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quinta-feira, 9 dezembro 2021

Os desafios do ministério pastoral

Ele é um pouco médico, psicólogo, administrador, estudante, professor, é marido, pai, empregado, patrão… Ser pastor não é fácil, embora muita gente ache simples cuidar de um rebanho

Dia de culto. Templo cheio. Oito da noite. Pouco antes, ele estava no gabinete com um grupo de irmãos orando ao Senhor pelo êxito da programação. Ele sobe ao púlpito, exibe um sorriso generoso e cumprimenta a todos. Olha para a Bíblia para verificar se o esboço do sermão está no lugar exato da passagem a ser lida.

Olha ao redor e percebe os fiéis bem arrumados, atentos, sedentos pela Palavra. Ele tem a sensação de que tudo está sob controle. O culto prossegue alegre e agradável. Muito louvor, oração e ministração da Palavra de Deus. Pessoas aceitam a Jesus como Salvador. Que alegria!

Mas a atividade pastoral termina aí? Claro que não. Assim, nos dias de culto apenas, a vida pastoral não parece ser tão difícil. Exige certo trabalho, sim, mas com alguma dedicação
e preparo prévio, tudo pode ser organizado de forma que esteja sob controle. Terça-feira, após um dia de folga (quando tem), ele inicia uma nova semana de serviço pastoral.

Ainda pela manhã, recebe o telefonema de uma senhora, membro da igreja, que no último domingo estava aparentemente feliz com o marido no culto. Com a voz trêmula, ela
informa que o marido tem outra mulher e acabou de deixar a família. No dia seguinte, recebe a notícia de que um dos líderes da igreja foi hospitalizado em caráter urgente e precisa ser submetido a uma cirurgia muito delicada.

Na quinta-feira entra no gabinete pastoral uma das jovens da equipe de louvor. Ele, muito amável, elogia seu empenho na área da música e pela bela ministração no culto passado.
Em seguida, sem levantar os olhos, ela conta-lhe que está grávida de seu último namorado. Ele chega na sexta-feira precisando preparar a mensagem e a liturgia do próximo culto.

Na sua cabeça muitas preocupações. Aquele membro que não perde a oportunidade de atacá-lo com palavras duras, a esposa que está em casa reclamando sua ausência, os
filhos que sentem a pressão de serem “filhos de pastores”, o telhado da igreja que precisa de reparos, as visitas que precisam ser feitas, aquele casal problemático que precisa de
aconselhamento, as reuniões que precisa marcar… É… ser pastor não é tão simples assim.

O pastor

Ser pastor é diferente de qualquer outra atividade profissional. Se um médico se aborrecer com um paciente ou não conseguir solucionar o problema que ele apresenta, pode
encaminhá-lo a outro profissional que tantos outros surgirão. Se um patrão constatar a incompetência de um empregado, pode demiti-lo que gente não vai faltar que deseje a vaga.

Mas pode um pastor desistir de uma ovelha? Deixar de se importar com ela? De jeito nenhum. Aí começam as diferenças entre ser pastor e exercer outra atividade. Às vezes ele nem pode dar-se ao direito de estar mal-humorado. No seu semblante deve haver uma alegria constante. Seu olhar deve transmitir uma confiança contagiante. De sua boca sempre deve sair palavras sábias e edificantes. Suas ações devem ser exemplo para sua família e para a Igreja.

Mas será que sempre é assim? Diferente de outras ocupações, os pastores não podem simplesmente fechar a porta do escritório (ou da casa!) e saber que a sua tarefa do dia foi concluída ou que poderá continuá-la amanhã sem problemas. Ele é muito cobrado e sempre tem muito o que fazer.

De fato, todos sabemos que não é fácil ser pastor, pois o ministério não é uma opção, mas uma vocação divina. Paulo afirmou em Efésios 4:10-12: “(…) E ele deu uns como
apóstolos e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos para a obra do ministério, para
edificação do corpo de Cristo”.

De modo geral, ninguém pede para ser pastor, mas aprouve ao Senhor separar pessoas para esta missão específica. Como nos tempos bíblicos Deus chamou muitos indivíduos
para ministérios, é razoável crer que faça o mesmo hoje. Erwin Lutzer, no livro “De pastor para pastor”, Editora Vida, define que “o chamado de Deus é uma convicção interior, dada
pelo Espírito Santo e confirmada pela Palavra e pelo corpo de Cristo”. O indivíduo chamado será orientado por Deus para conduzir o rebanho de Cristo pondo em prática a Palavra e
os talentos que recebeu do Pai.

A vocação

O conhecido pastor e escritor Charles Spurgeon já escreveu: “Se um homem perceber, depois do mais severo exame de si mesmo, qualquer outro motivo que não seja a glória de
Deus e o bem das almas em sua busca do pastorado, melhor que se afaste dele de uma vez, pois o Senhor se aborrece com a entrada de compradores e vendedores em Seu
templo”.

Conquistar status social pode ser outro objetivo. Os títulos: pastor, bispo, apóstolo, reverendo transmitem uma certa dose de autoridade que dignifica o ser humano. Em I Timóteo 3:1 Paulo define bem que o desejo deve ser pela obra e não a posição. “Se alguém deseja o pastorado, excelente obra almeja”.

Isso porque ser pastor é portar uma grande responsabilidade, maior até do que muitos desavisados possam imaginar. O Senhor Deus, em Jeremias 23 diz que “ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do Meu pasto”. Em Malaquias 2, o Senhor repreende sacerdotes ímpios: “Pois os lábios dos sacerdotes devem guardar o conhecimento (…)
porque ele é o mensageiro do Senhor”. E não apenas aos pastores Ele adverte, mas também aos falsos que envergonham Seu nome (v.16).

Como se não bastasse haver no meio da comunidade evangélica homens e mulheres não vocacionados para o ministério, há também os que se tornam ministros pelo senso de
obrigação. Depois de terem passado pela família, conselho e terem feito o curso teológico no seminário, sentem-se na obrigação de ir até o fim de seu “chamado”. Sentem-se
culpados se não fizerem aquilo que todos esperam dele.

“O seminarista deve entender que, mesmo que tenha feito o curso de teologia, caso sinta que não foi chamado ao pastorado, o tempo de estudo e de preparação nunca será
perdido. Este poderá ser excelente ajuda às igrejas como pregador, professor e líder. O peso de um sentimento de obrigação não pode levar ninguém ao pastorado”, disse o pastor Gênesis Bezerra, de Mato Grosso do Sul.

Muitos pastores não exercem o ministério em tempo integral. Ter uma profissão e ser um ministro de Deus é comum atualmente. Fato muito bem tratado pelo Pr. Dennis Bickers em
seu livro “Pastor e Profissional – A alegria do ministério bivocacionado”, Editora Textus.

Mas há os que exerceram suas profissões e após a aposentadoria dedicam-se tempo
integral ao ministério.

A carreira militar completa não foi suficiente para o coronel aposentado Nilo de Oliveira sentir-se um homem feliz. Foram quase 30 anos na Polícia do Espírito Santo. Hoje o Pr. Nilo
de Oliveira está …. Ao se converter, há dez anos quando era capitão, sentiu o chamado de Deus para o ministério. Ainda no primeiro ano de seminário, já assumiu uma congregação em Iriri. “Passei a vivenciar a vida pastoral de imediato”, revela.

O conhecimento da Palavra de Deus e o preparo para o ministério foram determinantes para a carreira secular do então coronel. “Eu aprendi a ser mais humano, ser mais
ponderado, a amar mais. Deus faz isso com a gente, é uma benção mesmo. Ocupando um cargo de liderança a pessoa pode se sentir superior aos outros, mas sendo um
profissional cristão você aprende a se colocar no lugar dos outros”.

As cobranças

Um dos grandes obstáculos que o pastor encontra na atualidade é a visão errônea de que cabe a ele a difícil tarefa de ser o solucionador permanente de problemas. Espera-se que
um “bom pastor” seja uma pessoa pronta para responder a qualquer questão, que entenda de tudo, que dê sempre o palpite certo em tempos de indefinição e ore com “eficácia”
diante da enfermidade, desemprego, crise familiar, entre outras coisas.

Mas a grande carência de nossas igrejas na atualidade não é a de grandes visionários, cheio de títulos e diplomas com propostas extraordinárias para aumentar a visibilidade da
igreja na sociedade. Nossas igrejas estão necessitando de pastores que se coloquem realmente na posição de pastores, cuidado e zelando pelas vidas conduzindo-as com amor
em direção a maturidade cristã.

Se assim ele o fizer, tudo mais que ele realizar será positivo para o crescimento da Igreja porque o ministério é feito de um conjunto de qualidades naturais e espirituais em plena
harmonia e funcionamento. É extremamente benéfico para a Igreja traçar planos em todas as áreas, inclusive no que diz respeito à evangelização e enfrentamento de crises para
adquirir mais qualidade em sua atuação na comunidade.

Sempre sujeitos a avaliação pública, é comum pastores terem receio de arriscar um planejamento novo para a Igreja por não conseguir colocá-lo em prática. Temem que a Igreja os julguem ousados demais. O Pr. Dennis Bickers em seu livro fala que o pastor precisa acreditar em sua potencialidade e a Igreja acreditar em seu pastor, em seus sonhos. Sim, sonhos, porque para alcançar seus objetivos ministeriais o pastor precisa sonhar, traçar metas e aplicá-las.

“É muito comum o ministério pastoral fracassar por haver na Igreja pessoas resistentes a mudanças, novidades. Mas o pastor deve entender que ele foi chamado primeiro para ser
algo, depois para fazer algo. Todas as suas ações devem ser frutos de muita oração”.
E ele precisa orar muito mesmo porque uma grande dificuldade encontrada pelos pastores é lidar com pessoas difíceis. Aliás, lidar com o ser humano, de modo geral, é complicado
para qualquer um. Interagimos com pessoas difíceis todos os dias. O pastor, pela freqüência do contato que o ministério exige, tem essa tarefa em maior volume. Entretanto, a Igreja não é como um hospital para pecadores, imperfeitos ao invés de um museu de santos?

“Penso que para solucionar problemas na Igreja é preciso aplicar o princípio que Mateus descreve no capítulo 18:15. O diálogo é o caminho, o perdão uma prática e uma mudança
de mente e atitude em Cristo, a solução. Como ministros, não podemos fugir destes desafios e sempre exercer o poder disciplinador da Palavra”, revelou o Pr. Tércio Rocha, líder da Igreja Presbiteriana em Jardim da Penha, Vitória (ES).

“Não podemos esquecer que a pessoa precisa ser restaurada. A igreja tem que ser lugar de misericórdia, lugar de tratar as pessoas como Jesus fez e nos ensinou a fazer. É como
um hospital mesmo. Todos nós convivemos em meio às nossas diferenças, problemas, pecados. Deus trata de todos, basta reconhecimento do erro, decisão de viver em
santificação e união. O Salmo 33 revela isso. Ao vivermos em união, ‘ali o Senhor ordenou a benção, a vida, para sempre’”, completou Rocha.

Problemas podem ser transformados em desafios ao crescimento, crises podem ser transformadas em oportunidades de vitória, dores podem ser transformadas em instrumentos de aperfeiçoamento. As dificuldades do ministério podem ser transformadas num intenso combustível para que ele continue de cabeça erguida e cumpra sua missão. “É importante destacar que quando o pastor é um homem de Deus, busca e tem a unção do Senhor, ele é muito amado pela Igreja que conduz”, disse o Pr. Tércio.

As cobranças muitas vezes são terapêuticas para o ministro. A partir delas o pastor pode fazer uma auto-análise de sua atuação. Lembrando que em todas as suas ações ele deve
zelar pelo bom nome do ministério da Palavra e de Nosso Senhor Jesus, sendo Seu imitador, como Paulo fala em I Coríntios 11:1.

Equilíbrio é a palavra chave na vida pastoral, segundo o Pr. Nilo de Oliveira. “Se o pastor não tiver equilíbrio ele toma decisões como um homem comum. E não é assim. O pastor lida com as diferenças e as decisões são em nome de Jesus. Como Jesus se posicionaria? Esta deve ser a pergunta, sempre”.

Dennis Bickers afirma que o equilíbrio no ministério exige que o pastor entenda que não é responsável por fazer as coisas acontecerem. “O equilíbrio significa que o pastor lidera de
acordo com o que crê que seja a vontade de Deus e depois entrega os resultados na mão dEle. O pastor é chamado para servir, liderar, orar e confiar em Deus. É importante que
ele ouça a Igreja. Às vezes eles pensam que são os únicos que ouvem a voz de Deus”, diz no livro.

Apoio e motivação

Uma grande preocupação do pastor é com a vivência de um Cristianismo vivo, onde as pessoas sejam em cada momento de suas vidas verdadeiros instrumentos de Deus. “O líder da Igreja deve conscientizar os membros que eles são canais de bençãos. Eles devem abençoar outros e não esperar que o pastor faça tudo. Somos um corpo e a Igreja precisa
estar ativa para ajudar o pastor em seu ministério”.

Um dos fatores motivadores do trabalho é o reconhecimento. Quem é que não gosta de ser reconhecido quando está cumprindo sua tarefa? Pois os pastores também precisam de
reconhecimento e motivação. Em Hebreus 13: 17 somos recomendados: “Lembrai-vos dos vossos líderes, que vos falaram a Palavra de Deus (…) Obedecei a vossos guias, e
submetei-vos a eles. Eles velam por vossas almas, como quem há de prestar contas”. A Igreja precisa caminhar lado a lado desses líderes.

O pastor César Leandro Hoffmaister acredita que enquanto líder o pastor tem em suas mãos uma tarefa maior do que talvez ele possa imaginar. “Toda pessoa que ocupa lugar de liderança é visado, imagine o pastor que, geralmente, é líder do líder nas igrejas. Por isso nós, enquanto submissos ao líder maior, nosso Deus, temos que agir orientados por Ele em tudo, nas decisões mais simples a serem tomadas”, diz ele referindo-se as variadas atividades do ministério pastoral, seja ela em administração, aconselhamento ou ministração da Palavra.

Antes de se formar, o Pr. Hoffmaister já atuava no ministério e sente que sem o apoio da família seria muito difícil prosseguir na caminhada pastoral. “A família é nosso suporte. Sou casado e tenho duas filhas adolescentes, minha esposa me ajuda muito na igreja, me compreendem e incentivam sempre.

Louvo a Deus pela família que me deu porque junto a ela Deus tem me permitido viver experiências preciosas que carregarei por toda a vida”.

Em I Timóteo 31-5, o apóstolo apresenta a família como uma referência para quem almeja o episcopado. “É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante (…) que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito, pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?”.

Paulo orienta ao seu amigo os pré-requisitos que tornam uma pessoa possível de ser levantada como ministro de Deus. E, nestes, encontramos uma referência de como cuidar de sua própria casa. Apresenta características dos filhos, do pai, enfim, da realidade que o ministro deve viver em seu lar. A família respalda o seu ministério, porém, em alguns casos, não ministra com ele. No tempo em que vivemos, a família pastoral é muito cobrada.

Tudo isso por causa de errônea visão de que a família pastoral é uma “família de pastores”. Muitas esposas de ministros, como já abordamos na edição 53, são grandes parceiras
de seus maridos, outras nem tanto. Há aquelas que têm suas atividades seculares, mas há aquelas que desejam se preparar para exercer sua atividade na Igreja de forma mais
eficiente. Foi o que aconteceu com Edy Lamar N. S. Oliveira, esposa do Pr. Nilo. “Temos 22 anos de casados, aos 12 anos ele sentiu o chamado para o ministério e eu também. Ele
ingressou no curso de teologia e eu no de educação religiosa. Ninguém me cobrou isso, eu me cobrei. Senti no meu coração o peso da responsabilidade e quis me preparar melhor
para ajudá-lo em tudo. O Senhor me deu esta visão e O louvo por isso”, declarou Edy.

Não há como conceber o ministério pastoral sem o apoio de sua própria família e o apoio da sua igreja. Por incrível que pareça a falta de apoio dos membros é uma das maiores
reclamações dos pastores na atualidade. Segundo o Pr. Silas dos Santos Vieira (in memorian), os ministros carecem de pessoas preparadas para ajudá-lo no ministério. Vale aí uma dica para todas as ovelhas: os pastores precisam de nós.

“Em nossas atividades procuramos oferecer ao pastor opções de aperfeiçoamento ministerial e para isso promovemos encontros de oração, cursos, seminários etc. Desejamos preparar cada vez mais o pastor. Mas sua igreja também precisa dessa visão. Os membros devem crescer em conhecimento para praticar a obra com mais evidência. O pastor não pode fazer tudo, por vezes ele tenta, mas não consegue. A Bíblia fala de união e nisso implica o apoio ao ministério daquele que Deus levantou para estar na frente da Igreja”, considerou.

Cada congregação, cada Igreja é um rebanho de ovelhas de Deus. Os líderes são aqueles encarregados de fazer como Pedro exorta: “Pastoreai o rebanho de Deus que há entre
vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados,
antes tornando-vos modelos do rebanho” (I Pedro 5:2-3). A missão não é fácil. “Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem aventurado no que realizar” (Tiago 1:25).

Esta matéria é uma republicação exibida na Revista Comunhão – Agosto/2002 e atualizada em 2021 (Priscilla Cerqueira). Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi originalmente escrita.

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