Papo aberto com o pastor Anderson Silva

“A Igreja precisa temer ao Senhor, sair da zona de conforto e amar a própria reputação”, afirmou o pastor Anderson Silva

Por Priscilla Cerqueira

Polêmico, despojado e moderno, mas com o dom da palavra. Anderson Silva, 34 anos, tem chamado atenção ao atuar em frentes até então consideradas tabu na Igreja evangélica tradicional no país.

Casado, pai de três meninos e formado pelo Centro de Treinamento Bíblico Uhema, o alagoano que mora em Brasília (DF) entende a tamanha importância da família, pois “é o plano piloto de Deus para alcançar e abençoar as nações”, e reconhece que o Evangelho pode mudar o mundo, assim como sua vida foi transformada por Deus há 21 anos, quando se converteu.

E como discípulo resolveu fazer de sua vida uma missão para alcançar pessoas, mas de forma diferente. Tanto que Anderson foge do padrão tradicional dos líderes religiosos: tem tatuagens pelo corpo e não se veste de maneira convencional.

Plantador da Igreja “Vivo por Ti”, que atrai o público jovem, comunidade LGBT e missionário de tribos urbanas, Anderson é polêmico em suas pregações. Chegou até a sofrer hostilidade e resistência: “Perdi amigos pastores e algumas igrejas romperam o relacionamento conosco”. Mas incentiva as igrejas a saírem da zona de conforto e amar a própria reputação. Confira a entrevista exclusiva à Comunhão!

Como foi seu início da fé e o que representa o Evangelho na sua vida?

O Evangelho me transformou, é o meu chão. Eu amo Jesus e a Palavra de Deus, pois amá-lO e segui-lO é voltar a viver como eu viveria se Adão não tivesse pecado. Eu me torno quem eu sempre deveria ser através do Evangelho. O Senhor é tudo na minha vida. Se eu amo a Deus, amarei o que Deus ama, se eu O adoro, serei o que Ele quer que eu seja na vida do outro.

Ainda bem jovem você se tornou um líder evangélico de referência no país e hoje vemos parte da juventude da Igreja se perdendo para o mundo. Como andar com Deus e ter uma vida consagrada sem se desviar do Evangelho e cumprir o Ide?

A grande migração hoje de jovens que não querem congregar ou que estão se desviando da fé é um fenômeno pós-moderno. Mas por parte da Igreja há uma falta de reflexão atual do pastor, pois está respondendo a uma pergunta que foi feita 30 anos atrás. Pastor quer discutir se tatuagem pode ou não pode. Essa é uma pergunta que está defasada. Hoje o jovem quer saber por que não pode usar droga e continuar sendo crente, por que não pode homoafetividade ou ter um relacionamento aberto entre quatro pessoas. A juventude quer fazer perguntas reais e concretas e quer que os pastores respondam a isso de maneira concreta. O jovem atual quer honestidade e comunhão real e não quer mais que o Evangelho seja uma mera teoria.

Como se deu seu despertar para o ministério pastoral?

O coração paternal de Jesus é doado a você, então passamos a enxergar o mundo e as pessoas como Ele enxerga. Não é o que você quer, e sim o que o Senhor quer e lançou no seu coração para fazer a obra, pois o coração dele foi doado ao seu.

Há 12 anos você iniciou ministério evangélico Missões Urbanas e Contracultura, no qual realizou grandes eventos entre as tribos urbanas no Distrito Federal. Fale um pouco desse trabalho, que se tornou conhecido no Brasil.

Foi minha escola, pois provei para mim, para Jesus e para Igreja que eu era uma pessoa apaixonada por Cristo. Ali descobri que amava mais o mundo do que a Igreja, então eu desacelerei como missionário. E quando me tornei pastor percebi esse desequilíbrio, pois amava os de fora e odiava os de dentro. Isso não é ser evangélico. Deus ama o perdido e o filho. Para nós, missionários, quando somos radicais, achamos que Deus odeia a Igreja e ama o mundo. Essa experiência colaborou para que eu me tornasse um líder mais equilibrado e maduro.

Diferentemente do convencional, você implantou a Igreja “Vivo por Ti”, com grafites, fotografias e desenhos nas paredes. E atrai um público, via de regra, diferenciado como a comunidade LGBT. Fale um pouco desse ministério.

Nós somos uma igreja normal, com um pastor anormal. Não necessariamente a nossa igreja é configurada só com esse público minoritário. O que acontece é que eu tenho facilidade em produzir conteúdo e contextualizar para os mais variados públicos, inclusive o de homossexuais. É mais uma questão social, e não uma questão de igreja local, que tem a senhora de 80 anos, o policial, o tatuado e o homossexual.

 

“Eu perdi toda a minha equipe de liderança, 70% do dízimo da igreja e minha reputação com a Igreja brasileira, mas foi o tempo de adoração, firmeza bíblica e de compaixão”

 

Enfrentou algum tipo de resistência por parte da igreja ao dar oportunidade para esse público interagir no culto? Como lidou com isso?

Eu perdi toda a minha equipe de liderança, 70% do dízimo da igreja e minha reputação com a Igreja brasileira na época, mas foi o tempo de adoração, firmeza bíblica e de compaixão. Eu tive que lidar com os dois extremos: o conservador, da igreja, que queria que eu ficasse com a Bíblia, mas sem as pessoas; e o liberal, fora da igreja, que queria que eu rasgasse a Bíblia e ficasse com amor. Tive que enfrentar esses dois públicos e perdi amizade e reputação. Mas o tempo provou para a Igreja brasileira que nós não queríamos desrespeitar a Bíblia, e sim implantar um ambiente que ainda não tinha sido explorado.

Você foge do padrão tradicional dos líderes ministeriais: tem tatuagens e não se veste de maneira conservadora. Por que que adotou esse estilo? Ele faz diferença na aproximação com os jovens e outras pessoas que ainda não tiveram contato com a verdade?

Eu discordo desse ponto de vista. Eu sou um cara tatuado, mas bem convencional. A pessoa de fora se identifica porque é todo tatuado, e a pessoa de dentro se identifica porque é convencional, diferente, mas que no fim vai respeitar a família, a tradição e a palavra e que ama um terno e gravata. É por isso que eu acho que a Igreja nos respeitou.

E esse assunto sobre tatuagem e piercing, que é um tabu na Igreja? Qual sua opinião?

Acho que esse assunto está defasado. Tenho 21 anos de conversão e raramente falo sobre isso, pois acho que não faz sentido. São dois excessos: quem quer fazer e não tem motivo bíblico para fazer e quem não quer fazer, fazendo a sua experiência própria na doutrina. O que prevalece é o bom senso. Assim como a gente não tem base bíblica para fazer churrasco, discutir sobre tatuagem para mim é o mesmo tipo de banalidade, não é um assunto essencial da fé.

 

“Família é o ponto de partida para a qualidade que a Igreja deveria ter. Famílias fracas, Igreja fraca; famílias fortes, Igreja forte”

 

Você declarou que antes de ministrar gosta de ouvir música que desperta o ódio. Qual a vantagem de um sentimento ruim ao se preparar para uma missão tão importante? 

Eu tenho facilidade de ver o diabo no gospel e de ver Deus no secular. Consigo ouvir Deus fora da Igreja e ali tenho uma linha de comunicação com quem não é cristão; e consigo perceber o diabo dentro do gospel. O sentimento ruim me leva à centralidade de Jesus, ao sentimento bom. Então, o que a pessoa está fazendo de ruim me leva ao entendimento do que é certo. Não é que eu estou ouvindo e tendo prazer naquilo; é que quando eu ouço a dúvida dele eu passo a ter certeza do que eu creio. Essa é a lógica.

Vivemos hoje tempos difíceis, no qual o modelo familiar está bem conturbado e problemático. Qual deve ser a postura do cristão?

Família é o ponto de partida para a qualidade que a igreja deveria ter. Famílias fracas, Igreja fraca; famílias fortes, igreja forte. Antes de querer confrontar, é preciso perguntar se estamos vivendo a plenitude dentro de casa, que implica sermos exemplos. Ou seja, não adianta querer combater a ideologia de gênero se saímos do culto e vamos ver pornografia. Não adianta dizer que o mundo está errado se você não está certo. É preciso viver na verdade, e isso começa dentro de casa, pois a família é o plano piloto de Deus para alcançar e abençoar as nações. Tudo que Deus faz na nossa vida começa dentro do nosso lar.

A literatura contribui para a transformação na vida do ser humano, inclusive você menciona isso em suas ministrações. Além da Bíblia, o que fez alterar sua cosmovisão cristã e crescer espiritualmente? 

Ler tudo com filtro cristocêntrico. Não é porque não é cristão que eu não posso enxergar com os olhos de Jesus, e pelo menos aprender 1% com aquilo que não é cristão. Não é porque não é evangélico que não coopera, então leio tudo.

 

“A Igreja consegue viver muito em adoração, mas não consegue viver em justiça, pensa em avivamento e amar a Deus, mas não em amar ao próximo. É preciso ser equivalente, o tanto que eu adoro a Deus é o tanto que eu sirvo às pessoas”

 

Você também ficou conhecido por implantar o ministério itinerante, levando a Palavra por todo o Brasil. O que o levou a finalizar esse ministério para se dedicar à igreja local? Quais as principais diferenças entre essas duas formas de evangelizar?

Eu cansei do universo gospel e de me considerar um famoso de um sistema que não funciona. O pastor local leva a banda e o pastor famoso para ter fama na cidade. E o pastor famoso e a banda famosa fazem para ter visibilidade e o retorno financeiro, que vai fazer com que aquilo funcione. E no meu caso o inconformismo é que talvez ninguém esteja ganhando, a não ser o que se ganha de fato financeiramente. Com a igreja local, você consegue transformar melhor. Eu não consigo transformar a vida de ninguém numa “agenda” apenas. É um processo. Uma pregação pode inspirar pessoas, mas o que transforma a pessoa são o envolvimento com a igreja local, discipulado, membresia, disciplinas espirituais e paternidade espiritual, com pastor e mentor. O meu inconformismo vem disso, pois a gente cria um sistema que não funciona.

A Igreja precisa sair da zona de conforto? Por quê?

A Igreja precisa temer ao Senhor, sair da zona de conforto e amar a própria reputação. Para isso tem que estar disposta a não ser amada por todos. Um exemplo está em Mateus 24 e 25, que diz que tudo que pertence ao Senhor a Ele voltará. Precisamos temer o fato de que Deus criou o mundo e tudo é dEle, mesmo estando conosco. A Igreja consegue viver muito em adoração, mas não consegue viver em justiça, pensa em avivamento e amar a Deus, mas não em amar ao próximo. É preciso ser equivalente, o tanto que eu adoro a Deus é o tanto que eu sirvo às pessoas. A Igreja precisa despertar nesse ponto. Ela não considera que a prática da justiça é tão comum quanto a vida de adoração. Nós, pastores, investimos tudo o que geramos em estrutura, e não em justiça. Isso é desequilíbrio diante do Senhor. Precisamos congregar e agir, adorar a Deus e amar ao próximo. Nesse ponto a Igreja está dormindo.

Ainda sobre a Igreja, muitos pastores hoje estão doentes e deprimidos, e em alguns casos tiram a própria vida. Você chegou a citar em sua rede social que estaria se dedicando ao cuidado de líderes ministeriais. Como vê essa questão do suicídio de pastores e como está se engajando nesse debate?

Não são pastores, e sim seres humanos em depressão. Mas isso é um fenômeno da pós-modernidade. Eu vejo isso a partir do aspecto tecnológico, pois o mundo se tornou um só por meio da tecnologia, da internet, que gera ansiedade, principalmente em rede social. Muita informação para pouca capacidade de assimilar. Justamente por causa disso que o ser humano adoeceu. Eu já tive crises de bornout no ministério, consigo me identificar e não julgo as pessoas. Existe a depressão, que é uma questão de saúde pública, que tem a ver com a instabilidade hormonal, uma disfunção cerebral química. Mas diante de Deus tudo é colocado em xeque. Não é simplesmente dizer que a pessoa está em depressão, se matou e vai para o inferno. Temos que deixar para Deus fazer o julgamento, e a gente se identificar com quem sofre para ajudar. Como pastor o meu foco é de compaixão pelas almas.

 

“Eu cansei do universo gospel e de me considerar um famoso de um sistema que não funciona”

 

Como podemos ser cristãos no ambiente de trabalho?

A gente acha que pregar o Evangelho no ambiente de trabalho é abrir a Bíblia e falar de Deus. Mas, para mim, é o contrário, pois você assimilou tanto a Bíblia que você é a Bíblia. No serviço, somos contratados para trabalhar, e não para pregar. Mas podemos sim pregar com as nossas atitudes concretas, cristocêntricas, como alguém que tem dedicação extraordinária ao trabalho, que está disponível, sorridente, que é leal e que chame atenção das pessoas pelo comportamento diferenciado, de um verdadeiro cristão. Podemos ser empreendedores missionais, usar a nossa profissão para a glória de Deus, levando a mensagem do Evangelho, pois nós somos o povo do Senhor e neste mundo de incertezas temos a solução.

Quais são os seus projetos daqui em diante? 

Tenho 14 projetos sociais e missionários espalhados pelo mundo. É por causa deles que também estou parando, além da igreja local. É o trabalho com pastores em depressão, crianças autistas e mulheres vítimas de violência. Minha visão social tem sido bem ampla, e tenho me dedicado a esses projetos no Brasil e na África, principalmente.

Uma mensagem aos leitores de Comunhão.

Jesus Cristo está voltando e nós moraremos com Ele para sempre. Mas, se nós não estivermos fazendo o que Ele nos ordenou, teremos de prestar contas do que não fizemos. Pecado não é só o que fazemos, mas também o que deixamos de fazer. É preciso depender de Deus, e não das circunstâncias. Sejam firmes, fiéis e frutíferos na presença do Senhor, e Ele vos abençoará. Que Deus conduza e transforme a vida de cada um de nós.


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