A devolução dos dízimos e das ofertas por meios digitais, como o Pix e o QR Code, tomou força durante a pandemia, mas hoje ainda gera dúvidas.
Por Cristiano Stefenoni
Durante a pandemia, a devolução dos dízimos e das ofertas por meios digitais, como o Pix e o QR Code por exemplo, foi a saída encontrada pelas igrejas para que elas continuassem funcionando mesmo com as portas fechadas. Passado o isolamento social e a volta presencial aos cultos, a prática continuou para uns, mas abandonadas por outros que preferem levar o valor pessoalmente ao local de adoração. Mas será que a fidelidade virtual agrada a Deus?
Que o Pix já caiu nas graças do brasileiro, isso ninguém discute. Só no ano passado ele gerou um movimento de R$ 10 trilhões, segundo o Banco Central. Parte desse montante refere-se às transações financeiras das igrejas, em especial, feita por meio das doações dos membros.
Contudo, há uma parcela que ainda prefere ter a sua fidelidade à Deus da forma tradicional, seja por não saber lidar com a tecnologia, seja pela simbologia em levar a oferta em espécie até a casa do Senhor.
“Deus criou a mente humana, que fez a tecnologia. A forma como vou transmitir os recursos para a igreja não interfere muito. A fidelidade e a intenção no coração é o que mais importa”, ressalta o engenheiro de dados, Salatiel Bairros, especialista em inteligência artificial e membro da Igreja Batista Conde, no Rio Grande do Sul.
Ele explica que, no passado, quando o dízimo foi instituído por Deus, não havia moeda de papel e era muito comum as pessoas honrarem a sua fidelidade doando o percentual 10% do que produziam nas colheitas e na criação de animais.
Além disso, a ordem dada em Malaquias 3:10, “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro”, não está ligada a um local físico, mas sim ao propósito de se doar para a manutenção da igreja.
“A forma como você vai doar não é estipulado na Bíblia. A prática antiga de se levar os valores e bens diretamente ao templo remete à realidade da tradição judaica da época, porque não havia outro meio. Hoje é possível doar de qualquer parte do mundo, sem estar presente ao local. O templo somos nós”, explica.
O engenheiro lembra ainda que o princípio da gestão financeira bíblica deve abranger toda a vida do cristão e não apenas os dízimos e as ofertas.
“Não adianta eu devolver 10% do que ganho se os outros 90% gasto de forma errada, com coisas banais, sem investir na família, por exemplo. Da mesma forma que é inadmissível a igreja cobrar fidelidade, sendo que há algum dos seus membros passando fome em casa”, alerta.
Praticidade e segurança
Apesar da praticidade da doação virtual, o engenheiro de dados alerta para os cuidados na hora de se fazer essas transações, principalmente, em relação aos idosos que, no geral, não têm muita intimidade com a tecnologia. Para ele, cabe a igreja orientar nesse processo.
“A igreja precisa proteger as pessoas e deve ter um cuidado especial com esse assunto. De preferência ter uma forma única de fazer doações, bem explicada, de modo que não haja dúvidas. A instituição precisa se preocupar com as dificuldades dos fiéis em lidar com a tecnologia e ensiná-las”, orienta.
Outras dicas de segurança dadas por Salatiel são: ter autenticação em duas etapas em todos os seus aplicativos, não passar seus dados pessoais para ninguém, ter uma chave Pix que não seja o número do seu CPF e não acreditar em qualquer coisa que vê na internet. Já a igreja cabe ser transparente com seus membros.
“A igreja precisa ter uma gestão transparente do dinheiro. Deve enviar os comprovantes aos membros do que foi doado e divulgar relatórios para mostrar para onde está sendo destinado esses recursos”, afirma.

