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terça-feira, 25 janeiro 2022

Entre Pastorear e Administrar

pastorado
Foto: Reprodução

É possível, e muito provável, que em algum momento da trajetória eclesiástica surjam dificuldades nas áreas financeira, burocrática e, por vezes, até moral

A falta de conhecimentos básicos de administração está na raiz desses problemas, e pode ser uma séria pedra de tropeço para as igrejas. Pastores que acabam por desistir de seus ministérios, esgotados pela sobrecarga de pastorear e administrar a igreja ao mesmo tempo.

Membros que acabam desistindo de pertencer àquela igreja ou até mesmo esfriam na fé em função de decepções e conflitos. Igrejas colocadas na Justiça do Trabalho. Igrejas que não sabem o que fazer com seu crescimento. Igrejas que não crescem, por não terem êxito em alcançar as suas metas espirituais.

Todas estas situações e outras mais são bem conhecidas por qualquer crente. Todas elas têm afetado a igreja evangélica brasileira que, ainda assim, permanece experimentando um crescimento extraordinário ao longo das últimas décadas. O IBGE informa que o crescimento médio anual dos evangélicos foi de 7,43% ao ano entre 1991 e 2000 e a estimativa é que, nesse ritmo, em 2022 metade da população brasileira professará a fé protestante. No Espírito Santo, segundo projeção da Revista Comunhão sobre esses dados, os evangélicos já representam um terço da população – ou cerca de 1,2 milhões de capixabas.

Mas a pergunta que não quer calar é: por que o crescimento numérico não corresponde a uma atuação que realmente faça a diferença na sociedade, transformando-a? Na base dessa questão, a administração – ou má administração – eclesiástica tem um peso importante. Isso porque uma igreja precisa ter metas, dadas por Deus, para alcançar vidas com o Evangelho transformador de Jesus. Porém, para tal é preciso contar com uma estrutura que funcione bem orquestrada e promova o aproveitamento excelente dos recursos disponíveis – financeiros, materiais e humanos. Isso requer planejamento e organização, características de uma boa administração, cuja importância o próprio Evangelho aponta, por exemplo, na parábola dos três servos (Mt 25,14-30).

“A igreja evangélica brasileira tem (…) quanto à gestão, uma enorme carência. Não há como se definir diferentes maneiras de gestão, mas a extrema necessidade de despertarmos a visão para essa área. Caso contrário, continuaremos a crescer numericamente, mas (…) até quando caminharemos saudavelmente (…)?”, questionava, já em 2006, o missionário Oswaldo Prado, coordenador nacional de Visão e Estratégia do Projeto Brasil 2010 da SEPAL, em entrevista publicada no site do Instituto Jetro (www.institutojetro.com) – uma ONG que tem por missão colaborar para o desenvolvimento de competências e boas práticas de gestão e liderança aplicadas a igrejas e instituições evangélicas.

Para Oswaldo, o crescimento numérico pode acontecer independentemente de uma boa estratégia ou visão. “Claro que (…) o grande estrategista é o Espírito Santo. Mas isso não nos exime da responsabilidade de termos uma boa gestão ministerial em nossas comunidades. Aliás, deveríamos ser muito mais responsáveis nessa área. A falta de objetivos claros tem se tornado em pedra de tropeço para muitos líderes, e as igrejas sofrem com essas carências”, afirmava ele, na mesma entrevista.

Respondendo ao desafio de gerir a igreja

“Hoje eu diria que a área mais descoberta e de crucial importância é a gestão profissional das igrejas. Muitos dos problemas que as igrejas evangélicas sofrem atualmente não estão ligados diretamente aos seus fins, mas à forma como alcançá-los. Por vezes, os programas realizados são excelentes, mas trazem desconforto por serem deficitários, ou por não possuírem clareza na administração dos recursos, por exemplo. Também, quase em regra, quando questionadas por alguma autoridade pública, as igrejas costumam incorrer em diversos erros, interpretados de maneiras prejudiciais a seus fins. E ainda, em outros casos, são acusadas de desvio de patrimônio ou incorrem em perda de vantagens tributárias, como a imunidade, por não conseguirem atrelar seus processos ao seu objetivo e finalidade”, afirma Rodrigo Coutinho, controller da Convenção Batista do Estado do Espírito Santo (CBEES).

Para Coutinho, a informalidade encontrada, particularmente, nas igrejas menores, em que membros desempenham funções de secretaria, zeladoria e até operacionais – como pagamento de contas, por exemplo – representa uma alternativa econômica que ele avalia como louvável. Mas ressalta: “Contudo, o ambiente eclesiástico de fato pode e costuma ser afetado por variáveis inerentes ao mercado de trabalho. São elas: a condição qualitativa do trabalho, ou seja, há e haverá sempre questionamentos quanto à qualidade do serviço prestado; também, a substituição do voluntário por outro. Ambos os casos, tal qual num trabalho não voluntário, causarão transtornos”.

Como alternativa, ele propõe que estes serviços sejam feitos em equipes e em escala. “Isso dificulta que determinada função torne-se personalística, evitando, portanto a ‘posse’ do setor, bem como reduz a subjetividade na avaliação, uma vez que quem a recebe não é um indivíduo, mas uma equipe de trabalho”.

Muitas igrejas vêm terceirizando determinados serviços, como forma de evitar problemas trabalhistas e também de relacionamento entre membros e lideranças, além de, em alguns casos, reduzir custos. De acordo com Coutinho, o voluntariado também dá sustentabilidade à causa da igreja. “É com o trabalho voluntário que os fiéis envolvem-se com a instituição, diferenciado-a das demais. Mas, é de fundamental importância a instituição avaliar o que pode ou não ser profissionalizado, dado que o excesso de não profissionalismo em suas atividades fará com que a mesma incorra em diversos outros custos, tantos monetários quanto de desgaste e crescimento da causa”, alerta.

Responsabilidade compartilhada

Eltro Pimentel Lopes é diácono da Primeira Igreja Batista de Vitória (PIBV). Falando sobre suas funções como administrador do templo, ele explica que seu papel é gerenciar as atividades cotidianas, seguindo o que foi planejado e decidido pela diretoria da igreja.

Sob sua responsabilidade está a supervisão das operações financeiras e administrativas, cuidando para que todos os processos fluam adequadamente e todas as necessidades da igreja e de seus membros sejam satisfeitas da melhor forma possível e com foco no uso racional dos recursos disponíveis.

O ministério de finanças se reúne semanalmente para direcionar o que vai ser feito e ele é um executor das decisões tomadas. Caso a igreja não tenha uma pessoa capacitada para essa finalidade, Eltro recomenda que ela arque com cursos de capacitação para um dos membros. “No caso dos batistas, a Convenção Brasileira e a Convenção do Espírito Santo oferecem orientação nesse sentido, sem custo, às igrejas”, informa.

Na PIBV, algumas coisas são feitas por intermédio de empresas contratadas para esse fim, como a segurança e vigilância. “Nós terceirizamos porque é um serviço perigoso e que requer dedicação integral, 24h por dia”, explica. Já outras atividades, como a zeladoria, por exemplo, são desempenhadas por empregados da igreja, todos com carteira assinada.

Cada área de atuação da PIBV – Assistência Social, Louvor e Adoração, Missões, Evangelização e assim por diante – é dirigida por um membro contratado pela Igreja para esse fim, o qual pode ou não ter um (ou mais de um) auxiliar, também contratado. Os demais colaboradores são voluntários, porém a igreja se preocupa em formalizar esta colaboração, enquadrando-as nas alternativas permitidas em lei, de modo a não configurar vínculo empregatício.

Administrar o material e o espiritual

Rômulo Oliveira Vargas, membro da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, da congregação de Serra, em bairro de Fátima, é um consultor de empresas que também tem experiência em ajudar igrejas a aplicar conceitos administrativos em sua gestão.

“A equipe de dirigentes da igreja tem que buscar em Deus os alvos a serem alcançados. Mas, uma vez definidos esses alvos, ela tem que se organizar para alcançar. Você vê às vezes um líder maravilhoso, um grande evangelista, de coração, que tem alvos na cabeça dele, mas a igreja não acompanha, porque isso não está estruturado, não sai da cabeça dele para alvos estratégicos.

E alvos estratégicos exigem planos de ação, para as pessoas saberem o que fazer, que direção tomar, o que trabalhar melhor. Isso pode perfeitamente ser trabalhado na igreja sem se perder a espiritualidade. Estratégia, planejamento, são ferramentas para alcançar os alvos que Deus der. Não podem se tornar um fim em si mesmos, mas um meio valioso para se alcançar os alvos que verdadeiramente importam”.

Rômulo destaca que em qualquer esfera os conceitos de administração são cabíveis e suas técnicas, aplicáveis, mas é preciso um conhecimento pelo menos básico do assunto. “Vemos muitas igrejas que começam de maneira bem empírica. Numa igreja, temos a parte espiritual coordenada pela Palavra, isso é extremamente importante. Mas, por outro lado, temos que entender que vamos administrar uma organização que tem que seguir a legislação vigente no país, no Estado e no município em que está localizada.

Temos que pagar os impostos corretamente, temos que ser modelo para a sociedade. Tenho visto igrejas que compram terrenos, ou montam templos, em locais que não eram alvos dados por Deus, mas porque encontraram uma oportunidade de negócio. Aí, ficam sem recursos para, por exemplo, um trabalho missionário que é uma visão da igreja. Isso é preciso evitar”.

Não misturar gestão administrativa com gestão espiritual

Para o presbítero Hudson Peyneau, secretário do Conselho e tesoureiro da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória, o advento das obrigações sociais, hoje muito exigidas pelas leis brasileiras, tornou o voluntariado um risco que não deve ser aceito pelos conselhos das igrejas, devido a possíveis problemas com a Justiça do Trabalho.

Quanto à terceirização de mão de obra, em sua opinião “ela deve ser obrigatória sempre que o serviço de manutenção dos templos exija trabalho contínuo”. Hudson explica que toda igreja presbiteriana tem uma Junta Diaconal, cujos membros podem prestar serviços voluntários para manutenção dos templos sem trazer transtornos para a administração da igreja.

“Não podemos misturar gestão administrativa com gestão espiritual. Toda igreja é uma pessoa jurídica, com contabilidade própria, sujeita às leis, obrigada a declarar o imposto de renda mesmo sendo isenta do imposto, e isso não impede o objetivo espiritual.

Agora, a igreja é um local que abriga todo tipo de individuo, que vem buscar a presença de Deus para apresentar seus problemas, agradecer e viver na presença do Senhor. Por esses motivos, as igrejas têm por obrigação interagir para que não haja problemas na sua administração eclesiástica e conflitar com a área administrativa”, conclui Peyneau.

Um por todos e todos pelo Evangelho

Em 1º Corintios 12.28, a própria Palavra de Deus ensina a buscar com zelo os melhores dons e a utilizá-los para edificação da Igreja. Esta, por sua vez, deve ter a sensibilidade de dar o suporte que o pastor precisa para que ele não tenha que exercer funções administrativas que não se encaixem nos seus dons e na sua vocação.

O desastre é quase certo e o desgaste, muitas vezes, irreparável. Por outro lado, hoje em dia os pastores necessitam ter uma visão geral da administração da igreja. Isto não significa que se tornarão especialistas ou que eles mesmos a administrarão, mas que devem entender o funcionamento da administração para dar o apoio adequado ao gestor ou gestores.

Finalmente, é necessário que cada membro desempenhe a função para a qual foi criado, conforme Romanos 12:4. Assim, além de crescer em número, a Igreja pode crescer em força e provocar vigorosas transformações.


A MATÉRIA ACIMA É UMA REPUBLICAÇÃO DA REVISTA COMUNHÃO. FATOS, COMENTÁRIOS E OPINIÕES CONTIDOS NO TEXTO SE REFEREM À ÉPOCA EM QUE A MATÉRIA FOI ESCRITA.

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