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terça-feira, 5 julho 2022

Depressão na pandemia: a luta contra uma doença “sem vacina”

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A adversidade associada às consequências socioeconômicas e o medo do vírus, têm um impacto importante na saúde mental da população, adverte a Organização Mundial da Saúde

Por Marlon Max e Andreza Lopes

Com a pandemia, as pessoas passaram a ser ameaçadas não apenas pelos riscos em se contrair esse vírus que já vitimou mais de 500 mil brasileiros. Invisível como o coronavírus, a depressão está afetando a vida de milhares de pessoas.

As adversidades, associadas às consequências socioeconômicas, preocupações com familiares em vulnerabilidade, possuem um impacto importante na saúde mental da população nesta pandemia que aflige o brasileiro há mais de um ano.

Considerada pela ciência como o “mal do século”, a depressão tem vitimado um número cada vez maior de pessoas. Em junho de 2018, Comunhão publicou uma matéria de Andreza Lopes sobre a depressão e seus efeitos na vida do cristão e especialistas desmistificaram a possibilidade de que a patologia seja, a priori, um problema espiritual.

Discussões e estudos acerca do tema ganham mais espaço em consultórios de médicos e psicanalistas, no ambiente familiar, em escolas e em igrejas. O debate sobre o que realmente é depressão e seus efeitos foi aquecido durante a pandemia. Segundo pesquisa divulgada pela Fiocruz, durante a crise da covid-19, aumentou o número de adultos com algum tipo de transtorno mental.

Entre os motivos recorrentes que corroboram para esse aumento, a entidade aponta o uso abusivo de álcool e outras drogas, presença de sofrimento psíquico, vulnerabilidade financeira e social. Diante desse cenário, provocado pelo confinamento e incertezas sobre o futuro, é preciso estar em alerta aos fatores de risco no cenário brasileiro.

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“Somos uma mistura de corpo, mente e alma, mas a ciência já está avançada e não podemos ter uma postura atrasada, quando as manifestações de doenças mentais eram confundidas com problemas espirituais” – Jovino Araújo, médico, psiquiatra e psicoterapeuta. Foto: Divulgação

O médico psiquiatra e psicoterapeuta Jovino Araújo observa que a mente humana tem muitos mistérios. Há mais de um século foram formuladas teorias que explicam o funcionamento de nossas emoções, prevendo uma área inconsciente do pensamento. Muitas coisas que acontecem com os seres humanos e suas emoções não se justificam pela lógica.

“Isso não é motivo para que expliquemos o que é desconhecido através de ideias espirituais. Essa associação pode até atrapalhar uma abordagem mais correta para um problema que é apenas de saúde e que poderia ser adequadamente tratado por um médico”, afirma ele.

De acordo com o especialista, depressão prolongada afeta estruturas cerebrais como o hipocampo, área responsável pela atenção, memória e raciocínio, o que gera mudanças na forma de pensar e de reagir, podendo causar até mesmo delírios.

E esse sintoma algumas vezes é confundido com problemas espirituais, o que é um erro. “Somos uma mistura de corpo, mente e alma, mas a ciência já está avançada, e não podemos ter uma postura que seria mais aceitável em séculos passados, quando as manifestações de doenças mentais eram confundidas com problemas espirituais”.

 

 

O cenário de instabilidade global e falta de entendimento sobre a patologia, leva alguns cristãos mais pragmáticos a terem ojeriza à doença. Porém, não se pode negar a escalada de casos, sobretudo durante a pandemia. As “doenças da alma”, como alguns designam as aflições psíquicas, podem alcançar qualquer um. A depressão é uma doença que apresenta não apenas sintomas como desânimo, cansaço, falta de interesse por desempenhar algumas tarefas ou tristeza profunda. Sua manifestação pode desencadear vários sintomas, entre eles ansiedade, inquietude, dificuldade de concentração, perda ou excesso de sono, dores de cabeça e até mesmo problemas digestivos.

De acordo com a OMS, a pandemia da COVID-19 teve amplo e profundo impacto na saúde mental da população em nível individual, comunitário, nacional e internacional. “É normal e compreensível que as pessoas tenham maior probabilidade de sentir medo, preocupação, estresse, nervosismo, ansiedade e inquietação ao se depararem com a incerteza. Somando-se ao medo de contrair o vírus, isso causa impactos de mudanças significativas na vida cotidiana das pessoas”, frisa o texto publicado pela Organização Mundial da Saúde.

Saber ouvir e reconhecer sintomas

Essas afirmações comuns são de serem ouvidas por pessoas que sofrem de depressão e que possivelmente ainda não identificaram o problema. Ainda que o diálogo sobre o assunto esteja sendo ampliado, há quem resista em aceitar a existência e o tratamento da doença, bem como a necessidade de atenção especial e apoio aos que sofrem vitimados por ela, o que dificulta muito o alcance da cura.

Pessoas de todas as idades podem ser acometidas, mas a incidência é maior na população economicamente ativa, salienta a psicóloga Carolina Huguett Batista, especialista em Neuropsicologia, Reabilitação Cognitiva e Terapia Cognitiva Comportamental. “Estudos mostram que crianças e idosos acima de 70 anos têm uma prevalência menor de ocorrência da doença. Todavia, percebe-se uma incidência uniforme entre as idades de 20 a 70 anos para seu surgimento, sendo as mulheres mais propensas que os homens”, destaca.

Ulysses Santos
“Os neutrotransmissores motivadores podem baixar por fenômenos genéticos, circunstanciais cumulativos, o que ocasiona a depressão” – Ulysses M. Santos, psiquiatra, coordenador-geral da Asscoaição Evangélica de Psicanalistas

Quando questionada sobre como surge a depressão e quanto à possibilidade de o mal ser considerado congênito, Carolina pontua que o transtorno tem uma patogênese (forma como afeta o organismo progressivamente) complexa e multifatorial que leva a uma expressão fenotípica (características observáveis, visíveis), resultado da interação genética com fatores externos, que é a apresentação dos sintomas. No entanto, pondera, cada caso é heterogêneo e particular.

Há fatores que podem tornar o indivíduo mais suscetível: carga genética; mudanças na expressão gênica ao longo da vida (por aspectos endógenos ou ambientais); alterações no sistema neuroendócrino; padrões cognitivos e comportamentais mais rígidos com o tempo; e traumas sofridos na infância (negligência, abusos físicos ou sexuais) ou atuais (doenças, perdas, lutos).

A depressão entre os cristãos

A doença também não escolhe fé ou classe social, pois têm sido comuns relatos de pessoas consideradas bem-sucedidas que sofrem ou já sofreram com o problema. O cristão também sofre. Ainda que em muitos casos isso aconteça de forma silenciosa, mas casos de evangélicos em tratamento contra depressão são cada vez mais frequentes.

Na Bíblia relatos acerca da condição difícil vivida por alguns personagens, a maneira errônea de interpretar o sofrimento e a falta de ajuda e compreensão pode agravar o problema, principalmente quando tratado como ação demoníaca e não reconhecido como uma doença que precisa de orações e também de acompanhamento profissional.

O Pr. Ulysses dos Santos, psiquiatra, coordenador-geral da Associação Evangélica de Psicanalistas e membro da Igreja Batista Filadélfia (Vitória/ES), elucida que na maioria dos casos de suicídio a intenção das vítimas não é tirar a própria vida, mas sim reverter a situação na qual se encontram.

A depressão pode se apresentar de três formas: leve, moderada e grave, sendo que nesta última há sentimento de profunda tristeza e, por consequência, de culpa maior, de frustação por não se sentir capaz de promover a reversão da situação, o que pode levar à tentativa de suicídio.

“A perda da força é resultante de uma desorganização hormonal cerebral, os neurotransmissores motivadores podem baixar por fenômenos genéticos, circunstanciais cumulativos, o que ocasiona a depressão. A pessoa vai perdendo a energia e fica incapaz de reagir, fica fragilizada por vários fatores, acrescidos do sentimento de culpa, o que pode levá-la a fazer uma bobagem”, elucida.

Para o tratamento da doença é fundamental a resiliência, que consiste na capacidade de lutar e enfrentar o problema. Porém, nem sempre existe.

O Pr. Ulysses pondera sobre a importância da comunhão no tratamento da depressão, à luz da Palavra de Deus. Ele esclarece que a “compreensão do marido, de um filho que está longe”, é essencial no auxílio a quem sofre com a doença, muito importante quando se trata de uma manifestação leve ou moderada. Quando for grave, são necessários a intervenção profissional e o uso de medicamentos.

“Como cristã, acredito que nenhuma doença ou transtorno foram planejados por nós. Logo, creio que não somente as doenças físicas ou psicológicas, mas também os modos desiguais e opressores que vivemos em nossa sociedade, os modelos familiares disfuncionais e a baixa qualidade de vida e acesso à saúde são frutos de uma condição decaída do homem que através do pecado se afastou do projeto inicial de plenitude e vida eterna de seu Criador”, pondera a psicóloga Carolina.

Esta matéria é uma republicação exibida na Revista Comunhão – Junho/2018, produzida pela jornalista Andreza Lopes e atualizada em 2021 (Marlon Max). Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi originalmente escrita.

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