Emoções: como ensinar seus filhos a lidar com elas

As emoções fazem parte do comportamento humano. O problema é saber como lidar com elas para manter o equilíbrio.

Por Priscilla Cerqueira

O Brasil acompanhou recentemente o caso de uma garota de 14 anos de idade que foi agredida até a morte por duas meninas de 15, na Região Metropolitana do Recife.

Outro episódio chocante que revoltou o país foi o da adolescente no interior de Goiás que atacou a mãe por ter sido proibida por ela de ir a uma festa. São retratos de agudo descontrole emocional.

Em relação à segunda história, a psicóloga cristã Marisa Lobo, autora do livro “Limites”, lançado em junho último, escreveu em sua rede social: “Se fosse minha filha, apanharia”. Na avalição da especialista, a garota se tornou violenta pela “falta de limites” e, em situações extremas com essa, os pais precisam agir, também, de forma extrema.

“Sou contra a violência, mas em casos extremos como esse, não seria uma palmada que iria frustrar, violentar, traumatizar essa adolescente visivelmente atormentada”, justificou.

Após passar por dois processos emocionais, o pastor Walter Louzada hoje vive feliz e realizado com os filhos e a esposa

As emoções fazem parte do comportamento humano. O problema é saber como lidar com elas para manter o equilíbrio. O desenvolvimento emocional começa a ser trabalhado na infância, com o controle e correção dos pais. Embora seja uma tarefa desafiadora, é fundamental dar limite aos filhos.

“Hoje não é raro nos depararmos com cenas deprimentes, em que crianças se jogam no chão se não recebem o que desejam; elas xingam e até batem em seus pais por ouvirem uma negativa. Essa é uma grande inversão de papéis. Fazendo todas as vontades delas, ficarão mimadas, infantilizadas, e terão dificuldades de enfrentar a vida”, explica a psicóloga cristã Paula Romer, da Igreja Presbiteriana Monte Sinai, de São Paulo.

“Precisamos escolher crer que o que Deus diz é mais verdadeiro do que nossas emoções”  – Ney Bailey, escritor

A Bíblia exorta em Provérbios 29:15-17 que: “A vara da correção dá sabedoria, mas a criança entregue a si mesma envergonha a sua mãe”. Os padrões saudáveis precisam ser estabelecidos desde cedo, com a direção divina. “Os pais preparam os filhos para a vida e precisam criá-los à pessoa de Deus quanto à construção do caráter e da segurança física e emocional”, pontuou.

“Os pais preparam os filhos para a vida e precisam criá-los à pessoa de Deus quanto à construção do caráter e segurança física e emocional” – Paula Romer, psicóloga

O livro “Criando Filhos Emocionalmente Saudáveis”, de H. Norman Wright e Gary Oliver, diz que “pais imaturos dificilmente têm filhos maduros”, pois é responsabilidade deles desenvolver modelos emocionais saudáveis. “Criança é como uma esponja, absorve tudo o que é ensinado. Se ela possui pais que enfrentam problemas emocionais, há sério risco de se tornarem assim também. Uma criança emocionalmente saudável aprende a viver a vida observando suas próprias experiências e tendo em sua caminhada o acompanhamento dos pais”, argumenta Paula, que também é psicopedagoga e mestre em Ciências da Religião.

Desenvolvimento das emoções

Emoção é uma experiência associada ao temperamento. É o primeiro filtro usado pelo ser humano para se relacionar com o mundo. Muitos dos problemas que pessoas de diferentes idades enfrentam no dia a dia têm origem nela. Orgulho, ira, angústia, culpa, cobiça e inveja são sentimentos que aprisionam a alma. Todos os dias estamos sujeitos a lidar com as emoções, seja nas decisões simples, seja nas complexas.

Tais manifestações se dão de forma positiva, como no amor, no perdão, na coragem, na gratidão, na bondade, na compaixão, na misericórdia, sentimentos que proporcionam flexibilidade e criatividade. Mas podem ocupar o terreno negativo, como no egoísmo, na raiva, no rancor, na preocupação e na vingança, que geram danos em nós e naqueles que nos rodeiam.

A Bíblia narra a saga de um personagem que começou seu ministério com alegria e prosperidade, mas o encerrou com dor e amargura. O rei Saul conduziu sua jornada com ciúme, inveja dor, fracasso, vergonha, tragédia e, por fim, a própria morte. Outro exemplo de descontrole emocional é observado em Gênesis 4, na história dos filhos de Adão e Eva. Tomado pelo ódio e sentimento de rejeição, Caim matou o irmão Abel.

“Deus nos criou com sentimentos e emoções, o problema é que eles também foram afetados pelo pecado, que distorceu tudo o que o Senhor havia feito de maneira perfeita. É possível não sermos reféns de nossas próprias emoções e evitarmos o que aconteceu com Caim e tantos outros homens e mulheres que a Bíblia aponta”, ponderou Paula.

Jesus, o exemplo

Não é errado ter emoções. Jesus é o maior exemplo disso. Não tentou “não senti-las”, pelo contrário, levava-as para dentro do seu relacionamento com o Pai. Era honesto, real, autêntico. Na noite antes da crucificação, no jardim do Getsêmani, o Messias estava “aflito”, “profundamente triste”, “atribulado” e “agoniado”.

Expressou como se sentia, mas confiou em Jeová. Tempos antes, na tristeza, Cristo chorara a morte de seu amigo Lázaro, chorara por Jerusalém. E sentira amor quando conversava com um jovem rico (Mc 10:21).

“Pais responsáveis cuidam das emoções de seus filhos ficando atentos às suas mudanças de atitudes, às alterações de humor, à perda ou aumento de apetite, para evitar que sejam infelizes, ansiosos, frustrados, e pensem, inclusive, em atitudes extremas, como suicídio” – Priscila Laranjeiras, escritora

Várias passagens nas Escrituras mostram também as emoções divinas. Deus teve arrependimento – “Então o Senhor arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra, e isso pesou-lhe no coração” (Gn 6:6). Também demonstrou compaixão – “O meu coração está enternecido, despertou-se toda a minha compaixão” (Os 11:8b). E ainda fúria – “Sabendo-o Deus, enfureceu-se e rejeitou totalmente Israel (Sl 78:59)”. “Deus fez todos a Sua imagem e semelhança, por isso tem sentimentos como nós, mas não é ‘escravizado’ por eles”, afirmou Paula.

Segundo o livro “Fé não é um Sentimento”, de Ney Bailey, apesar das nossas emoções e experiências de vida, “precisamos escolher crer que o que Deus diz é mais verdadeiro do que nossas emoções”. E a obra traz um conselho: “É preciso que sejamos francos com Deus, dizer com honestidade como nos sentimos e o que está acontecendo na nossa vida”.

Essa foi a forma escolhida pela escritora cristã Priscila Laranjeiras para lidar com um bloqueio vivido pela filha, Kennely Desirée, que na infância não conseguia se relacionar com os outros. “Minha filha vivia triste na escola, a ponto de desistir. Um dia ela me disse que não voltaria mais para lá. Sugeri que levasse livros, brinquedos, mas ela queria amigas. Então pensei no plano infalível: oramos juntas e pedimos a Deus que lhe enviasse amigas. Não muito convencida, ela foi pra aula; enquanto isso, orei ao Senhor de joelhos. Quando voltou para casa, nem precisei lhe perguntar se o plano deu certo. O sorrido dizia tudo! Deus enviou três amigas. Ir à escola tornou-se uma alegria, e as notas refletiram isso”, contou.

A tática da Priscila mostrou que soluções vistas como impossíveis aos olhos do homem são perfeitamente viáveis nas mãos do Todo-Poderoso. Mas é preciso colocá-las
na dependência do Altíssimo. “Sempre ensinei minha filha a confiar e depender de Deus, pois o Senhor atende às nossas orações. Mostrava a ela que, quando estamos tristes, cansados, desmotivados e frustrados, podemos confiar nEle. A fé dela se fortaleceu ao longo dos anos, pois sempre sentiu e viu a ação divina.”

Inteligência emocional

O renomado psicólogo Daniel Goldman se refere à inteligência emocional como “a capacidade de reconhecer os próprios sentimentos, bem como os alheios, de motivar-nos e de saber manejar bem as emoções”. Isso implica saber exercitar o controle delas.

Uma criança emocionalmente saudável não é aquela que não chora, tampouco aquela que não se frustra ou não se irrita, mas a que aprimora a compreensão sobre as próprias emoções, como explica Paula. Lidar com a frustração é o primeiro passo.

“A habilidade de reconhecer os próprios sentimentos, compreender os dos outros e saber lidar com eles é o que a psicologia chama de inteligência emocional (QE).

Na prática, isso significa, por exemplo, que de nada adianta a criança ser um gênio se não souber lidar com as críticas”, exemplifica.


As emoções controlam praticamente tudo na vida. “Pais responsáveis cuidam das emoções de seus filhos ficando atentos às suas mudanças de atitudes, às alterações de humor, à perda ou aumento de apetite, para evitar que eles sejam infelizes, ansiosos, frustrados, e pensem, inclusive, em atitudes extremas, como suicídio”,
acrescentou Priscila.

Pais emocionalmente sadios

Se a criança vai bem, os pais também vão bem. O descontrole e os desequilíbrios emocionais podem levar ao êxito ou ao fracasso, determinar a personalidade e o caráter, sustentar ou “derrubar” carreiras, casamentos, empresas, nações. Educação emocional não é fácil, mas é possível. E tem de começar pelos pais.

O pastor Walter Louzada, 46 anos, da Igreja Apostólica Monte Sião, na Serra (ES), passou por dois processos emocionais difíceis.

O primeiro foi em relação a suas atitudes no ambiente doméstico. Criado no regime militar, ele seguiu a linhagem do pai e do avô e serviu a Força Aérea Brasileira (FAB). Foi assim por 27 anos, até que entrou para a reserva.

Por conta da tradição do militarismo, a educação em casa com os filhos, Amanda e Gabriel Moraes, hoje com 23 e 19 anos, respectivamente, sempre foi rígida e autoritária. “Eu replicava o comportamento que tinha como militar nos meus filhos. Era um relacionamento de sargento com soldados, muito mais do que de pai e filho, sem muita conversa. Eles reclamavam, mas eu não enxergava isso”, contou.

A falta de diálogo teve como consequência o afastamento dos filhos. O alerta veio quando Walter precisou levar a filha, na época com 5 anos, ao médico. “O pediatra solicitou que minha filha tirasse a roupa para examiná-la e nessa hora ela pediu que eu me retirasse, pois não tinha coragem de fazer isso na minha frente. A atitude dela me deixou intrigado e triste, pois parecia que eu era um estranho para ela, mesmo sendo pai.

Então resolvi agir de modo diferente”, lembrou. Para trabalhar a emoção dos filhos, Walter entendeu que precisava mudar de comportamento. “Fiz o caminho inverso, mais produtivo e saudável para mim e minha família. Tornei-me uma pessoa melhor, cresci, amadureci, e isso gerou uma nova relação de contato e intimidade com eles. Reconquistei a confiança de minha filha, e ela passou a me ver como pai protetor, que zela e que cuida.”

E acrescentou: “Se quero que meus filhos cresçam com emoções saudáveis, primeiro preciso olhar para dentro das minhas emoções de uma forma saudável para que eu tenha condições de replicar essa vida na vida dos meus filhos”.

Outro problema emocional enfrentado pelo pastor foi sua separação da mãe de seus filhos após 15 anos de casamento. “Um dia ela resolveu sair de casa. Tentei uma reconciliação por um tempo, mas percebi que as coisas não eram como antes, então tomei a decisão de levar a separação adiante. Mas me afastei do trabalho, entrei em depressão, sofri. Foi um período difícil e traumático para todas as partes.

Até que, passado mais de um ano, Deus começou a tratar minhas emoções, me restaurou com a ajuda da igreja e de meus filhos e ainda me deu uma nova esposa.”

Walter exerce o pastoreio há 20 anos e se prepara para concluir o curso de Psicologia para ajudar outras pessoas a curarem seus traumas emocionais. “As emoções são trabalhadas por nossa vida em Cristo, mas precisam também ser trabalhadas desde o nascimento.

No período de gestação, os pais podem demonstrar o amor e a importância do bebê para a família. Isso faz com que as crianças nasçam e cresçam num ambiente emocional melhor.

Se queremos gerar emoções saudáveis em nossas crianças, primeiro temos de entender que somos limitados e que precisamos ressignificar a nossa vida, mudar alguns conceitos, nos aproximar da identidade que Cristo nos dá. Tratar as emoções não é um luxo, mas uma necessidade se estamos dispostos a santificar a nossa vida”, concluiu.


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