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terça-feira, 27 julho 2021

Ditados populares que ensinam sobre Jesus

Cientista social, pastora e autora, Ágatha Heap estuda como os ditados populares brasileiros podem trazer lições práticas para a vivência cristã, sempre à luz da Bíblia

Por Marlon Max

É possível que ditados populares da cultura brasileira possam nos trazer lições bíblicas? Alguns, como o famoso “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, fazem parte do cotidiano e possuem significados como persistência, resiliência e perseverança.
É claro que nem tudo o que vem da voz do povo sai da boca de Deus.

Muitos conceitos impregnados na cultura brasileira não traduzem a experiência cristã proposta na Bíblia. Mas, em toda cultura, o saber popular serve como uma bússola que guia os povos para o caminho que julgam ser o correto, com base no senso comum. Ou seja, apesar de ser utilizado e recomendado em uma cultura, não é possível ser verificado e analisado cientificamente.

A cientista social Ágatha Heap explora as diferenças entre a cultura popular e a Bíblia, por meio de seu livro A Voz do Povo e a Voz de Deus. A escritora, que também é pastora da Igreja do Nazareno em Atibaia, São Paulo, examinou 20 ditados buscando similaridades ou diferentes nas escrituras sagradas. “A minha formação em Ciências Sociais desenvolveu em mim um apreço muito grande pelo estudo e observação de culturas em geral”, explica a autora.

Leia a entrevista

Comunhão — É possível encontrar uma palavra de Deus nos ditados populares?

Ágatha Heap — É possível. “O falar é prata e o ouvir é ouro” confirma a sabedoria bíblica. Podemos comparar com o texto de Tiago 1:19 que diz: “todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar”.
Outro ditado: “diga-me com quem andas e te direis quem és” tem similaridade com o Salmo 1: “como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores!”

O que podemos aprender com os ditados populares?

Os ditados populares têm muito valor, pois expressam a “sabedoria popular”. Isso quer dizer que há alguma verdade carregada pela tradição e costumes de um povo. Por vezes, esses ditados expressam um ideal, não necessariamente o que todos fazem, mas com certeza têm alguma expressão de entendimento cultural.

A Bíblia confirma e expressa a sabedoria popular?

Às vezes sim. Deus é criador do mundo e das pessoas. Ele se manifesta na Sua Criação, na Sua Palavra e no ser humano. Há indícios dos ensinamentos de Deus nas culturas, mesmo que inconscientes, mas eles não costumam ser plenos. Por isso, a confrontação bíblica é importante.

Na Bíblia existem ditados populares?

Sim. Estudiosos da cultura judaica e também da antiguidade apontam diversas falas que remetiam a algum conhecimento popular. Nós, um tanto mais distantes geográfica, histórica, temporal e culturalmente, nem sempre entendemos cada história, símbolos e falas compartilhadas, mas elas existem.

Qual a diferença entre saber popular e a sabedoria bíblica?

A sabedoria bíblica são os ensinamentos registrados e vividos, especialmente, por Cristo. A sabedoria popular são os conhecimentos passados de geração em geração, com grande carga de tradição, dentro de uma cultura.

Como foram escolhidos os 20 ditos populares citados em seu livro?

Identifiquei uma característica de Cristo e busquei algum provérbio popular que se relacionasse a tal particularidade. Em alguns casos, incluí vários na mesma pregação. Mas, ao virar livro, padronizamos a apresentação de um dito popular por capítulo.

Essas lições extraídas dos ditados se opõem à realidade bíblica?

Algumas, sim e outras, não. Toda cultura tem elementos que podem ser assimilados e celebrados com o conhecimento bíblico. Ao mesmo tempo, devido ao pecado e à corrupção humana, toda cultura também tem elementos contrários ao ensinamento bíblico, pois envolvem corrupção, egoísmo, entre outros desvios que levam o homem a pecar e a cometer erros. Por isso, eles devem ser pensados e criticados – positiva ou negativamente.

O que o leitor vai encontrar nesta obra?

Acho que tem essa função cativante e inspiradora. Tenho uma tendência a querer ver utilidade em quase tudo o que faço. Creio que a leitura não deve simplesmente acrescentar informação, mas trazer algum incentivo à transformação. Então, espero que ao ler o livro o leitor consiga enxergar a sua própria cultura de forma inovadora, aprender o estilo de vida de Cristo e olhar para si desejando e decidindo ser mais como Ele.

O brasileiro, em geral, utiliza expressões relacionadas a Deus no dia a dia…

Sim. O povo brasileiro é muito religioso, mas, por vezes, é uma religião genérica, cultural, sem tanto compromisso individual. As pessoas usam linguagem cristã sem receios (amém, em nome de Jesus, graças a Deus, só por Deus, pelo amor de Deus).
Nesse livro, tento trazer um olhar mais específico. Temos um modelo. Jesus não é genérico. Então, precisamos estar atentos e querer aprender muito dele para que nossas crenças e fé não sejam mero comportamento social, mas um estilo de vida profundo e verdadeiro.

Como sua formação em ciências sociais contribuiu para a análise da cultura brasileira?

A minha formação em Ciências Sociais desenvolveu em mim um apreço muito grande pelo estudo e observação de culturas em geral. Há sempre algo universal, mas sempre algo muito específico em cada cultura. Como brasileira, amo a nossa cultura, ao mesmo tempo em que sei que é difícil me afastar dela e analisá-la com neutralidade. Vejo inúmeras qualidades nos brasileiros, mas também identifico tantas coisas que eu gostaria que fossem diferentes e melhores.

Almejo um país mais “decente”, como Darcy Ribeiro desabafou na introdução do seu livro O Povo Brasileiro. Não sou uma teórica ou intelectual. Sou cidadã, mãe, professora, pastora. Vivo a vida comum do nosso povo. Considero importante para possamos nos enxergar e nos transformar.

Qual sua maior inspiração para escrever?

Jesus é a minha maior inspiração. Falar de Dele sugere um pouco mais de resistência. Cristo não é tão bem aceito por todos. Seu papel na história da humanidade é questionado por muitos não crentes. Por isso, achei tão relevante colocar Jesus no centro das análises culturais, para que Ele realmente fosse o modelo inspirador e de uma jornada de vida transformada. A cultura é aprendida e absorvida, em grande parte, por imitação. Se precisamos imitar, que tenhamos o melhor modelo diante de nós: Jesus!

Sobre a autora

Ágatha Cristian Heap é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; em Geografia pela Universidade Metropolitana de Santos; e em Teologia pela Faculdade Nazarena do Brasil. É mestre em Religião com ênfase em Teologia pela Point Loma Nazarene University, na Califórnia, EUA. É pastora auxiliar na Igreja do Nazareno, em Atibaia, desde 2006.

 

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