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segunda-feira, 1 junho, 2020

Ed René Kivitz: “Vida humana não pode entrar em conta de custo-benefício”

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Pastor Ed René Kivitz critica postura do presidente de se opor à ciência durante a pandemia

O teólogo e pastor da Igreja Batista de Água Branca (Ibab), em São Paulo, Ed René Kivitz, acredita que a associação da fé cristã com o governo Jair Bolsonaro já está pesando sobre a reputação dos evangélicos. O pastor é um dos poucos líderes evangélicos críticos da atual gestão federal

Em entrevista à coluna Matheus Leitão, da Veja, René sustenta que, de acordo com os valores cristãos, a vida humana não pode entrar em conta de custo-benefício, pois a morte que pode ser evitada é inaceitável.

A crítica é direta à postura do presidente no atual contexto da pandemia do coronavírus, quando o político reiteradamente resolveu contrapor-se à ciência e às medidas de combate da doença, como o isolamento social, usando a economia do país como subterfúgio.

Ed René Kivitz destaca que uma pessoa morrer de velhice, ou com uma enfermidade que, apesar dos cuidados da medicina, não foi possível evitar, é lamentável. Já um óbito que poderia ser evitado com cuidados profiláticos e terapêuticos, e se aceita, contabilizando essa morte como o ônus para outros ganhos, contraria o que é o natural do evangelho: ou seja, o acolher, o cuidar do pobre e da viúva, dos desassistidos, dos enfermos.

“Esse descuido para com a vida humana é incompatível com os valores da fé cristã. Então, uma igreja que dá suporte a essa identidade política se compromete mesmo”, afirma Ed René Kivitz, que faz cultos online para mais de seis mil pessoas durante o período de isolamento social.

Defensor ferrenho do estado laico, o pastor tem dado palestras pelo país reafirmando o direito dos cristãos de defender seus valores na esfera política, mas não de impô-los à sociedade.

Na entrevista, o líder religioso fala sobre os riscos que a igreja evangélica brasileira corre ao se associar ao governo Bolsonaro no atual momento de crise sanitária, quando o vírus se alastrar pelas camadas mais pobres.

Ele afirma ainda que, no caso do movimento evangélico, o principal dano à imagem tem a ver com reforçar a ideia de que religião e ciência são coisas antagônicas, que não conversam e que se hostilizam mutuamente. “Essa é uma visão muito equivocada da relação religião e ciência, mas fica reforçada num momento como esse”. Confira!

Os evangélicos hoje são uma das principais bases do presidente, que se apoia contra a ciência, contra aquilo que está sendo feito no mundo inteiro em relação à pandemia. O desgaste político de se aliar não pode pesar às próprias lideranças evangélicas e à igreja em algum momento?

Ed René Kivitz – É, eu acho que vai pesar sim. Na verdade, acho que já está pesando no sentido de comprometer a reputação desse contingente evangélico. À medida em que o governo vai sofrendo avaliação negativa, toda a sua base de apoio sofre também. E no caso do movimento evangélico, o principal dano tem a ver com reforçar a ideia de que religião e ciência são coisas antagônicas, que não conversam e que se hostilizam mutuamente. Essa é uma visão muito equivocada da relação religião e ciência, mas fica reforçada num momento como esse. Reforçar a ideia de que religião é para pessoas ignorantes, que desprezam a importância da educação e do esclarecimento. Já o outro dano eu acho que também é no sentido valorativo, se posso chamar assim, que é associar o evangelho a um governo de índole tão contrária ao respeito à vida humana. Não apenas na questão já sabida das declarações do presidente Bolsonaro quanto à tortura, quanto à violência, toda a ênfase de armamento, de uma ação belicosa, uma cultura bélica e violenta, mas ultimamente também, o desprezo à vida humana, submetendo a vida humana a esse cálculo pragmático de ‘pessoas têm que morrer, paciência, temos que salvar o país e a economia do país… e se as pessoas morrerem, paciência’. Quer dizer, esse descuido para com a vida humana é incompatível com os valores da fé cristã. Então, uma igreja que dá suporte a essa identidade política se compromete mesmo.

Ed_René-Kivitz
Foto: Daniel Peterlevitz/Arquivo

De que forma, na sua opinião?

Por exemplo, a vida humana, a morte que pode ser evitada é inaceitável. A gente lamenta a morte quando não foi possível evitar. A gente chama isso de fatalidade. A gente ofereceu todo cuidado disponível, mas não foi possível. Então isso é uma fatalidade e é inerente à finitude humana. Sabe, uma pessoa morrer de velhice, ou com uma enfermidade que, apesar dos cuidados da medicina, não foi possível evitar a morte, a gente lamenta. Mas uma morte que poderia ser evitada com cuidados profiláticos e com cuidados terapêuticos, e a gente aceita e contabiliza essa morte que poderia ser evitada como o ônus para outros ganhos numa a relação de custo-benefício… a vida humana não pode entrar em conta de custo-benefício.

É possível que a doença avance agora entre as camadas mais pobres, onde estão uma base grande dos evangélicos. Isso não pode revelar ainda mais a contradição desse apoio da igreja ao Bolsonaro?

Acho que tem um risco duplo aí. O primeiro é que a comunidade religiosa, em um determinado momento, vai se voltar contra o governo, que a instruiu de maneira inadequada. Mas o risco maior que eu vejo é o abalo e a crise de fé que isso pode gerar. Porque essas pessoas, elas não estão ignorantes quanto aos riscos do vírus, mas elas estão acreditando que a bênção de Deus sobre elas é suficiente para poupá-las dessa fatalidade, enfim, poupá-las da morte. E aí as pessoas não vão apenas questionar o governo, mas elas vão questionar a própria benção de Deus, o poder de Deus, a existência de Deus. Eu temo que isso gere uma crise de fé muito grande, muito significativa.

Qual a dimensão desta crise de fé?

Eu acho que pode, pode gerar uma crise de fé, como a que aconteceu na Europa pós-guerra: ‘onde estava Deus enquanto estava acontecendo o holocausto? Onde estava Deus enquanto nossos filhos morriam e os nossos corpos eram empilhados?’. Essa pergunta a respeito do papel e do lugar de Deus no mundo ela vai começar a ser feita com muito mais intensidade, eu acho.

Durante mas também no pós-pandemia?

Eu acho que sim. O que eu quero dizer é que eu não consigo avaliar qual é o rebote do apoio da comunidade evangélica para com o governo, mas eu temo a ressaca dessa experiência na experiência de fé. É o que me ocupa mais, é o que me preocupa mais.

Qual será mais fácil de medir?

Não sei porque a medida do apoio evangélico ao governo vai ser a urna. Tem um critério muito objetivo, mas as crises de fé, e as doenças da alma, e as doenças espirituais ou as sequelas espirituais de uma crise de fé é difícil de você mensurar. Acho que a questão, o desenlace da relação com o governo talvez seja mais fácil de mensurar.

*Extraído da coluna Matheus Leitão (revista Veja) e Adaptado por Comunhão
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