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quinta-feira, 29 julho 2021

Drama desconhecido: as crianças “bruxificadas” da Nigéria

“São crianças aterrorizadas, que temem existir e passam a acreditar que realmente são más”

Por Marlon Max

Dor, abandono e morte. Esse é o caminho que milhares de crianças percorrem na Nigéria, na África Ocidental. O país, segundo as Organizações das Nações Unidas (ONU), se encontra na posição 161 no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Entre outros problemas locais, está o terror vivido por crianças nigerianas que são acusadas de serem bruxas por alguns líderes religiosos — uma realidade pouco conhecida no Brasil.

Diferente do que se pode imaginar, a perseguição a esses pequeninos não vem de grupos terroristas, mas de ditos cristão fundamentalistas que perpetuam a teologia da prosperidade.

Diante da gravidade do assunto, e o desconhecimento sobre o fenômeno, Comunhão conversou com Gito Wendel que é escritor, ativista Social, coordenador da Religar Brasil e mentor na Capela Urbana. Além de ter formação em Serviço Social e Teologia, ele também serviu como missionário por vários anos no Brasil e em outros países. A partir de sua experiência na Nigéria, gerou o livro “O Filho de Abasi”, publicado pela Editora Grafar.

Vamos entender como ocorre o fenômeno, as motivações e quais frentes de trabalho atuam no país para combater a bruxificação de crianças. Confira!

Comunhão — Explique o fenômeno das crianças bruxificadas. Como isso começou?

Gito Wendel — Começou com a chegada da teologia da prosperidade, junto de missionários norte-americanos e europeus que se apropriaram de elementos da cultura local, distorcendo-a e implantando a ideia de que crianças podem ser bruxas, causando todo tipo de males à família e à comunidade, com isso eles vendem a suposta libertação que só os “doutores espirituais” podem executar.

Conte um breve relato que envolve uma criança bruxificada.

Em alguns casos, as crianças, além de abandonadas, sofrem violência, por causa da ideia de que são elas as causadoras dos males. Atendemos crianças que sofreram tortura tanto de lideres religiosos quanto da comunidade, por causa do estigma. Um desses pequenos, vou chamá-lo de Brian, teve grande parte do corpo queimada por ácido, enquanto dormia nas ruas. Ao chegar no orfanato, temia adultos e especialmente qualquer coisa relacionada às palavras “God” (Deus) e Jesus – por causa dos maus-tratos que recebeu em ambientes da fé evangélica onde o estigma é comum.

São crianças aterrorizadas, que temem existir e passam a acreditar que realmente são más. Quando tive malária, ele (Brian) se aproximou de mim para pedir perdão: ‘desculpa tio, o senhor ficou doente por minha causa’. O tempo, o cuidado e o afeto vão amenizando as dores destes pequeninos e lhes dando a consciência de que não são amaldiçoados e sim muito amados.

No tempo em que você viveu na Nigéria, como atuava para mitigar essa situação?

A ONG Way To The Nations, com sede em Londres, começou a desenvolver projetos de resgate e acolhimento dessas crianças. Elas eram identificadas, encaminhadas para assistentes sociais e órgãos responsáveis para discernir a questão da estigmatização, e então acolhidas no Factory Of Hope, orfanato na cidade de Eket.

O governo local tem ciência desses atos? Se sim, o que faz para erradicar a prática?

Sim. O governo local sabe, mas fica perdido. Por um lado, incentiva práticas contra a estigmatização de crianças, por causa do risco para a imagem da Nigéria lá fora. Afirmam serem casos isolados de extremismo religioso – o que não é verdade. Por outro lado, ficam reféns economicamente das grandes igrejas, da influência na política e na economia. Até pouco tempo atrás, dos dez pastores mais ricos do mundo, cinco eram nigerianos, e nosso representante mais rico, o Bispo Edir Macedo, nem constava no Top 10. Com isso, dá para imaginar a influência das mega-igrejas na Nigéria.

Ouvir que tais práticas ocorrem em pleno 2021 faz pensar que o processo civilizatório encontra barreiras, como a do fundamentalismo religioso. A sociologia explica esse panorama?

O fanatismo religioso acompanha a sociedade desde que o homem buscou a religião para saciar o vazio da alma ou a busca por sentido. O fanático não está apto a aceitar ideias contrárias, discutir pontos e como diz Amós Oz, escritor israelense, além de ser um “ponto de exclamação ambulante, o fanático quer consertar o mundo à sua maneira e as pessoas para o próprio bem delas. Sempre teremos fanáticos em qualquer sociedade, o problema é quando eles, munidos de teorias da conspiração, ódio e intolerância passam a ser mais ouvidos que discernidos e ignorados.

Assim surgem os Estados totalitários. Estamos em uma época em que, por causa do advento da internet, os fanáticos encontraram um espaço para a exposição de suas ideias e muita gente tem comprado esse discurso. Na Nigéria, o fanatismo religioso encontra terreno fértil pelo extremo abismo social, num país dividido pela colonização europeia, que exacerbou as diferenças e a miséria. As comunidades religiosas passam a ter e a ser resposta para questões sociais.

Há igreja opostas a essas práticas, ou a situação abrange todos os cristãos do país?

Sim. Mas apesar do posicionamento oficial da igreja, a comunidade é bombardeada por ideias de bruxificação, o que complica o ensino da igreja local.

Você quase morreu de malária no tempo em que esteve lá, e mesmo assim persistiu em atuar no país. O que te motivou?

Eu tenho vínculo com as crianças. Já não eram apenas pequeninos acolhidos, eram amiguinhos, irmãozinhos, filhotinhos do coração. Quando há afeto, não há mosquito que impeça o serviço, nem fanáticos, nem terroristas. O real perigo na nossa vida é não amar.

No seu retorno ao Brasil, você escreveu um livro “O Filho de Abasi”. O protagonista do livro Asuquo é baseado em um nigeriano, ou é pura ficção?

Sim. Asuquo é inspirado num amigo muito querido, que continua lá no serviço anônimo aos pequeninos. Há ficção na história do Asuquo que narro no livro, mas meu amigo ele viveu realidades parecidas. Ele é o anônimo herói dessa história real.

É verdade que, após a publicação do seu livro, você foi proibido de voltar à Nigéria. Há essa perseguição ao trabalho que você desenvolvia no país?

Sim. Os “voluntários de fora” divulgam o fenômeno da bruxificação. No meu caso, eles complicavam a retirada de visto, que só é permitida depois de apresentar a passagem aérea. Com o visto negado quase sempre no dia da viagem, o reembolso da passagem fica prejudicado e há um enorme peso financeiro. Lá, a perseguição quase sempre era feita por líderes religiosos, que veem os projetos como complicadores de um de seus métodos de conseguir dinheiro.

O que o cristão brasileiro pode fazer hoje para ajudar essas crianças?

Precisa acreditar que o fanatismo religioso evangélico amparado pela teologia da prosperidade é o maior inimigo da fé cristã. E que por causa dele, crianças são mortas em nome de Jesus, e o nome de Jesus é blasfemado por quem diz que é Dele, mas que não ama como ele amou.

Esse é o primeiro passo, porque evitará que outros pequeninos sejam estigmatizadas no futuro, lá e aqui. Eles vão professar o nome de Jesus e não apenas dizer a palavra Jesus, mas viver a fé “de” e “em” Jesus.

Como é possível ajudar essa causa?

Ser como Jesus foi. De forma prática, as pessoas podem procurar por Way To The Nations, Caminho Nações ou Religar Brasil nas redes sociais e se dispor a colaborar com serviços e doações.

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