento com Deus, relativizando a missão. E a nova geração lê muito menos, em consequência do entretenimento eletrônico. Parece-me que pensa menos, questiona menos. E isso me faz enxergar uma geração um pouco mais vulnerável às tentativas de nos fazer errar que ao longo da história se repetem. Essa relativização vai entregar de bandeja uma geração menos preparada para se defender.

Qual o impacto do conformismo das pessoas quanto ao “pequeno pecado não tem problema” ou quanto a “tudo depende do querer de Deus”?

Estamos sendo roubados. O pecadinho “não ter problema” é uma armadilha terrível. Cantares 2:15 fala das raposinhas que destroem as vinhas. Porque o dano não é pelo tamanho, mas pela natureza. Esse relativismo é influência do mundo dentro da Igreja. Há uma clara intenção, de movimentos específicos, de roubarem todos os tipos de valores: na família, na sociedade, no plano espiritual. A gente precisa perceber o quanto isso está nos afetando. Precisamos resgatar o verdadeiro Evangelho, cuja ênfase é que sejamos semelhantes a Jesus e não tão parecidos com o mundo, a ponto de não notarem diferença. Todo avivamento na Bíblia e na história tem reforma junto, que é a volta à Palavra, aos princípios. Isso vai nos ajudar a combater a apatia e o relativismo, vai alimentar a paixão dentro de nós e colocar as coisas no trilho.

“Combinar essa Igreja que toca e supre necessidades, mas também discipula e coloca no trilho correto é o caminho de volta para onde nunca se deveria ter saído, que é o exemplo da Igreja do livro de Atos”

Qual a nossa responsabilidade diante de ações charlatanistas praticadas por denominações variadas, como a venda de salvação e de água e óleo santos?

Quem entende a Palavra tem de se posicionar cada vez mais pelo que é correto. Mas não preciso necessariamente travar uma campanha aberta declarada contra determinado lugar. Tenho conhecido muitos ambientes assim pelo Brasil, vendo coisas ruins, mas também muitas coisas boas. E não se pode perder isto de vista: Deus está fazendo muita coisa boa nesta nação. Sei de gente que está pregando um evangelho que nos fere e nos envergonha. Alguns são até bem-intencionados, só não têm preparo, reproduzem um modelo que acreditam ser de sucesso. Então prefiro não julgar. Questionaram-me por que não falo contra essas pessoas. Não preciso, falo contra uma doutrina, estabelecendo outra. Jesus disse que os frutos mostram isso ao longo do tempo. O que digo às pessoas é: “Começou a ter luz e viu que aquilo não tem condições de continuar? Mude a influência que isso tem na sua vida”. Tenho visto muitos líderes passarem a entender e deixar para trás esse tipo de comportamento.

O acesso à verdade e o amadurecimento do espírito passam necessariamente pela literatura?

A leitura faz diferença para tudo na vida. Meu pai costumava dizer que quem lê mais escreve melhor, pensa melhor. Mas, nesse contexto específico, no mínimo a leitura bíblica é que vai ajudá-los, pois alguns desses camaradas que estamos culpando, em uma certa perspectiva, por não ter estudo, são verdadeiros heróis; gente que se converteu, não teve formação e passou a ganhar outras pessoas para o Reino. Agora, tenho visto muitos desses pastores que, quando começamos a guiá-los ao entendimento da Palavra, choram dizendo que nunca enxergaram outra coisa. Talvez, se eu tivesse só batendo nessa turma, não conseguiria ajudá-la. Mas isso não significa que estamos de acordo com as práticas. Prefiro procurar a pessoa e falar com ela a ficar mandando indireta.

O senhor tem um estudo bem profundo em relação aos dons. Eles são para qualquer crente ou são só para os escolhidos por Deus?

Em 1 Coríntios 12:11, a Bíblia é clara. Diz que o Espírito distribui os dons conforme lhe apraz, mas diz também para buscarmos os melhores dons. Quando me perguntam quais são os melhores entre os nove dons descritos, explico que Deus opera em nós o querer e o realizar. Às vezes a própria atração por um dom específico já pode ser fruto de algo que o próprio Deus está tentando fazer. Os três dons do Espírito Santo que mais desejei em minha adolescência são os que até hoje operam mais fortemente na minha vida. Acho que meu desejo era parte de uma provocação de Deus com a qual eu pude interagir. Os dons são para cada cristão, não necessariamente os mesmos dons para todos. Cada um pode e deve se mover em um dos dons do Espírito.

Qual a relação entre as revelações proféticas e a vivência com Deus?

As pessoas não estão entendendo a responsabilidade delas. Algumas pensam que, se Deus falou, Ele vai fazer tudo. A pergunta é: por que Deus falou antes? Quando Ele fala para José que irá levantá-lo à posição de governo, está dando a deixa de que é preciso se preparar. Por isso, José, na casa de Potifar, onde aprendeu a gerenciar provisão, exerceu liderança; na prisão, onde aprendeu a gerenciar escassez, exerceu liderança. Quando Deus falou comigo na adolescência que iria me usar no ministério de ensino das nações, decidi mergulhar na Palavra. Vi gente que recebeu a mesma revelação, não se preparou e não fez diferença na geração dela. Às vezes me convidam para fazer cruzada evangelística na África, juntar 20 mil pessoas. Mas peço para juntarem 200 pastores, porque meu chamado é equipar lideranças. Desejar mais e viver intensamente aquilo que Deus tem para você, esse equilíbrio é um desafio e uma característica da maturidade espiritual.

Com tantas denominações, consegue ver uma Igreja unida?

Acredito que vamos chegar lá, não de forma plena ou perfeita, mas estamos crescendo nesse sentido. John Wesley dizia sempre: “Nas coisas essenciais, unidade; nas secundárias, tolerância; mas em tudo, o amor”. A obra de salvação, da cruz, que requer do homem a manifestação de fé, se isso for mudado, não tem como caminharmos juntos. Mas, se for algo secundário, como a maneira de adorar e de administrar e a liturgia, conseguimos relevar. Se entendermos que a unidade não é uniformidade, e sim respeitar as diferenças e focar o que é essencial, vamos conseguir chegar lá. Tenho boa expectativa de que iremos bem além de tudo o que já alcançamos até hoje.

O que significa “perseverar até a morte na nossa fé” neste mundo cada vez mais individualista, mais egoísta, que valoriza o dia a dia, e não o eterno?

A gente vive uma cultura hedonista, do prazer. Meus heróis de infância eram os amigos de Daniel, que diziam “A gente obedece a Deus, mesmo que custe a fornalha”; era um Daniel, que disse antes de ir à cova dos leões: “Pode me matar, não volto atrás”. O relativismo está roubando isso das pessoas quando elas avaliam: “Não tem problema; não dá em nada; não é bem assim”. Dentro da igreja, principalmente os jovens, quando você começa a falar de santidade, eles repetem um mantra que não entendem: “Legalista, legalista”. Se realmente absorvermos o que é colocar Jesus e o reino de Deus em primeiro lugar e negarmos a nós mesmos, então das coisas que não são compatíveis com o Evangelho abriremos mão. Se realmente levarmos os crentes a esse lugar de entendimento, vamos chacoalhar esta terra.

Comunhão fez uma matéria em relação à Escola Bíblica. Os jovens ouvidos disseram que não têm paciência para lidar com a forma de ensino desse conhecimento. Falta à Igreja inserir novas ferramentas de aprendizagem?

Falta-nos isso. A maioria de nós que hoje tem dificuldade com o comportamento da nova geração esquece que um dia foi jovem e que não se adequava à anterior. Quando comecei a pregar com 18 anos, usava calça jeans e camisa fora da calça. Isso, para o meu pai, era quase um ultraje, porque ele era de uma geração que falava de terno e gravata. Hoje, aos 46 anos, visto a mesma roupa, mas não sou mais o revolucionário, virei o tiozão. Quando olho a molecada de calça rasgada, digo: “Gente, não consigo (risos)”. Não é uma crítica, apenas coisas que jamais vou me adequar. Mas existe um comportamento de conexão que precisa mudar. Cláudio Duarte, que é um fenômeno de conexão com o não crente, contou que a igreja cresceu, não tinha espaço, e ele dava estudo bíblico pros jovens num local onde havia uma parede de um lado e uma tela do outro. Dava pra ver tudo o que acontecia lá fora. Então, para prender a atenção, ele começou a brincar. Levou um skate; falou que era preciso saber cair e levantar e andar sempre para a frente. Daí fez a ligação na Bíblia com José. E viu que mudar a linguagem deu conexão. Esse é o desafio.

“A maioria de nós que hoje tem dificuldade com o comportamento da nova geração esquece que um dia foi jovem e não se adequava à anterior”

Sob o argumento de modernizar a linguagem, está havendo equívocos?

Sim. Temos de contextualizar a comunicação, e não a mensagem, que é imutável. E alguns têm feito isso. Os valores da Palavra não podem ser adaptados, mas a forma de comunicá-los sim. Quando Gutemberg fez a imprensa, ela se tornou uma mídia nova; hoje não é mais. Se hoje estou no YouTube, é por conta do meu filho, Israel, que dizia que eu deveria ter vídeos pequenos. Em nome da velha guarda, eu respondia: “Não vou dar pouca comida a quem tem fome”. Mas Deus me mostrou que eram coisas distintas, trouxe ao meu coração um versículo de Habacuque: “Escreva a visão, grave em tábuas para que possa ver até quem passar correndo”. E não é que tinha versículo até para quem tem pressa (risos)? A partir daí começamos a produzir vídeo de 12 minutos, uma adequação de modelo, mas que mantém a mensagem.

Quais os três principais equívocos que a liderança evangélica tem cometido?

Precisamos voltar a ser a Igreja Bíblica, centralizada na Palavra, que desperta a paixão em todo mundo a respeito dela. Isso é possível, podemos colocar essa paixão na nova geração. A segunda coisa é que temos também de ser uma Igreja que viva o sobrenatural, o poder de Deus. Parece que temos de escolher ser bíblicos da Palavra ou do poder, como se fossem coisas que se excluíssem. Jesus disse: “Errais por não conhecer nem as Escrituras nem o poder de Deus”. A terceira coisa é entender que o maior mandamento é o amor por Jesus. Paulo escreve aos Coríntios: “Se alguém não ama nosso irmão, seja anátema”. Não podemos ter uma geração que busca a Deus só por interesse. Jesus expulsava demônios, curava pessoas para atraí-las e lhes revelar o amor de Deus. Mas depois dizia: “Não é só isso, você precisa buscar a Deus, mudar de vida”. Combinar essa Igreja que toca e supre necessidades, mas também discipula, coloca no trilho correto, que é ser bíblico e foca a paixão pelo Senhor – Deus em primeiro lugar – é o caminho de volta para onde nunca se deveria ter saído, que é o exemplo da Igreja do livro de Atos.


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