Edméia Williams: Exemplo de fé, amor e cuidado

Foto: Renato Cabrini

Diante de perdas e superações, ela encontrou um sentido na vida após se entregar para Cristo: cuidar de crianças. “Jesus Cristo disse que era pra ir e fazer discípulos. Tudo o que eu sei é do reino e para o reino”, disse

Por Priscilla Cerqueira

Um exemplo de superação, obediência, fé, cuidado e amor. É um nome que inspira determinação. Uma mulher que encanta pela simplicidade e sabedoria com que traz as boas novas de Cristo, bem como seu exemplo de solidariedade e amor  para com o próximo.

Edméia Williams é uma missionária brasileira, conferencista de renome internacional, filha de pai imigrante da Guiana Inglesa e mãe paraense. Psicóloga, Filósofa, Pedagoga e Musicista. Além cursou Liderança Cristã, em Singapura. Aprendeu francês, inglês e latim.

Um encontro com Deus através de uma pastora no Iraque, a vida dela ficou transformada. Edméia Williams recebeu a cura na alma e das suas feridas emocionais, após entregar-se completamente a Jesus.

Confira nesta entrevista emocionante à Comunhão, em que ela conta um pouquinho do que Deus fez na sua vida, do projeto que fundou para cuidar de crianças, do papel da liderança cristã no Brasil e dos sonhos.

Comunhão – Como foi seu encontro com Deus?

Edméia Williams – Eu não tive um encontro com Deus e sim, uma conversão total. Quando eu estava morando na antiga Caldeia, no Iraque, através de uma pastora palestina beduína que passava na frente da minha casa. Ela tinha o seu cordeirinho com a perna quebrada no colo e ela chorou. Na mesma hora eu ouvi meu coração e entendi que era Jesus que estava falando comigo: ‘eu também sou o teu pastor e quero cuidar da tua perna quebrada’. Eu cresci no evangelho. Estudei muito tempo no colégio de freiras, mas eu não conhecia Jesus. E naquele dia eu passei a conhecer o pastor do Salmo. Ali foi o momento da minha conversão. Antes eu era crente, mas não era nascida de novo. Então naquele momento minha via mudou.

A senhora teve experiências cristãs em países onde os cristãos são perseguidos por sua fé, como o Iraque. O que aprendeu com isso? E o que a igreja brasileira precisa acordar?

A Igreja brasileira tem que acordar sabendo que ela é Igreja. O grande problema é que a pessoa não pode acordar quando está morta. Ela tem que ter renascimento. Hoje o que menos pregamos é sobre o novo nascimento, arrependimento e santificação. Então é o momento em que a igreja é indiferente ao trabalho do Espírito Santo e sem o trabalho dele não há novo nascimento. É por isso que os cristãos nos países perseguidos são fortes, enfrentam e não tem medo da morte por que sabem que a morte deles já foi tragada. Então eles entregam a vida para Jesus Cristo. Eu conheci o verdadeiro cristianismo fora do Brasil.

A senhora fundou a Casa de Maria e Marta, no Morro dona Marta, uma favela do Rio de Janeiro que cuida de crianças. Como surgiu esse projeto?

Foto: Renato Cabrini

Esse projeto surgiu no meu coração exatamente no dia em que eu saia da igreja junto com meu marido e meus filhos e era um dia chuvoso e tinha uma menina vendendo docinhos na porta da igreja. Aquela criança se aproximou do carro para vender e a água da lama da rua foi em toda em cima dela.

Nós íamos para o restaurante mas aquela criança não sabia quando iria comer. Os docinhos dela caíram na lama. No outro dia eu apareci lá, envergonhada de dizer que sou cristã, saí de uma igreja e vendo criança com fome na rua, procurei saber de onde era aquela criança e o porteiro apontou pra mim. Foi a primeira vez que vi que perto da minha igreja havia uma favela. Depois eu descobri que no Rio de Janeiro que cada bairro chique tinha 2 ou 3 favelas. Então, aquele dia eu aprendi e senti o desejo no meu coração de fazer alguma coisa pelas crianças dali.

Foi então que comecei a orar e no meu coração se avolumava um desejo muito grande de dedicar a minha vida por aquelas crianças. Depois de muito tempo apareceu uma oportunidade de ir a Singapura fazer um curso de liderança cristã, mas enquanto eu estava lá meu marido morreu no Brasil. Mas quando eu voltei eu sabia perfeitamente que eu tinha que começar um trabalho com crianças. Foi assim que nasceu o projeto ‘Casa de Maria e Marta’. Maria significa fé e Marta obras.

A senhora tem uma vasta formação profissional e poderia usá-los para a sua vida pessoal? Como usa seus conhecimentos para o trabalho social que realiza?

Eu dou casa, comida, estudo e tudo mais para crianças como um meio para plantar Jesus no coração delas. Para isso eu as conduzo para a escola, dou roupa, comida e principalmente o amor. Tudo o que eu aprendi na vida eu uso no púlpito, no meu trabalho com as crianças e mesmo na minha capacidade e busca da Palavra de Deus. Tudo o que eu sei é do reino e para o reino. Eu não sei fazer trabalho social. Nunca li um livro me ensinando a fazer isso. Eu não sei ensinar ninguém a fazer. Simplesmente coloquei no coração um desejo imenso pelo evangelho.

O que te move ajudar, cuidar de crianças e levar o evangelho para elas? E quais os resultados disso?

Foto: Renato Cabrini

Todas as vezes que a gente se empenha num trabalho que Deus quer e eu quero, então eu ligo na terra e Ele liga no céu. O desejo do Pai é que o nome do Filho seja glorificado e o desejo do Filho é que o nome do Pai seja glorificado. Jesus Cristo disse que era pra ir e fazer discípulos.

Foi só para isso que Ele me deu o Espírito Santo. Nessa caminhada de fazer discípulos eu começo a plantar o evangelho no coração de crianças. Quando fazemos isso dá certo e tem dado certo até hoje. O morro Dona Marta mudou. Tenho encontrado pastores, dirigentes de louvor, missionários e crentes maravilhosos que foram todos crianças da Casa de Maria e Marta.

Em relação as igrejas localizadas em comunidades carentes, qual deveria ser a postura dos líderes em relação ao engajamento dos cristãos nesse contexto social?

Eu não conheço todas as igrejas que estão no Morro dona Marta, pois cresceu muito o número de denominações. Mas quando nós vamos pregar o amor de Deus, falar da graça de Deus nós só precisamos ter essa preocupação pois o Espírito Santo dá conta do trabalho. Ou seja, eu prego Jesus e deixo que Ele faço o resto do trabalho.

Agora sobre sua vida pessoal. A senhora passou por grandes perdas na vida ainda na juventude. Como superar perdas, não desistir, sendo um instrumento de Deus na vida das pessoas?

Aquilo que para nós parece perda, na realidade é ganho. Todas as dores que vem Deus permite para fortalecer os músculos da nossa fé. Na medida em que Deus tira é porque não era meu e sim d’Ele. A Palavra de Deus ensina isso e eu creio nisso. Portanto tudo isso serviu para fortalecer a minha fé e quando Deus quer fazer uma obra na vida da gente Ele parte da nossa fé. Temos que nos conscientizar que quando um plano nosso não dá certo, temos que recuar, porque os planos de Deus nunca são frustrados e quando os nossos planos são frustrados, podemos estar cientes que o plano d’Ele está avançando.

A senhora tem percorrido o Brasil ministrando para pastores e líderes. Qual o alerta que podemos fazer para a liderança brasileira em um mundo cada vez mais difícil, violento e “distorcido” da Bíblia?

Foto: Renato Cabrini

A nossa intimidade com Deus tem que estar como base para tudo. O grande problema hoje é uma ministração de querermos trabalhar com o poder do mundo. Enquanto que o poder para nós trabalharmos vem do alto.

Recebereis poder quando vier sobre nós o Espírito Santo. Esse é o poder que tem que operar em nós, mas as vezes nós trabalhamos queremos ibope, procurando ministérios grandiosos, e as vezes querendo ser gerentes ou chefes ao invés de líderes, procuramos honras dos homens. Nunca se falou tanto em honra como hoje na Igreja.

Os líderes não são realmente líderes e sim gerentes de uma obra que tem que dar certo. Eles tem que dar conta de um trabalho para homens e com isso deturpam e trazem a igreja como se fosse uma invenção dos discípulos. A igreja é noiva de Cristo, é filha de Deus, é movida pelo Espírito Santo. O grande problema hoje é que a instituição religiosa se tornou uma igreja indiferente ao trabalho do Espírito Santo e por isso ignorante, anêmica, gritando por socorro e vivendo uma panasséia.

O que é uma verdadeira liderança?

A verdadeira liderança vem do coração do Deus porque ela nasce no coração do servo. Se nós fizermos discípulos e no coração do servo que nasce a liderança. Jesus Cristo disse ‘se as minhas palavras permaneceres em vós, sereis verdadeiramente meus discípulos e consequência: ‘conheceres a verdade e a verdade vos libertará’. Só livres das amarras do mundo, do engano do mundo, da mentira, da soberba do maligno e não seremos verdadeiramente líderes porque seremos servos.

Qual seu maior sonho? E que mensagem deixaria para a liderança cristã do Brasil?

Unidade. Essa é a palavra-chave. Enquanto nós não tivermos aperfeiçoados na unidade a igreja não está pronta. E esse é o meu conselho, que nós possamos olhar e nos voltarmos para esse conselho que Jesus disse porque unidade não é união, unanimidade e uniformidade. A igreja é uma só, por isso que é unidade da fé, do batismo e do espírito, da filiação e da mente.


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