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quarta-feira, 5 agosto, 2020

Desafios para a igreja na pós-modernidade

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No contexto cristão, temos percebido como o viés consumista vem orientando nossas relações com uma roupagem religiosa.

O tema “Pós-modernidade” continua na pauta do dia. Embora seja uma temática muito debatida, prossegue sendo um assunto de grande interesse não apenas dos especialistas, mas também do povo simples e sem formação. E não era para ser diferente, já que a reflexão sobre o tempo em que vivemos não é exclusividade da Academia, mas se coloca com justiça como uma reflexão ontológica.

“No meu tempo era assim”, dizem os antigos, sempre contrastando com as características de nossa época. Tal frase já é reflexo de uma forma de encarar o tempo em que vivemos e como e da maneira como o assimilamos. Os sociólogos, historiadores, filósofos e também os teólogos, por sua vez, refletem ao seu modo sobre nosso tempo, sobre a Pós-modernidade.

Desde o niilismo de Friedrich Nietzsche, passando pelo dasein em Martin Heidegger, a humanidade chega ao século 21 longe de ter uma resposta final e consensual para os dilemas que envolvem o ser no mundo e o mundo que envolve o ser. E as dificuldades em torno dessa reflexão são muitas, a começar pela falta de unanimidade entre os pensadores quanto à própria expressão “Pós-modernidade”.

Teria a Modernidade de fato acabado para podermos falar assim em “Pós-modernidade”? Seria a expressão “Pós-modernidade” de todo correta? Essa falta de consenso já é por si só um indício de como é difícil definir o nosso tempo. Seja como for, aqui seguimos o conselho do teólogo católico, Luiz Roberto Benedetti, que afirma não haver nada mais ambíguo que o termo “Pós-modernidade”, uma expressão usada a torto e a direito, sem que de fato os interlocutores entendam seu sentido.

Benedetti prossegue: “Ninguém ousa definir a Pós Modernidade. A tentativa de definição é, por si só, uma atitude que contraria seus cânones (se é que existem). Situá-la no espaço e no tempo segundo características marcantes é a única atitude plausível”. É justamente o que procuro fazer neste breve artigo: conceituar a Pós-modernidade a partir de suas características marcantes e claro, refletir sobre como essas características foram assimiladas pela Igreja e como podemos responder seguindo o ensino do Evangelho.

A primeira característica que destaco aqui é o consumismo. Esse consumismo pós-moderno, por assim dizer, não se limita ou se reduz apenas ao consumo de bens e serviços, mas entrou na esfera das relações humanas. No contexto cristão, temos percebido como o viés consumista vem orientando nossas relações com uma roupagem religiosa.

Estamos presenciando de modo não tão velado o púlpito cristão ser tratado como balcão, o Evangelho como produto, pastores comportarem-se como “empresários eclesiásticos” e crentes como “clientes”. Nessa esteira, Deus é encarado como uma espécie de “garçom celestial”.

Precisamos regressar ao Evangelho puro e simples do Novo Testamento, que ensina amor ao próximo, o “levar as cargas uns dos outros” (Gálatas 6.2), o serviço cristão e nos apresenta Deus como Senhor, digno de ser adorado e servido. Uma segunda característica que aqui destaco é a do retorno ao sentimento. Antonio Cruz em Postmodernidad: el evangelio ante el desafio del bienestar (1996) chama nossa atenção para isso alegando que esse processo é na verdade uma ruptura com a ênfase na razão, tão comum na Modernidade.

O pastor Luiz Sayão concorda com essa conclusão ao afirmar que o Cristianismo hoje se coloca como uma das poucas propostas filosófico-religiosas que ainda sustenta o valor da razão para a interpretação da vida” e ele prossegue dizendo que em lugar do uso da razão, o que se nota é o reinar de capacidades não-racionais do ser humano.

A Igreja assimilou também essa característica da Pós-modernidade quando apela excessivamente ao emocionalismo na pregação e no culto como temos visto atualmente, fomentando práticas irracionais que tomaram o ambiente cúltico nos conduzindo a uma religião marcada por misticismo e sincretismo religioso. Convivemos com um movimento evangélico que se coloca numa incoerência: vê com suspeita o diálogo com a Teologia, com a Filosofia, com a História e com outras disciplinas que muito podem contribuir com o pensamento cristão, mas abre os braços para o tapete de sal, para a campanha do “manto ungido” e para a crença em amuletos religiosos.

A exposição bíblica racional é vista com suspeição enquanto o “arrepiar-se” é suficiente para autenticar uma mensagem como tendo origem em Deus. Poderia prosseguir mencionando outras características de nosso tempo, como o derretimento das estruturas estatamentais e, por extensão, das instituições sociais (podemos falar de uma ojeriza mesmo a essas estruturas) e que refletem diretamente no modus operandi da Igreja. Mas me dou por contente no sentido de ter provocado uma reflexão em torno de como a Igreja vem assimilando a cultura pós-moderna, no aspecto negativo, e de como necessitamos voltar ao ensino claro e puro do Evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.


Roney Cozzer é presbítero na Assembleia de Deus Central de Porto de Santana, Cariacica (ES), Mestre em Teologia pelas Faculdades Batista do Paraná (FABAPAR), coordenador do Curso de Teologia EAD da Faculdade Unilagos, no Rio de Janeiro e palestrante nas áreas de Teologia e Educação Cristã.


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