Estabelecido desde o Éden por Deus, o trabalho molda o relacionamento do homem com o Senhor e com o próximo
Por Patricia Scott
Desde o Jardim do Éden, o trabalho faz parte da rotina do ser humano. Isso porque o Criador ordenou ao primeiro homem, Adão: E tomou o Senhor Deus o homem e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar (Gênesis 2.15). Os dois verbos – lavrar e guardar – indicam que ele deveria cultivar a terra, além de preservar aquele espaço perfeito onde habitava. Assim, fica evidenciado pelo texto bíblico que não existia peso para a diária labuta. Pelo contrário, era bom e agradável, já que vivia em perfeita harmonia com a criação.
No entanto, a partir do pecado da desobediência, a relação do homem com o trabalho foi alterada, conforme Gênesis 3.17-19: E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos e cardos também te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto, comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado, porquanto és pó e em pó te tornarás (Gênesis 3.17-19). Dessa forma, a terra ficou amaldiçoada, e o trabalho tornou-se duro, pesado.
Mesmo diante desse contexto, Samara Brandão Mendes explica que, segundo a Bíblia, à medida que o homem trabalha, está servindo e adorando a Deus ao mesmo tempo, já que a palavra utilizada nas Sagradas Escrituras para “cultivar” originalmente é “Avodah” no hebraico, que significa trabalhar, servir e adorar, sem distinção entre os termos. Entretanto, hoje, há uma visão muito distorcida sobre o trabalho. “Acredita-se que é secular e não agrega valor à obra de Deus, mas isso não é verdade. O livro de Provérbios adverte sobre os males da preguiça e os benefícios do trabalho bem feito”, diz a presidente-executiva da BAM Brasil – Negócios como Missão, que acrescenta: “Para o cristão, o trabalho deve ser encarado como forma de louvar a Deus no uso dos dons que lhe foram concedidos. Podemos ver isso na história de Bezalel, em Êxodo 31”.
Sal e luz
Samara considera que a intimidade com o Senhor é primordial para que o cristão tenha direcionamento no ambiente de trabalho, o que se refletirá nos relacionamentos profissionais. Com essa perspectiva, a fé é fortalecida. “Ajuda a suportar uns aos outros, encoraja a progredir, perdoar e desenvolver o fruto do Espírito (Gálatas 5.22)”, ela assevera, destacando que assim o crente dá testemunho, o que faz com que até mesmo os incrédulos possam ser alcançados a partir da atitude demonstrada pelo amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.
Ao expressar essas características, de acordo com Samara, o cristão traz à tona a sua identidade em Deus. No entanto, ela ressalta, o Cristianismo “de forma alguma deve ser forçado a outros que não compartilham da mesma fé”. Em contrapartida, a presidente-executiva da BAM Brasil destaca o comportamento como um diferencial, conforme 1 Pedro 2.12: tendo o vosso viver honesto entre os gentios, para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no Dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem.
Samara enumera ainda outros ensinamentos relatados na Palavra de Deus, para que o cristão seja sal da terra e luz do mundo na empresa. “A submissão à liderança constituída evidencia o caráter do seguidor de Cristo”. A Bíblia também direciona quanto à fidelidade e mordomia. “São necessárias integridade e transparência nos processos de trabalho para que não haja dúvidas sobre a gestão”. Por fim, ela salienta que o cristão deve realizar o trabalho como se fosse para o Senhor e não para pessoas, como ensina o apóstolo Paulo aos colossenses (3.23). “Isso vai exigir trabalho bem feito e não negligente. É preciso buscar a excelência em tudo o que for realizado”.
Ambiente de evangelização
Ao compartilhar desse mesmo entendimento, o empreendedor e pastor André Melo diz que ao se destacar no ambiente de trabalho o cristão glorifica o Senhor e abençoa o homem. “Quando não é comprometido nem desempenha a função com excelência, ele compromete a mensagem que carrega”, assegura o fundador do Empreendendo no Reino, iniciativa que tem como objetivo inspirar o cristão ao empreendedorismo com a visão da Palavra de Deus. “Por outro lado, ao ser excelente no que faz, o Evangelho é impulsionado, porque o trabalhador vivencia os ensinamentos bíblicos”, destaca.
Na visão de André, o local de trabalho é um espaço onde o Senhor estabelece as pessoas estrategicamente, sejam estagiárias, CEOs ou empreendedores, já que elas podem influenciar aqueles que têm preconceito contra o Evangelho e jamais entrariam em uma igreja. “Eles jamais poderiam ser impactados pelas Boas-Novas do Evangelho a não ser no ambiente de trabalho. Ao se depararem com cristãos que refletem o caráter de Jesus, são confrontados pelo amor do Senhor”.
Por isso, o pastor acredita que o cristão é a pessoa ideal para gerar um ambiente de comunhão no trabalho, porque é o único ordenado por Deus a amar todas as pessoas. As Sagradas Escrituras ensinam alguns princípios que fazem ressaltar esse amor: dar a outra face (Lucas 6.29), andar a segunda milha (Mateus 5.41). “Isso é possível, porque Bíblia diz que o amor de Deus está derramado no nosso coração pelo Espírito que nos foi concedido (Romanos 5.5)”, prega André.
Então, além do avanço da Palavra de Deus, a comunhão no trabalho gera alegria, paz, harmonia, o que proporciona um ambiente prazeroso. “Sem unidade, fica cansativo, penoso, torna-se desanimador para os profissionais que passam muito tempo juntos, mesmo quando estão em home office”, aponta André, que complementa: “Então, cabe ao cristão fazer a diferença. Não como militante do Cristianismo, mas como testemunha do Evangelho (Atos 1.8), demonstrando com o próprio exemplo que Cristo está vivo”.
Esta matéria foi originalmente publicada na Revista Comunhão – setembro/2023. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi originalmente escrita.

