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quinta-feira, 7 julho 2022

Dia da mulher e seu papel na igreja: parte 2

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Como as demandas do trabalho se impõem sobre as questões da feminilidade, as mulheres estão priorizando a vida profissional à maternidade”

Por Ilma Cunha

Devido as comemorações do Dia Internacional da Mulher a articulista Ilma Cunha, juntamente com a revista Comunhão, entrega uma série de três artigos intitulada “Dia da mulher e seu papel na Igreja”.

Retomando o princípio divino destinado a mulher, é importante ressaltar, mais uma vez, que ele está inserido no contexto do casal, em Gênesis 3, para orientá-lo à vida fora do jardim do Éden, preparando o homem e a mulher para a independência e responsabilidade de suas próprias escolhas. 

 Além de todas as questões subjetivas de construção de sua feminilidade, o papel profissional que a mulher agregou aos seus múltiplos papéis, tem lhe trazido tremendos desafios para serem conciliados em sua vida.

É evidente a facilidade que a mulher tem de encontrar espaço no mundo do trabalho. Percebemos que o número de mulheres nas universidades, nos cursos e concursos é superior ao dos homens. São fatos que sinalizam a tendência do crescimento do número de mulheres no mercado de trabalho e que nos impulsionam a uma reflexão sobre o lugar do homem na pós-modernidade.

Este cenário mostra o quanto o desejo da mulher está se dirigindo para o trabalho. Cabe sempre mais um pouco de trabalho na vida de uma mulher já envolvida neste círculo vicioso. Acostumada a múltiplas funções, e com as experiências das inúmeras demandas familiares, a mulher se permite sempre mais em busca de reconhecimento e valorização e não se apercebe que o trabalho serve como excelente motivação para destinar sua libido e para tamponar os vazios afetivos.

Os afetos perdidos vão em busca do amor fantasioso e são compensados pelo consumismo – coisas no lugar de afetos – e pela obsessão pela beleza que se impõe como uma lei perversa, dura, tirânica, implacável no seu padrão de beleza que exige sempre mais para um ideal de corpo inalcançável. Neste campo entram os transtornos alimentares, os apelos eróticos, as doenças tipicamente femininas que atingem os órgãos da sexualidade e fertilidade (útero, ovários, trompas, mamas etc.) É cada vez mais assustador o número de mulheres atingidas pelo câncer nestes órgãos.

Qual o preço desta via desviante do desejo? A angústia insiste em comparecer para denunciar o que não pode ser denunciável: uma dor sutil e silenciosa, como uma luzinha no painel de um veículo, que avisa de que algo não está bem. Mulheres ansiosas, agitadas, angustiadas e insatisfeitas que depositam no corpo, na linguagem do sintoma, as dores da alma. O sintoma fala do que a linguagem não deu conta. São mulheres fortes, rígidas no cumprimento do dever, que só se permitem fragilizar pela via de um sintoma, de uma dor, de um adoecimento.  

Como as demandas do trabalho se impõem sobre as questões da feminilidade, as mulheres estão priorizando a vida profissional à maternidade. É grande o número de mulheres bem sucedidas profissionalmente que enfrentam dificuldades para engravidar quando decidem pela maternidade. Muitas vezes, esta decisão é tomada pelas pressões familiares e sociais e não propriamente pelo desejo pela maternidade. 

Diante destes desafios da feminilidade, a maternidade traz novamente o confronto com o desejo. Confrontadas com a infertilidade, muitas recorrem aos métodos de fertilização, mas é grande o número também das que, mesmo com o auxílio científico, não dão conta de sustentar o desejo. Na realidade, quando analisamos a história familiar, há questões da feminilidade que precisam ser elaboradas para que o desejo se enuncie”.

Aponto essas questões da infertilidade e do encontro infértil em meu livro: Enigmas da Alma-uma decifração à luz da Palavra de Deus, no capítulo: “Quando a infertilidade começa na alma”.

Portanto, o papel da mulher na igreja não está segmentado apenas aos cargos que ela ocupa na estrutura eclesiástica, no trabalho voluntário ou nos papéis que desempenha. A mulher está inserida no cenário da igreja de uma forma profunda e intensa. O jeito feminino de ser, de amar e de servir, de abrir seu coração para acolher os filhos na família cristã, muitas vezes órfãos de pais vivos, de adotar (dotar de amor) esses órfãos da vida, é natural para as mulheres, com algumas exceções, faz parte de sua missão. 

Costumo dizer que a mulher foi criada com essa dimensão para amar. Somos sensíveis, perceptivas, intuitivas, objetivas e subjetivas, mas sempre amorosas, nascidas para a ternura, a meiguice e o afeto. Se isso não for natural para a mulher é porque foi roubada e saqueada em suas essência nas adversidades da vida. Qualquer distorção nessa estrutura, foge ao plano original de Deus, gerando frustração e o adoecimento da Alma.  As feridas da alma podem obstruir o fluxo do amor e dificultar a livre expressão do amor em todas as dimensões relacionais, inclusive na relação intrapessoal.

Apesar de todos os desafios para a mulher nesta etapa da história, em suas múltiplas e importantes funções, ela tem a força do Senhor para ajudá-la a exercer seu papel sem perder a graça, a ternura e o valor de ser mulher.

É ela que gera, que carrega em seu ventre gerações e que tem o sublime papel de formar um filho para a vida, como ajudadora do seu marido, influenciando histórias e destinos.

Como mulher, ela trouxe doçura, sensibilidade e beleza para o mundo. Como esposa, ela é a ajudadora em todas as necessidades do homem no exercício de sua função e como mãe, ela é agente de transformação que impacta a vida de um filho e que deixa a sua marca geracional. 

As mulheres estão presentes no contexto bíblico de uma forma inequívoca em seu valor e importância para Deus. Há inúmeras mulheres que se destacaram nos relatos bíblicos, desempenhando papéis essenciais. As ações, posturas, estratégias, lugares ocupados por essas mulheres são hoje destacadas nas mensagens sobre as mulheres bíblicas.

Algumas delas como Débora, Rute, Ana, Abigail, a Sunamita, Ester, Maria de Betânia, Marta, Isabel, a Samaritana, a mulher do fluxo de sangue, Lídia, Dorcas e, especialmente, Maria, a escolhida para ser mãe de Jesus, são uma pequena amostra dessas mulheres que marcaram as páginas da Bíblia com suas ações e histórias.

Elas marcaram o ministério de Jesus: foram as últimas ao pé da Cruz; as primeiras no túmulo e as primeiras a proclamar a ressurreição. Na verdade, em todos os lugares alcançados pelo cristianismo,  fundamentados nos princípios tão claramente evidenciados no ministério de Jesus, o valor da mulher é reconhecido. 

Não é meu propósito abordar aqui nesse texto  a recorrente discussão se a mulher deve ou não assumir determinados cargos na igreja. Na verdade, na minha percepção, isto não faz diferença para uma mulher alinhada com o propósito de Deus em sua vida. Se vier um cargo, ótimo, vamos nos esmerar para desempenhar com dedicação e excelência. 

A disputa de lugares, a competição (geralmente predatória), a obsessão por reconhecimento traz muitos danos para a vida de uma mulher, especialmente os emocionais, porque eles depositam no corpo os sintomas das angústias presentes na alma.

Ilma Cunha é Teóloga, Psicanalista, Terapeuta Familiar Sistêmica, Consultora e Instrutora de Treinamentos na área comportamental em empresas públicas, privadas e empresas familiares. Diretora da DINAMIZE Assessoria Comportamental Ltda. Possui mestrado e doutorado em Psicologia do Aconselhamento na FCU/Flórida/USA.

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