Fabiola Melo: um testemunho de superação

O jeito bem-humorado de propagar o Evangelho levou a youtuber Fabiola Melo a virar fenômeno na internet entre os jovens cristãos.

Com 1,7 milhão de inscritos em seu canal, a escritora também é conhecida por ser palestrante e digital influencer, com mais de 1,2 milhão de seguidores somados no Instagram, no Twitter e no Facebook.

Aos 25 anos, ela fala sobre a carreira e como se sente ao ter sido recém-consagrada à pastora, ao lado do marido, Samuel Cavalcante, na Igreja Poiema, em Taubaté (SP).

Nesta entrevista à Comunhão, Fabiola conta, ainda, o que a levou a escrever sua mais recente obra, “A Culpa Não é Sua”, em que relata sobre o abuso sexual sofrido na infância e alerta outras vítimas a quebrar o silêncio. Confira!

Em “A Culpa não é Sua”, você contou sua história de abuso. O que a levou a essa decisão?
Quando compartilhei sobre a experiência que tive com o abuso sexual, já havia passado muito tempo. Eu tinha 7 anos de idade quando aconteceu, mas por alguma razão minha mente bloqueou essa memória. Então passei parte da minha vida sem lembrar que tinha sofrido aquilo. Depois que já estava casada, aos 22 anos, essa lembrança voltou em um sonho. Parecia um pesadelo, mas, quando acordei, comecei a me lembrar dos detalhes e percebi que se tratava de uma memória reprimida. Lembrei a roupa e a botinha que eu usava, detalhes, como se tudo tivesse acontecido ontem. Naquela mesma semana, tive uma série de sonhos envolvendo abuso sexual e fiquei perguntando a Deus o que isso queria dizer, o que Ele queria que eu fizesse a respeito. Não entendia por que aquele assunto estava sendo tão recorrente na minha mente naquela semana. Então orei e conversei com minha família e alguns líderes, que me orientaram a falar ainda mais sobre o abuso sexual. Foi daí que tive a ideia de escrever o livro.

Você recebeu apoio quando decidiu compartilhar o que havia sofrido na infância?Sim, recebi muito apoio dos meus pais e de amigos pastores, e já os vejo defendendo que a igreja se torne um local menos perigoso possível. Sabemos que nenhum lugar hoje é 100% seguro, nem a sua casa, nem a escola, nem muito menos a igreja. A pessoa que comete abuso não tem cara de abusador. Ele tem o perfil carismático e se disfarça muito bem. Pode estar em qualquer ambiente, inclusive dentro da família. No primeiro capítulo, eu conto a experiência que tive e, também, que não carrego mais nenhuma culpa, por isso é que eu escrevo esse livro. Para que as vítimas também não carreguem esse peso. A culpa é uma prisão muito injusta, ela nos coloca em uma prisão quando a chave está dentro do bolso.

Em muitos casos, mesmo que a vítima relate o que houve, o agressor não é punido. O fato de muitas vezes não haver denúncia se dá por vergonha da vítima ou pelo histórico de impunidade no Brasil?
O conjunto das duas coisas. Como se trata de algo muito forte, a vítima fica constrangida. É um assunto que gera olhares tortos. E tem também a questão da impunidade no Brasil, que não é restrita só a casos de abuso, mas abrange tudo. Às vezes, o agressor não é punido porque as vítimas não conseguem provar, muitos abusos não deixam marcas corporais. No meu caso, o abusador não foi preso porque não denunciei na época. Eu era criança, não tinha entendimento, não cheguei nem a falar com os meus pais, porque o abuso era um assunto totalmente alheio na minha cabeça. Eu não tinha noção do que estava passando. O abuso que sofri não se enquadra como relação sexual, foi um toque indevido. Muitas pessoas acham “Ah ele só tocou” e, na verdade, isso também é abuso sexual. Cresci sem saber o que tinha passado em toda a sua dimensão. E, quando me lembrei disso, não tinha mais contato com o abusador. Hoje, nosso desejo é que nem uma vítima esteja alheia à informação como eu estava quando aconteceu comigo. As vítimas devem falar e denunciar.

Qual seu conselho para vítimas que optam por sofrer em silêncio?
Meu conselho é que, no tempo certo, procurem o melhor momento para conversar com alguém. As dores guardadas em silêncio se tornam mais fortes. Quanto menos você fala sobre aquilo, mas aquilo tem poder sobre você. Quando você conversa com alguém, isso é semelhante a dividir aquele fardo com outra pessoa. Não porque você vai sobrecarregá-la com seus problemas, mas porque vai ouvir, de alguém que te ama, uma palavra de esperança e ânimo. Se está numa fase em que prefere se resguardar, respeite, mas que ela não dure para sempre, que não seja um fardo na sua vida. Quando decidi romper o silêncio e falar sobre o que passei, não foi fácil. Em “O vídeo mais difícil que eu já gravei”, não estava falando sobre minhas feridas, mas das minhas cicatrizes. “Feridas falam sobre dor; cicatrizes falam que você sobreviveu”. Quando trata uma área da sua vida, você consegue falar dela. E, quando fala, ajuda outras pessoas.

Alguma vez ficou revoltada com Deus?
Nunca permiti à minha mente andar por esse caminho. Falo no livro: “Você não pode impedir que os pássaros voem sobre a sua cabeça, mas pode impedir que façam ninhos sobre ela”. A Bíblia aponta que o mundo jaz no maligno. As pessoas fazem coisas ruins, agem com crueldade, e, por estarmos no mundo, estamos sujeitos a essas coisas. Então, não posso impedir que eu passe por um sofrimento, mas posso impedir que essas feridas ditem quem sou. Posso impedir que coisas ruins pelas quais eu passo tenham poder sobre minha vida. É isto que falo às vítimas: “Você não pode evitar o que uma pessoa fez com você, mas pode evitar que isso influencie as suas atitudes e que defina a sua identidade”. Não pode controlar as coisas que acontecem, mas pode controlar como reage ao que acontece.

Como foi a decisão de inserir relatos reais de abuso sexual no livro?
Fui motivada a escrever o livro pelas histórias que recebi assim que gravei o vídeo contando o que havia sofrido. Abri um endereço de e-mail para que as meninas pudessem me mandar seus relatos. Em poucos dias, havia 6 mil mensagens. Uma história mais dolorosa que a outra, inclusive de pessoas que nunca tinham contado para ninguém sobre terem sido vítimas de abuso. Então pensei: “Se essas vítimas souberem quantas pessoas passam pelo mesmo que elas, talvez se sintam mais abraçadas”. Foi quando incluí os relatos no livro, com o intuito de mostrar que o abuso sexual acontece muito e há muito tempo. Um ato de coragem desencadeia outro ato de coragem. Aquelas vítimas terem exposto as suas histórias foi um ato de coragem. O livro é de uma pessoa que sofreu abuso falando para outra pessoa que passou pelo mesmo sofrimento. É um livro profundo e cheio de mensagens de esperança, que tira o fardo de cima da vítima. Recebi relatos de que não é uma leitura fácil, porque vai mexendo nas feridas. Mas, no último capítulo, a pessoa consegue sentir paz e mais leveza. Consegue entender qual é o caminho que deve seguir.

O livro é destinado apenas às mulheres?
A linguagem do livro, em sua maior parte, se dirige ao público feminino. Decidi escrever de forma mais direta, porque 80% do público que me acompanha é de mulheres. Mas muitos rapazes se sentem abraçados com a leitura, porque vai ao encontro do que passaram. Homens também sofrem abuso sexual. Existe um preconceito ainda maior quando as vítimas são homens, o que os fazem não querer falar, guardando segredo muito mais que as mulheres.

Qual a sua expectativa com o lançamento deste livro?
Aconselhar. Esclarecer o que enquadra o abuso sexual, já que é um assunto pouquíssimo abordado. O livro fala sobre mitos e verdades em relação ao abuso, traz alívio para a alma, porque trata de maneira profunda, e também traz esperança. Muitos pais têm receio pensam: “Ah, em que momento vou falar sobre isso?” Mas eles precisam esclarecer para a criança o que é um abuso, o que não pode acontecer, como não podem tocar em seu corpo, o que se enquadra no cuidado de amor e o que se enquadra em um “carinho” perigoso, para que elas fiquem mais seguras. A informação traz segurança.

O livro chega ao público em um momento em que você busca ser mãe. Qual a melhor postura dos pais para evitar um abuso? Faltam conversas claras?
Os pais precisam ter o hábito diário de conversar e estar presentes na vida de seus filhos. Geralmente, com a correria do dia a dia, acabam delegando essa função a parentes ou vizinhos. Sei que muitos vivem numa situação complicada, de não terem com quem deixar seus filhos, mas o diálogo é muito importante porque, ainda que passe o dia com outra pessoa, se a criança tiver o hábito de conversar com os seus pais e alguma coisa acontecer, não vai guardar segredo. O mais terrível do abuso é quando ele se torna recorrente. Se o abuso se torna constante, é porque não existe diálogo, e a criança continua calada, continua vulnerável.

De que forma a igreja pode contribuir para a prevenção e combate ao abuso sexual?
Conversando mais sobre o assunto e instruindo pais e responsáveis por crianças de como devem agir. As igrejas têm essa função, e já vejo muitas se mobilizando em relação a esse assunto, fazendo conferências sobre abuso sexual, a fim de enfatizar a segurança da criança. Um exemplo que vivenciei foi de ensinarem as crianças a gritarem em situação de perigo. Parece uma coisa boba, mas, nessa situação em que tentam silenciá-la, será importante, porque alguém vai em direção ao grito dela.

A que atribui o crescimento do seu ministério na internet?
Comecei minha carreira no YouTube em 2012, quando fazia um vídeo a cada quatro meses. Mas somente em 2014 passei a produzir com mais empenho e a publicar um vídeo por semana. Quando me perguntam sobre o meu crescimento na internet, costumo responder que fiz a minha parte. Me esforcei, me dediquei… Muitas vezes, no início, precisei gravar durante a madrugada para ter mais silêncio para os vídeos, porque eu morava em uma rua muito movimentada. Então fiz a minha parte. Mas também atribuo à graça de Deus, que sempre projeta quem Ele quer. Diante do nosso esforço, a vontade dEle prevalece. Além disso, meus pais, que são pastores, me instruíram muito bem, sempre fui muito obediente a eles, busquei ser uma filha temente, que escuta o que falam. Tenho pais incríveis, que plantaram muitas coisas boas e ensinamentos em mim, e aí foi só regar as sementes que eles lançaram. Sou muito grata a eles e sei que muitas coisas que vivo hoje é por conta das coisas que plantaram e acabei colhendo.

Já se acostumou com o recente título de “pastora Fabiola Melo”?
No início foi bem difícil. Não que eu já tenha me acostumado, às vezes até me esqueço disso e talvez nunca me acostume, mas acabo lembrando que não é só um título, pois para mim é familiar o praticar no dia a dia. O hábito de cuidar das pessoas, aconselhá-las, é algo que faço há um bom tempo. No início, não me achava capaz, até fiz um vídeo no canal com mais detalhes sobre o ministério pastoral. Não é algo fácil, exige muita renúncia, esforço e muita força de vontade, mas Deus foi me direcionando e me mostrando que, com Ele, eu consigo.

Recebe críticas por encarar o Evangelho de forma bem-humorada?
Em qualquer coisa que você faça, as críticas vêm. Felizmente recebo mais apoio do que críticas, e isso acaba fortalecendo a gente também. A origem da crítica tem de ser analisada: se vêm de pessoas que considero, que respeito, serão bem recebidas, aceitas. Mas elas vêm de pessoas que não conheço, que não me conhecem de verdade, que só me veem pela internet, acabo relevando essas coisas.

 Deixe uma mensagem aos leitores da Comunhão que estejam passando por um momento difícil ou já sofreram um constrangimento que traz dores.
Diante de situações ou períodos delicados, muitas pessoas tendem a ter a fé abalada e sentem vontade de murmurar. Mas meu conselho para essas pessoas é que criem o hábito de confiar em Deus. Essa confiança não é uma experiência única e isolada, deve ser praticada. Ainda que não entenda as razões para aquela fase ocorrer, manter a certeza no valor do propósito de Deus para sua vida vai ajudá-lo nessa jornada e direcionar os olhos para o seu Deus. Quando você fica revoltado, tende a olhar para as circunstâncias e duvidar; mas quando olhamos para Jesus, recebemos a força necessária para continuar um dia após o outro, em todo momento glorificando a Deus, porque Ele nunca perde o controle.

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