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quinta-feira, 11 agosto 2022

Dízimo: entrega feita com alegria

Foto ilustrativa

Qual tem sido o nosso sentimento naquele momento do culto que é separado para a entrega dos dízimos? Muitos membros de igreja acreditam que Deus vá castigá-los se eles não depositarem nas sacolas ou nos gazofilácios os 10% do dinheiro recebido de seu trabalho.

Com medo de algum castigo divino, entregam a quantia, mas o fazem de rosto emburrado, de mãos cerradas, de corações pequenos e de mentes voltadas para o lado material.

O Senhor já alertou na Bíblia sobre como deve ser feita a entrega: “Porque Deus ama ao que dá com alegria (II Coríntios 9:7)”. É com esse sentimento que o cristão deve se colocar perante o Pai, em forma de adoração por tudo o que Ele tem dado para o seu sustento.

Dízimo é a décima parte da renda consagrada ao Senhor e nasceu não como uma ordenança, mas sim como um ato espontâneo no coração do homem. A ação aparece na Bíblia como prática dos patriarcas, mesmo antes de ser instituída como lei em Israel. Em Gênesis 14, Abraão dá o dízimo a Melquisedeque e em Gênesis 28 Jacó também fez votos de dar a Deus o dízimo de tudo o que o Senhor lhe concedesse.

“Ele nasceu no coração do homem, na pessoa de Abraão, em um ato de gratidão e reconhecimento da soberania de Deus sobre a sua vida. Depois é que o dízimo foi se tornando uma prática. Mas não deixa de ser também uma ordenança, já que o profeta Malaquias assim se expressou: ‘Trazei todos os dízimos à casa do tesouro (Mal. 3:10)'”, afirma o diácono Jadilson Duarte Freitas, da Primeira Igreja Batista de Vitória.

O pastor Marcelo Nunes, da Igreja Metodista Memorial de Vitória, no bairro Itararé, destaca que o dízimo deve ser uma ação de amor, de obediência. “Dizimar é um testemunho muito bonito, sobretudo para o incrédulo, que acha isso um escândalo. Mas nós temos a certeza do amor de Deus e quando devolvemos parte do que recebemos, mostramos fé, mostramos que o Senhor controla as nossas vidas e que reconhecemos isso. Até porque o que temos não é nosso, é de Deus”, disse.

Na igreja liderada por ele, os dízimos são recolhidos apenas uma vez por mês, no primeiro domingo de cada mês, e ajudam a sustentar inclusive uma casa de recuperação com 25 pessoas, na Serra. “O dinheiro é material e vai ficar aqui na terra quando morrermos. Ele não vai para o céu. A única forma de levá-lo para o céu é transformá-lo em vidas restauradas. Quando vemos o que Deus tem feito na vidas das pessoas, entendemos a importância de devolver o dízimo”, afirmou o pastor Marcelo.

No caderno pessoal de controle financeiro, os 10% do Senhor devem ser o primeiro item da lista, orienta o pastor Celso Godoy, da Missão Batista do Romão, em Vitória. “Muitos colocam o dízimo lá embaixo na lista porque acham isso um sacrifício. Deus não ama a quem dá compressão. Ele ama a quem dá com alegria”, destacou.

O pastor ainda faz um alerta sobre qual o real objetivo do dinheiro entregue como dízimo: “Não é uma obrigação nem uma gratidão. É a forma que Deus fez para manter a igreja. É triste ver que muitos calculam até as moedas do que tem que entregar de dízimo. Já me perguntaram se tem que dar o dízimo do salário bruto ou do líquido. E aí eu questiono: ‘Você quer bênçãos no bruto ou no líquido?’. Muitas vezes fazemos da entrega do dízimo um ritual, mas não deve ser assim”.

Já o pastor Pedro Rodrigues da Silva Filho, do Departamental de Mordomia Cristã da Associação Espírito-santense da Igreja Adventista, ressalta que muitos acreditam que dízimo é algo que pode ser usado para fazer barganha com Deus.

“Essas pessoas pensam: ‘vou dar o dízimo para conseguir essa bênção’. Não temos que aceitar a teoria de que se você quer uma bênção, tem que dar dinheiro primeiro. Deus não trabalha assim. Ele diz que vai abrir as portas dos céus para quem for fiel. Se você não dizimar, perde a oportunidade de ter uma relação íntima com Deus, mas não vai ser castigado por isso. Deus dá primeiro para depois pedir. Nosso Pai não é um deus que se irrita e lança vingança porque não estamos dando o dízimo. Devemos entender que somos mordomos, servos de Deus. O dinheiro que recebo não é meu, é de Deus, assim como os meus talentos, o meu tempo. Eu apenas tomo conta”, declarou o pastor Pedro.

Mas como fazer a igreja entender a importância de entregar o dízimo com alegria? O pastor Ivonildo Teixeira, fundador da Igreja do Nazareno no Espírito Santo, dá algumas orientações: “É preciso primeiro reconhecer que Deus confia tanto em nós que nos permite administrar os 100%, ao ponto de saber que, como bons mordomos, devolveremos a parte sagrada, os dízimos. Segundo, devemos ensinar que não podemos ficar com nada que não nos pertence. E em terceiro lugar: o ministério depende exclusivamente dos dízimos. Temos que reconhecer que a casa do Senhor é sustentada por esse dinheiro”, disse, citando o texto bíblico em I Crônicas 29:3 – “Porque amo a casa do meu Deus, o ouro e prata particular que tenho, dou para a casa do meu Deus”.

Crianças também contribuem

Fazer as crianças entenderem a importância da fidelidade nos dízimos requer criatividade por parte dos líderes dos trabalhos infantis nas igrejas, como contar histórias e distribuir cofrinhos. O mau exemplo de alguns adultos, que recebem regularmente seus salários e não entregam os 10% na igreja, pode prejudicar todo o aprendizado das crianças, que dependem da mesada ou de dinheiro para lanche e oferta vindo dos pais.

A líder do Ministério Infantil da Igreja Assembléia de Deus Desafios, na Ilha de Santa Maria, na capital, Elisabeth Mendes Vitória, relata que as crianças participam junto com as famílias, dentro do templo, do momento do ofertório. Só depois seguem para o culto infantil.

“Deixamos as crianças participar do momento do ofertório com as famílias. É um momento muito especial do culto. A igreja tem sempre uma palavra ou testemunho sobre dízimos e ofertas e depois as pessoas se levantam para entregar sua oferta de gratidão. Muitas crianças levam suas ofertas nesse momento ou acompanham os pais até o altar”, explicou.

Obedecendo a instrução dada pelo sábio rei Salomão em Provérbios 22:6, “Ensina o menino no caminho em que deve andar, e, ainda quando velho, não se desviará dele”, os líderes do ministério infantil da igreja contam às crianças histórias sobre fidelidade no dinheiro e também relatam passagens bíblicas que mostram a importância do compromisso e as bênçãos que Deus dá para quem é fiel.

Elisabeth ensina que há muitas passagens na Bíblia que podem ser trabalhadas de forma criativa para que as crianças entendam a bênção de dar, desprender-se, crer que a provisão vem de Deus. Como em Marcos 6:30-43, quando o menino entregou seus cinco pães e dois peixes para Jesus e Ele alimentou uma multidão e ainda recolheu 12 cestos cheios.

“Para quem será que deram os cestos que sobraram? A Bíblia não fala, mas creio que aquele menino não chegou em casa de mãos abanando. Pelo contrário, sua família foi impactada pelo milagre que Jesus operou naquele dia e teve alimento de sobra para passar vários dias. Não é assim que está prometido lá em Malaquias 3:10? E as crianças precisam saber que Deus sempre cumpre o que promete”, exemplificou Elisabeth.

Poucos se envolvem

Pesquisas feitas em igrejas no Brasil apontam que, em média, menos de 60% da membresia são dizimistas. Já o pastor Ivonildo Teixeira, em um levantamento realizado em mais de 547 igrejas, apurou que apenas 25% dos membros são realmente fiéis mensalmente. Se forem avaliados os dízimos entregues um mês sim, outro não, essa porcentagem, segundo ele, vai para cerca de 30%.

“Para aumentar a arrecadação, muitas igrejas chegam a fazer promoção do dízimo e anunciam: ‘Aqui o dízimo é 8%, 7%’. Isso é um absurdo. Deus vai sustentar a Sua igreja com o que for entregue, não importa se apenas 10% dos membros forem fiéis. Deus é maior que tudo, Ele é o Senhor dos senhores”, afirma o pastor Marcelo Nunes.

Mas a infidelidade dos cristãos faz com que a Palavra de Deus deixe de ser levada em muitos lugares, e muitos morrem sem conhecer o Evangelho da salvação porque os recursos não são suficientes para a expansão da obra. O pastor Pedro Rodrigues Filho explica que haveria muito mais igrejas e missionários se a fidelidade aos dízimos fosse maior.

“Quando deixamos de dar o dízimo não vamos ser castigados com isso, mas atrasamos o avanço do Evangelho, da obra de Deus. Se todos fossem fiéis, onde há um missionário, teríamos dois, três. Onde há um pastor, teríamos dois, três. Precisamos como cristãos entender que dízimo não tem nada a ver com o homem, tem a ver com Deus. Muitos têm a idéia: ‘não gostei desse pastor, então não vou entregar o dízimo’. Esse é um pensamento errado”, disse.

No mês de outubro deste ano, algumas igrejas católicas no Estado passaram a aceitar a entrega do dízimo em cartão de crédito como forma de aumentar a lista de dizimistas. A prática levantou uma discussão entre padres, mas também entre pastores evangélicos. Muitos discordam, mas outros acreditam que o importante é o espírito de adoração e não a forma como a quantia é dada.

“Sou contra tal prática. Isso me cheira a negócios: coma aqui, e pague ali. Jesus falou: ‘A minha casa será chamada casa de oração’. É como se colocasse as pessoas no canto da parede: ‘Se você não tem dinheiro, papel, moeda, nem cheque, entra aqui na maquininha’. E, o pior, pelo fato do dízimo e as ofertas serem um ato prazeroso, ao entrar em uma fila para devolver o dízimo e dar as ofertas, o espírito não será diferenciado se eu estivesse em uma fila de uma loja ou de um supermercado. Os dizimistas devem ter um ambiente de prazer, gozo, alegria e gratidão, trazendo ao altar suas primícias e ofertas”, ponderou o pastor Ivonildo.

Já o pastor adventista Pedro Filho não avalia a prática como um problema: “A Bíblia diz ‘trazei todos os dízimos à casa do Senhor’. O ato de entregar é muito significativo, por isso acho que é importante que o adorador leve à igreja o envelope, mesmo que seja com dinheiro, cheque, depósito bancário ou também um comprovante de cartão. Não vejo problema, se for feito em forma de adoração”.

A entrega do dízimo deve ser feita, antes de tudo, com coração sincero. O dinheiro depositado é de Deus, assim como os outros 90% que são separados para manter a casa, os estudos, o lazer. Não adianta entregar 10% do salário e administrar fora da vontade do Pai o restante do dinheiro.

A vida de um cristão deve ser pautada em servir inteiramente ao Senhor. Dessa forma, o tempo, a sabedoria e a força de trabalho, por exemplo, devem vir atreladas ao dinheiro entregue na igreja, todos com alegria, em forma de culto, de adoração pelo que o Pai tem feito.

Saiba mais sobre dízimo

Gênesis 14:17-20 (Abrão dá o dízimo)
Gênesis 28:20-22 (Jacó promete o dízimo a Deus)
Êxodo 22:28-29 (Deve-se oferecer a Deus o melhor)
Levítico 27:30-33 (O dízimo pertence a Deus)
Números 18:25-32 (O dízimo como sustento de quem está a serviço da comunidade)
Deuteronômio 12:11-17 (Normas a respeito do dízimo)
Deuteronômio 14:22-29 (O dízimo como devolução a Deus)
Deuteronômio 26:12-15 (O dízimo para os mais pobres)
I Samuel 8:14-18 (O dízimo a serviço do rei)
II Crônicas 31:2-10 (O dízimo e a igreja)
Neemias 10:33-40 (O dízimo e o templo)
Neemias 13:10-12 (O dízimo e os ministros do templo)
Malaquias 3:5-12 (O dízimo é fonte de bênção)
Mateus 23:23 (Não basta devolver o dízimo, antes é necessário ser justo e misericordioso)
I Coríntios 9:11-14 (O dever do que vive pelo Evangelho)
II Coríntios 9:7 (Devemos contribuir com coração voluntário)
Fonte: Site da Igreja Batista da Lagoinha

Matéria publicada em Novembro de 2008,  na Revista comunhão nº 135

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