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domingo, 25 outubro 2020

Dia do professor, protestantismo e educação

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Foto: Arquivo Agência Brasil

No Brasil, o ensino público foi implantado em 1772, com estudo religioso obrigatório e vedado às mulheres e aos negros

Por Lidice Meyer Pinto Ribeiro 

O dia do professor nos faz pensar na importância destes homens e mulheres que contribuíram ativamente na nossa formação como pessoas civilmente capazes. Mas como uma data comemorativa nacional instituída em 1963 pode estar relacionada à Reforma Protestante?

É que até o século XVI o ensino em todo o mundo era dirigido pela Igreja e o papel do professor era sempre exercido por religiosos. O ensino escolar era destinado apenas aos meninos, restando às meninas o aprendizado das boas maneiras e do governo do lar. Lutero demonstrou a ineficácia do sistema escolar existente, restrito aos conventos, paróquias e mosteiros. A Reforma Protestante enfatizou a necessidade de uma educação laica, universal, voltada para a vida civil e dirigida pelo Estado. Em 1524 Lutero enviou a “Carta aos conselhos de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas”.

A intensão era convencer as autoridades civis a criar e manter escolas gratuitas para meninos e meninas onde estes aprendessem a ler e escrever na língua materna, além do grego, latim, matemática e história. A escola primária daria a mesma oportunidade a todos, embora só alguns provavelmente se destacassem e seguissem os estudos avançados. O Estado teria o dever de proporcionar estudo público a todos e caberia aos pais fiscalizar esta função. Inovando ainda mais, Lutero criou primeira cartilha e o primeiro livro didático no formato de perguntas e respostas. O protestantismo deste seus primórdios esteve envolvido com a educação e estabeleceu a prática de cada igreja criar junto de si uma escola.

No Brasil, o ensino público foi implantado em 1772, com estudo religioso obrigatório e vedado às mulheres e aos negros. Os alunos destas primeiras escolas públicas eram mulatos, pois meninos brancos eram encaminhados aos colégios religiosos ou internatos na Europa. A Constituição de 1824 garantiu a “instrução gratuita a todos os cidadãos”, mas a procura pela escola pública continuou mínima. No dia 15 de outubro de 1827, mais tarde escolhido como dia do professor, foi aprovada a 1ª. lei sobre o Ensino Elementar que determinava a criação de “escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e lugarejos” e “escolas de meninas nas cidades e vilas mais populosas”. Pouco foi o avanço educacional conquistado após esta lei pois mesmo no século XIX, a tendência ainda era para a procura por escolas religiosas.

A história começaria a mudar com a chegada dos missionários protestantes ao Brasil em meados do século XIX. Seguindo o ideal da Reforma fundaram um grande número de colégios em todos os locais por onde passaram. Formaram escolas de vanguarda que se contrapuseram diretamente ao ensino existente no país, introduzindo o ensino laico, classes mistas para meninos e meninas, abertas a toda classe sócio-econômica, com aulas de artes e educação física, ausência de castigos físicos e implementação de métodos pedagógicos inovadores. A educação no Brasil nunca mais seria a mesma! Até hoje é prática das juntas de missões criar escolas nas áreas evangelizadas. Muitas destas escolas centenárias persistem até hoje, tendo deixado marcas profundas na formação de cada indivíduo que as frequentou. Podemos encontrar seus ex-alunos ainda nos seus corredores como diretores e professores, mas também atuando nos diversos setores da sociedade brasileira, contribuindo positivamente para seu desenvolvimento.

Apesar do dia 15 de outubro se referir à 1ª lei que determinou a criação de escolas em todas as vilas e cidades, isto só veio a se realizar devido à forte enfase na educação trazida pelos missionários que percorreram os quatro cantos do Brasil por trilhas e estradas levando a Bíblia, e criando escolas para que o povo a pudesse ler.

Lidice Meyer Pinto Ribeiro. Dra. em Antropologia, professora convidada na Universidade Lusófona, Portugal

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