Ao ler Bíblia com Cristo como chave, temos a oportunidade de passar pela experiência dos discípulos de Emaús, a quem Ele explica as Escrituras
Por Paulo Teixeira
Em nossa igreja local, os dias de pandemia reacenderam o gosto pela leitura e pelo estudo da Bíblia. Ainda há mais pessoas acompanhando as atividades e cultos pelas redes sociais; mas, agora, a participação presencial vem crescendo. Durante a pandemia, a igreja se mobilizou em torno de diversas melhorias, começando pelas tecnológicas e, vencida esta etapa, agora se coloca o foco na arrumação da casa, lidando com aspectos físicos, funcionais e estéticos do templo e das outras instalações. Para guiar-nos espiritualmente nesta empreitada, recorremos ao profeta Ageu, um dos menores entre “Os Doze”. E a voz de Deus, anunciada por meio de Ageu no séc. 6 a.C., num escrito curtíssimo, tem ecoado em nossa igreja e despertado um desejo renovado de congregar, crescer e servir juntos.
Apesar da distância cultural entre o mundo de Ageu e o de nossos dias, a palavra eterna do eterno Deus continua relevante e sua eficácia se verifica quando o texto, bem compreendido e aplicado, traz efeitos práticos. Isto vale para todos os profetas do Antigo Testamento. Ageu, por exemplo, desafia o povo a deixar sua zona de conforto e a reconstruir o Templo de Jerusalém. Mas o “assim diz o SENHOR” dado por meio de Ageu não deve ser lido de maneira tão restrita que nos induza a construir novos e majestosos Templos à semelhança daquele apregoado pelo profeta. Ageu fala quando o Templo ainda era o centro de culto do povo da Antiga Aliança. No momento crítico do pós-cativeiro babilônico, quando as bases da aliança com Deus precisavam ser reafirmadas, reconstruir o Templo era vital, talvez tanto quanto o seja hoje, no pós-pandemia, ter o templo de nossa igreja organizado de maneira digna – numa demonstração de amor a Deus – e devidamente preparado para receber presencialmente o povo de Deus – num gesto de amor ao próximo.
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Ler os profetas – e as Escrituras em geral – com proveito requer que apreendamos de sua proclamação os princípios eternos que nos aproximam de Deus e nos conduzem no seu caminho. A própria Bíblia nos auxilia nessa leitura, já que o povo da Nova Aliança – por meio de Jesus, dos apóstolos e dos escritores do Novo Testamento – precisou reler o Antigo Testamento à luz da vida e da obra do Cristo-Messias, em quem se cumprem todas as profecias relativas à salvação. Neste sentido, ao lermos nossa Bíblia tendo Cristo como a chave para enxergar a unidade e a relação que há entre os Testamentos, temos a oportunidade de passar pela experiência dos discípulos a caminho de Emaús, a quem, em dado momento, Cristo disse: “Como vocês são insensatos e demoram para crer em tudo aquilo que os profetas disseram! Não é verdade que o Cristo tinha de sofrer e entrar na sua glória?” (Lc 24.25-26) E Lucas acrescenta: “E, começando por Moisés e todos os Profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras” (Lc 24.27).
“Moisés e todos os Profetas” possivelmente seja uma alusão à maneira como o povo da Antiga Aliança dividia as suas Escrituras. Moisés corresponde à Torah (Lei), de Gn a Dt; Profetas constitui o segundo bloco, chamado de Nebhi´im (Profetas), de Js a 2Rs (chamados de Profetas Anteriores) e de Isaías a Ezequiel e de Oseias a Malaquias (chamados de Profetas Posteriores). Um terceiro bloco, aludido por Jesus em Lc 24.44, é o dos Kethubhim (Escritos) – que começa com os Salmos e compreende todos os demais livros da Bíblia Hebraica não mencionados antes. Nesta perspectiva, arrisco dizer que Jesus revelou a Cléofas e ao outro discípulo como a vinda do Messias vinha sendo preparada e a Nova Aliança vinha sendo gestada em Gênesis – desde a primeira promessa dada a Eva em Gn 3.15; em Êxodo e Levítico – no detalhado sistema sacrificial do Tabernáculo e do Templo que foi obsoletado pela morte vicária e pela ressurreição de Cristo (Hb 10; Jo 2.13-22); em Números, Josué e Juízes – na árdua peregrinação e conquista da Terra Prometida, metáfora da caminhada cristã e da morada eterna que Cristo foi preparar (Hb 13.14; Jo 14.1-3; 1Pe 2.11); em Samuel e em Reis – no estabelecimento do reino de Davi, ancestral do qual nasceria o Filho de Davi, o Rei dos Reis e Senhor dos senhores (Rm 1.1-4; Mt 22.41-46; Ap 19.16); e assim por diante.
Expande-se, com isso, nossa compreensão tradicional de profeta, passando a ser não somente os porta-vozes de uma mensagem, mas também líderes que, levantados por Deus e sob sua orientação, traduziram a vontade divina também em atitudes e em ações para reforçar a aliança com Deus e semear no mundo justiça, misericórdia e esperança. Assim, além de Isaías, Jeremias e Ezequiel, podemos elencar entre os profetas também a Josué, Gideão e Samuel, entre outros. Isto sem falar no próprio Jesus, cujo ministério profético foi antecipado em Dt 18.15-19, exercido durante toda a vida em palavras e em ações, como testemunhado nos Evangelhos (Lc 24.19-24), em Atos e no Apocalipse, e confirmado nas Epístolas (Hb 1.1-2).
Leia a Bíblia com isso em mente e surpreenda-se com a vida, o ensino e as ações dos profetas. Há elementos difíceis na profecia bíblica, é verdade, coisas que talvez só venham a ser compreendidas “naquele Dia” (Am 5.18; Jl 2.1-2). Até lá, vamos aprendendo com Jesus e com os apóstolos a ler o Antigo e o Novo Testamentos como unidade viva, transformadora e eterna organizada ao redor de Cristo. Nesse exercício, o caro leitor também poderá encontrar um velho e, por vezes, desprezado profeta Ageu em sua Bíblia que, com seus 38 versículos, está motivando e fortalecendo minha igreja local na comunhão com Deus e no serviço ao próximo.
Paulo Teixeira é Secretário de Tradução e Publicações da SBB. Bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia do Instituto Concórdia de São Paulo; bacharel em Letras (Linguística, Hebraico e Português) pela FFLCH-USP; especialista em Língua e Literatura Hebraica pela USP; especialista em Tradutologia e Administração Editorial pelo Summer Institute of Linguistics/University of Texas.
A SBB
Desde 1948, a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) tem a missão de “semear a Palavra que transforma vidas”. Trata-se de uma organização beneficente, sem fins lucrativos, assistencial, educativa e cultural. Sua finalidade é divulgar a Bíblia e a sua mensagem, tornando-a relevante para todas as pessoas. Para isso, traduz, produz e distribui a Bíblia — além de incentivar sua leitura e estudo — e desenvolve programas sociais que atendem a populações em situação de risco e vulnerabilidade social.


