Educação Domiciliar: aprendizado fora da escola

A homeschooling é prática em 7,5 mil famílias no Brasil que defendem a “fuga dos valores inversos”

Por Ayanne Karoline

A educação dos filhos é uma das decisões mais importantes na vida de uma família. Escola pública ou particular? Horário integral ou meio período? Curso extraclasse ou aulas de reforço? Além dessas perguntas tradicionais, hoje, muitos pais se questionam sobre abrir mão da escola para educar os filhos em casa, prática conhecida como “homeschooling”. A opção tem representado uma fuga dos ensinamentos e valores do mundo.

Na educação domiciliar a responsabilidade da escola passa a ser da família. Crianças e adolescentes aprendem em casa com o apoio de responsáveis, sejam eles tutores ou os próprios familiares. O tema gera polêmica. Para ser ter ideia, na Suécia a prática é considerada um crime. Já no Canadá e nos Estados Unidos, é adotada normalmente.

No Brasil, educar os filhos em casa já é realidade na vida de cerca de 7,5 mil famílias ou cerca de 15 mil estudantes que praticam este tipo de ensino, segundo estimativa da Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned). Na defesa do Projeto de Lei assinado pelo presidente Jair Bolsonaro, no início de abril, que visa a garantir apoio legal às famílias que quiserem optar pelo homeschooling, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves. Afirmou que já são 11 mil famílias que praticam educação familiar. O projeto aguarda aprovação do Congresso.

Na capital do Espírito Santo, a Comissão de Constituição, Justiça, Serviço Público e Redação da Câmara Municipal de Vitória (CMV), presidida pelo vereador Sandro Parrini (PDT), deu parecer favorável a continuidade da tramitação do Projeto de Lei (PL) n.º 5038/2018, de autoria do vereador Vinicius Simões (PPS), que dispõe sobre a educação domiciliar. A ação foi considerada uma vitória para centenas de famílias do Estado.

É o caso da turismóloga Cíntia Oliveira e seu esposo Rodrigo Oliveira. Para esse casal capixaba, a educação domiciliar ajuda a proteger os filhos da influência negativa do mundo, como ideologias e valores inversos aos cristãos. “Nos ajuda a fortalecer o que é verdade para nossa família, fazendo com que nossos filhos olhem o mundo da forma de Deus. Sabemos que eles serão pessoas com o verdadeiro conhecimento, entendimento e sabedoria”, explicou Cíntia. Praticantes de religião cristã, Cíntia e Rodrigo tem seus filhos de 4 e 7 anos educados em casa, por eles e professores particulares, quando necessário.

Mentes livres

As filhas da professora Loide Sorvilho e do publicitário Rogério Sorvilho, moradores da cidade de Pinhalzinho, interior de São Paulo, estudaram desde os oito anos em casa, tendo os pais como professores. “Nosso maior objetivo era buscar a formação de mentes autônomas, o menos formatadas possível, dentro dos padrões que questionávamos, e criar o melhor ambiente para que florescesse de maneira natural o potencial de cada uma delas, na busca do conhecimento e no discernimento dos valores nobres de um grande caráter.

Queríamos participar disso porque não havia ninguém que conhecia melhor cada uma delas e que tivesse a o nível de dedicação que estávamos dispostos a oferecer”, explicou Rogério.

Segundo Rogério, o homeschooling é um processo que envolve todos os aspectos da vida familiar, porque tudo vira “aula”, tudo vira “escola”. “Se estávamos ensinando as matérias era escola, se terminássemos e iam brincar era escola também. Nos finais de semana, todas as atividades tinham contexto de ensino e as relações sociais promoviam isso também. Enfim, é um processo de imersão completo e profundo”, contou.

Após estudarem o “ensino fundamental” em casa, as filhas de Rogério e Loide entraram no Ensino Médio de uma escola regular. Elas passaram por uma avaliação e foram matriculadas. “ Tínhamos a certeza de que o que havíamos construído em termos de estrutura de pensamento, competência de auto-gestão de seus sonhos e valores não poderia ser mais destruído. Estavam formadas na melhor escola que poderiam ter frequentado”, afirmou.

Valores

“Que todas estas palavras que hoje lhe ordeno estejam em seu coração. Ensine-as com persistência a seus filhos. Converse sobre elas quando estiver sentado em casa, quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar”. Os versos 6 e 7, do capítulo 6 do livro de Deuteronômio representam um grande lema para a família da administradora de empresas Danielle Rocha. Ela e o marido, que são cristãos, também optaram pelo homeschooling para os filhos de 1 e 5 anos.

“Entendemos que não há maior prazer de que sermos pais completos, que ensinam não somente o amor, valores morais e religiosos, mas ousamos ir além ao levarmos todo o conhecimento, mistérios e ciências, aos nossos filhos, sendo nós os responsáveis pelo desenvolvimento intelectual, moral e religioso dos nossos herdeiros”, ressaltou Danielle.

Cuidados

A psicopedagoga e psicóloga cristã Alzira Luciana Souza, explica que os pais que ensinam em casa precisam estar atentos a alguns fatores como a socialização dos filhos, já que o contato com coleguinhas de escola não acontece. “É preciso envolver as crianças que estudam em casa em ambientes com outras crianças, para que esse convívio ajude no desenvolvimento social”, destaca.

Luciana explica que a escola, de um modo global, fixa valores como respeito às diversidades, solidariedade, rotina, responsabilidade, entre outros. “Obviamente que os pais podem e devem buscar desenvolver esses mesmos valores em casa, durante o processo de ensino”, apontou.


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